2.8.11

Se acaso você não chegasse

Trabalhar com criatividade não quer dizer que você saiba defini-la. Pergunte pra qualquer um. Salvo o devoto da instantânea genialidade googlesca que está do seu lado, as respostas vão misturar diversos ingredientes, mas não vão encontrar fórmula no quadro negro ou no bloco de notas. Criatividade mistura informação, conhecimento, talento, curiosidade, método, empirismo, perseverança, ócio e aquilo que chamamos de acaso, mas que na verdade é a nossa incapacidade de compreender o que pensamos em sua real dimensão. Quem diz que sabe defini-la é metido a Deus. Ou a gênio do marketing. Ou as duas coisas na mesma mula sem cabeça.
E já está lá na Bíblia. E no início era o...Não, no início era ela, a criatividade, descendente direta da imaginação. Sem essa musa inspiradora, como os redatores bíblicos poderiam ter criado a novela com o maior ibope de todos os tempos, invejada por todo autor e artista que almeja a imortalidade?
A pré- história, por exemplo, farta em escassez de conhecimento, é rica tanto em ignorância como nessa matéria. Lá naqueles tempos remotos foram descobertos, inventados e criados alguns dos recursos e ferramentas mais importantes para o homem, principalmente porque serviam para tonar inerte outros seres (não apenas os de outras espécies), carneá-los, espetá-los, assá-los e comê-los.
Enfiada em seus aventais e tapapós, a ciência jamais prescindiu dessa deusa misteriosa e imprecisa. Os cientistas geniais são uma mistura de escafandros do conhecimento com lunáticos que viajam pelo éter desconhecido e colidem com buracos brancos de...eurekas!
E os artistas que nós tanto reverenciamos, Eles parecem possuir a fórmula secreta que não existe ao compor obras que encantam nossa percepção sem que saibamos como. Muitas vezes, achamos até que só o cigarrinho que o artista fuma pode explicar tamanha capacidade criativa. As clínicas que recuperação estáo aí para provar que a tese é totalmente palha.
Quando descemos ao nosso andar térreo, a criatividade é a bandeirante, a pioneira, a desbravadora das matas virgens da comunicação. No início, tudo era uma ideia na cabeça e uma boa verba na mão. Ser publicitário, por exemplo, significava ser dotado da impressionante capacidade de criar qualquer coisa, assim, de uma viagem ao nada. E ganhar muito dinheiro com isso. Mestre criativo, o publicitário estirava-se em sua cadeira, percorria quilômetros em sua própria sala e, de repente, eis a ideia, o slogan, o jingle, a campanha inteira. Era só passar para o layoutman fazer a arte e correr para o caixa. O resultado disso encharcou a universidade de jovens atrás do elixir do sucesso, da fama, do dinheiro e do subemprego.
O tempo, que não está nem aí pra isso, passa, sem criatividade alguma. E muda tudo de lugar. Hoje, há quem consiga colocar a criatividade num brete tão estreito que ela se torna uma simpática vaca sem graça.
Se acaso eu não tivesse passado na frente do bar que tem o nome da música do Lupi em seu frontispício, a ideia desse texto não teria pousado aqui.
Criatividade talvez seja um circuito não impresso de ideias que se cruzam e são ou não processadas. Nada mais do que um simples chip. Um chip dentro de uma cabeça. Um chip dentro de uma cabeça que o usa desde a mais tenra idade mas que, em determinado momento, entra em curto e perde a validade.

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