13.11.07
Neurônios cruzados
Inspirados na greve dos roteiristas de Hollywood, os explorados mais bem pagos do planeta, os redatores publicitários de terceiro mundo decretaram greve por tempo indeterminado. O motivo é o status profissional em declínio. Há também o lado econômico, mas as boas empreitadas classistas não devem se restringir a um bate-boca, ainda mais por mixaria.
Profissional de idéia e texto, o redator muitas vezes cria uma peça em todo o seu conjunto e não tem seu trabalho reconhecido. Repetindo: há casos em que o redator bola a peça inteira, forma e conteúdo, fazendo um ráfi mental já acompanhado do texto explicativo, seja de uma peça gráfica ou de uma moderníssima e descolada ação de marketing de guerrilha. E quem leva a fama é o diretor de arte. O que conta é quem faz, não quem pensa.
Nada contra esse nobre colega, ele geralmente tem bom gosto, boas idéias visuais, é divertido e sabe transformar um ráfi mental numa peça concreta. Mas no corre-corre parece que tudo acontece apenas por obra e graça do diretor de arte. Redator só faz a chamadinha e revisa o texto. Tem gente que acha que redator tem de redigir listas de preços e revisá-las para justificar o salário. Ouve-se dizer até que redator não faz parte da Criação, mas da Redação, como se agência de publicidade fosse empresa jornalística.
Chegou a hora de pôr um ponto final nessa injustiça. E ninguém coloca um ponto final melhor do que um redator.
Como e por que isso aconteceu? Na pré-história da criação, o redator mandava bala. Nós éramos os caras, colegas. Diretor de arte nem existia. Existia o layoutman, o desenhista, o ilustrador, o past up, o “pessoal da arte”. Texto era tudo. Ali estava A Idéia. Redator de então redigia com finesse em sua Remington, jogando bolinhas de papel na cesta de lixo. Tinha direito a uma certa aura de escritor. Podia até fumar.
Nos anos 60, depois de muita maconha, LSD e baratos afins, a imagem tomou o poder. E nasceu o diretor de arte, primeiro com ares de diretoria, depois com estilo de pop star. Quando a revolução tecnológica chegou, a dominação foi digitalizada. No lugar da Remington, o PC. No lugar do cérebro, softwares. E veio o CCC - Comando de Caça ao Cigarro. O redator foi condenado ao ostracismo analógico. Muitos cometeram suicídio profissional ou passaram a ser perseguidos por idéias como montar uma fruteira, um bar ou uma banca de revistas. Para piorar, esparramou-se a idéia-vírus de que texto não se lê e nasceu um bordão-mutante, provavelmente redigido por algum redator-traíra: uma imagem vale por mil palavras.
Desde então, a Ditadura da Imagem tem oprimido redatores e criado gerações de profissionais que moldam tudo a uma Fôrma, com imagens selecionadas em Bancos de referência. E assim as peças saem da Linha de Montagem.
Outra injustiça é quando a direção de arte cria algo “acho que ficou legal assim, eu gostei” para se integrar a um conceito criativo e pertinente criado pelo redator. Vide a campanha da Semana ARP da Comunicação. Talvez deva ser exposto na Bienal, com texto ao lado para explicar do que se trata.
Além disso, há o lado econômico. Assim como os roteiristas de Hollywood querem maior participação nos lucros que os filmes rendem depois que saem das salas, os redatores de terceiro mundo também querem aumentar seus rendimentos. Uma idéia que sai da solitária cabeça de um redator pode ir muito longe, colecionar resultados, mas deixa pra trás o seu autor mais injustiçado. Se os diretores de arte podem usufruir dos louros e gastar em óculos de aros pretos, roupas de grife e acessórios descolados, os redatores querem sair do anonimato e ter verba pra investir em layout próprio. Idéia é o que não falta.
Assim sendo, a partir de agora não tem mais-valia (termo criado pelo polêmico redator Karl Marx, mas compreendam, ele era alemão) em cima das idéias do redator, não tem mais título com sacadinha, não tem texto criativo, nem roteiro baratinho e do caralho e defesas de campanha de ventríloquo. Deu pau no Neuronioware.
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10.11.07
Criativus Experimentatus
Na selva das agências de propaganda, de todos os animais ameaçados de extinção o Criativus Experimentatus é o Leontopithecus rosalia.
Motivo 1: o Criativus Iniciantis é um espécime mais barato;
Motivo 2: o Estagiarius é mais barato ainda;
Motivo 3: os motivos anteriores encerram o assunto.
Se o Criativus Experimentatus é redator, a situação é ainda mais alarmante.
Motivo 1: com um computador, Corel, Photoshop e banco de imagem free, idéia é o que não falta;
Motivo 2: o negócio é imagem, impacto, a nível de texto a gente se vira;
Motivo 3: roteiro é barbada, spot e jingle é só chamar uma produtora.
Encontre os erros do texto acima e corrija-os.
Selvageria profissional é crime.
Preserve o Criativus Experimentatus.
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Vivo disso
Eu não comecei a escrever por razões nobres e plebéias como o José Roberto Torero, o nosso Woody Allen bem menos famoso, neurótico e bobalhão. Foi só pelas primeiras. Uma miscelânia do desejo de se expressar com a vontade de contribuir para um mundo melhor. Ficou tão piegas quanto a frase anterior, que é de propósito, caso você não tenha percebido. Nem a minha musa da época gostou. Ninguém levou a sério. Ou quem levou, eu não levava.
A nobreza se esvai. Quando vejo a realeza britânica envolvida em escândalos marrons não fico surpreso. Não é só o falso merengue do sangue azul que desanda com facilidade. A nobreza, de espírito e de caráter, também sucumbe, porque a moral é de carne. E músuclo. A razões plebéias vieram depois, em substituição às intenções afogadas, com sabor de vingança: ficar famoso, ganhar dinheiro e mulheres.
Vamos ao primeiro tópico. Num país sem educação, a fama de um candidato a escritor só alcançará pontos no ibope se ele não vier dos cafundós do anonimato ou do fim do mundo dos sem herança literária. Num país cada vez mais visual e com legendas mal redigidas, o nome impresso na capa do livro deve valorizar a embalagem, encher a lingüiça do conteúdo, que na pressa da feira nem conta muito. Fora isso, só sendo gênio. Da auto-ajuda e do marketing pessoal.
E agora os dois últimos. Parece que o dinheiro e as mulheres disputam com má vontade pra ver qual me é mais indiferente. Mas tenho um palpite de que o papel moeda está na frente. Principalmente porque algumas mulheres até caem do céu, mas dinheiro só cai da loteria. Ou da maracutaia. Para ganhar naquela é preciso sorte. Nesta é preciso não ter escrúpulos.
Um caminho que reúne os três objetivos plebéicos é a la Bukovski. Sair bebendo e chutando latinhas de cerveja e colecionando mulheres que freqüentam ambientes que a sua mãe jura que você nunca entrou
Tentei. Não sei o que foi mais grave: a ressaca misturada com amnésia, a visão do pecado mortal deitado ao lado ou a má fama acumulada na vizinhança. Mas como diria o palestrante motivacional positivista, veja o lado mais da coisa. As alternativas de reserva que surgem quando as titulares dão errado. Não são as ideais, mas são possibilidades, são possíveis.
Escrever para publicidade, por exemplo. Não pagam lá essas coisas, porque reza a lenda que ninguém lê mais do que um título engraçadinho. A direção de arte é que é a bam-bam-bam do negócio. Quanto menos você escrever, melhor. Você tem é que pensar muito, se reunir com gente que pensa que pensa e tentar traduzir os briefings, embora ninguém saiba em que língua alguns são confeccionados. Depois de escrever, você tem que deletar as idéias e palavras que o cliente não gosta e que alguém do atendimento irá dizer que sabe quais são e que geralmente são as melhores e reescrever até não dizer mais nada ou o mesmo de sempre. Paradoxos e vicissitudes vêm em cortes secos. O que diz alguma coisa você guarda. Um dia vai mostrar numa entrevista em que vão avaliar o seu talento, que deve ser acima da média. Mesmo que para se manter nela. Quando, por ironia do destino, esse cínico, uma boa idéia passar, você pode ganhar prêmio no Salão da Propaganda e, quem sabe, vir a ser o Redator do Ano. Sua mãe vai emoldurar o diplominha e pendurar na parede. Da sala.
Há outras alternativas, mas tem uma que é terapêutica: escrever de graça. Você não consegue viver disso, mas dá umas boas risadas. Se o leitor o acompanhar, o editor virá atrás e assim você alimentará o vício profissional com doses homeopáticas. Afinal, escrever é um nobre ofício, mesmo para um plebeu confesso.
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Seja original
Noite dessas estávamos num bar de calçada tomando umas Original.
E a idéia, pimba, tomou corpo.
Espumante, gelada, originalíssima.
Uma agência que preserva a essência do malte da propaganda.
O lúpulo da criação.
A fermentação do pensamento.
A maturação da idéia acima de tudo.
A Original.
Aprecie os mandamentos. Sem parcimônia.
Parágrafo único: A criação sempre tem a razão.
01. Não criarás peça publicitária à imagem e semelhança de bancos de imagem.
02. Criarás campanhas como quem concebe um filho, não mais um órfão.
03. Acatarás a fatalidade: briefing é como Deus, um mistério que gera impotência.
04. Entenderás que a grande originalidade está no anúncio all type e no vt de cartão.
05. Defenderás idéias, nunca o “eu acho”.
06. Não invocarás uma idéia em vão, a não ser que seja num brainstorm.
07. Aceitarás alterações, nunca harakiri criativo.
08. Chorarás copiosamente quando lhe pedirem “mais emoção” em um trabalho.
09. Não matarás a idéia a troco de banana. Só a peso de ouro.
10. Encararás a frase “o cliente gosta assim” como um convite à reflexão.
11. Apostarás no bom humor - até por que, tem como não rir?
12. Não encerrarás um título com reticências ou ponto de exclamação!
13. Sob hipótese alguma escreverás “segue anexos” em PIT ou e-mail.
14. Jamais reciclarás títulos e layouts. O que se recicla é lixo.
15. Repudiarás o gerundismo e vais estar fazendo um bem às futuras gerações.
16. Enxergarás no fundo rebaixado o caminho para o rebaixamento.
19. Gargalharás ao ouvir a expressão "cores mais chamativas para encantar o cliente".
20. Sacarás um “me apresenta ele” quando soar o gongo da expressão “eu conheço o cliente”.
21. Aumentarás o logo quando mandarem. E logo o diminuirás, porque vão mandar aumentar de novo. Ou usarás este produto: www.makemylogobiggercream.com.
22. Não falarás a cada cinco minutos “isso vai dar prêmio”.
23. Não cobiçarás o gel no cabelo simetricamente desalinhado do colega ao lado.
24. Nunca usarás gap, approach e low profile numa mesma frase.
25. Temerás o degradê.
26. Aproveitarás a reunião para dar uma de Tim Maia: cadê o retorno?
27. Verás o branco criativo como um pedido de trégua. Ou de férias.
28. Moldarás o anúncio em ferro quando lhe solicitarem uma peça "mais impactante".
29. Não traduzirás a expressão "mais varejão" para mais esdrúxulo.
30. Redigirás o texto em corpo abaixo de 6 se lhe pedirem um "textinho".
31. Nem sob tortura pronunciarás “seje”, "a nível de" ou “tipo assim, ó”.
32. Promoverás a diversão, porque o resto dá muito trabalho.
33. Não confundirás um simples espirro no Youtube com marketing viral.
34. Redigirás o título "No aniversário do Mercado do Zé quem ganha o presente é você" só se quiser ser defenestrado.
35. Aguardarás, pacientemente, que o atendimento acabe de retocar a maquiagem.
36. Terás muito cuidado com as "aspas". Podem ser auto-referentes.
37. Te negarás a fazer outdoor pedindo voto para publicitário do ano.
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13.8.07
Enforque-se no cabo USB
A briguinha entre Macs e PCs tem algo de completamente fora da realidade brasileira, mas a verdade é que existem mil gigabytes de razões para se preferir a criação de Steve Jobs a de Bill Gates, caso aquele não custasse muito mais do que este. Entretanto, uma vez que eles fazem parte do dia a dia nas melhores casas do ramo publicitário, façamos de conta que grana não é problema pra nenhum de nós - nenhum de nós somos eu, você e não a banda - e vamos às mais pitorescas.
Para inicialização de conversa, o PC não liga: vem ao mundo, num parto complicadíssimo, que tira o sono do usuário e que deverá ser repetido, com toda sua liturgia enervante, a cada acidente de percurso.
Malnascido, o PC sobrevive às custas das vítimas de um sistema operacional chamado Windows, que opera barbaridades nas vidas deles, embora seu criador seja considerado um gênio - pelo menos onde os medidores de genialidade são grana e fama.
O Windows faz o cidadão honesto e pagador de tributos ficar preso a uma máquina que não resolve sequer os problemas que ela mesmo criou, quanto mais os que ele, inocentemente, propõe e espera ver encaminhados e resolvidos. Por quê? Porque o Windows é um programa-fachada. Tem outro por trás - ou por dentro, se você preferir -, o DOS, que é quem faz tudo nessa relação obscura que nem os entendidos destrincham, embora cobrem muito bem pelo serviço.
É por essas e outras que o usuário de PC é o ser que conhecemos. Desnorteado, confuso, neurótico, maniático, sempre teclando CTRL+S. Há fartas razões para tanto. Mas a principal é que pesa sobre ele a cruel espada da fatalidade: a qualquer momento, o PC pode – e vai! – dar pau. No Mac, quando isso ocasional e fortuitamente ocorre, há pelo menos um sorry! - e tudo volta ao normal. No PC, é sempre aquela novela das oito. Observe a cena. O PC dá pau. O usuário, atônito – afinal, ele sabe que não foi nem será pela última vez naquele dia -, avança com as mãos retesadas, o rosto franzido, a expressão convulsa e aperta concomitantemente as teclas CTRL+ALT+DEL. A fera (sic!) está morta. Ufa! Resolvido o problema.
Que nada! Eis que surge aquela tela azul, com a frase bestial implorando o golpe de misericórdia: pressione qualquer tecla para continuar. O nosso personagem, possesso, dá umas porradas bem dadas – nunca funciona na primeira – na tecla enter, por exemplo, e aí, sim, lá-vem-o-morto-ressuscitando-letargicamente-das-profundezas-do-limbo-virtual. E a luta continuará, para todo o sempre que ele insistir em existir, em que pese o trocadilho de mau gosto.
Como se tudo isso não fosse o bastante, existe um outro aspecto vergonhoso na abreugrafia do PC. Você sabe como ele é fabricado? Numa fábrica própria, com engenheiros, técnicos bem treinados e tal? Não. É feito em fábricas distintas espalhadas pelo mundo, com mãos, cabeças e intenções diferentes. E a esmagadora maioria deles é montada desse jeito: alguém pega uns componentes daqui - Paraguai -, pega outros de acolá – Taiwan –, junta tudo, monta o bicho, coloca um logotipo e vende para milhares, milhões de incautos.
O incauto em questão até tem o direito de argumentar, caso deseje, que o PC não é tão ruim assim, tem joguinhos divertidos, umas telas de proteção superlegais, diversas aparências para escolher, sons diferentes e aquele iconezinho chamado Meu Computador, entre tantos outros itens de entretenimento. Coisa querida. Mas, analisando itens de série que são realmente essenciais, as conclusões são estarrecedoreas.
O monitor, por exemplo. Ao contrário do monitor do Mac, que exibe uma tez vívida e brilhante, uma cútis de eterna criança, o monitor do PC parece que bebe, que sofre de cirrose hepática, tal é o amarelão que surge depois de algum tempo. E aí fica muito difícil até olhar para ele, quanto mais trabalhar nele.
O capítulo vírus mereceria teses. De doutorado. Ao que tudo indica, foram feitos for PC, talvez por sua fraqueza congênita e falta de anticorpos. O certo é que passam longe dos Macs e vão direto aos winchesters dos PCs, causando perdas irreparáveis e prejuízos incalculáveis, ceifando carreiras e projetos promissores, enfartando vidas, dando um lucro astronômico à indústria do vírus.
O mouse, outro coitadinho. Se arrasta. Ou pipoca feito doido. Nunca desliza como deveria. E a sigla PC? Convenhamos, é uma das maiores ironias ortográficas já praticadas. Do pomposo e globalizado Personal Computer, passou a designar, em bom, alto e claro português, Porcaria de Computador.
O design: sem comentários. Não vamos abusar. Nada próximo ao design bem bolado de um iMac. Isso sem falar na profusão de cabos que servem para juntar muita poeira e que podem se transformar em armadilha para quem tentar limpá-los.
A única coisa que parece funcionar direito num PC é a paciência - do usuário. É por isso que deviam fazer um adesivo com a seguinte frase: se a inveja é uma merda, o que é um PC?
· Título inspirado em “Enforque-se na corda da liberdade”, frase-quase-slogan de Antônio Abujamra, do programa Provocações, da TV Cultura, que o provocante apresentador deve ter retirado de alguma fonte que este colunista, em sua pagã ignorância, não sabe qual é. Qual é? Cartas para a redação.
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PIT
O Pedido Interno de Trabalho (PIT) é uma folha em branco grampeada em um envelope que deve ser preenchida pelo profissional de atendimento. É assim que um trabalho dá os primeiros passos dentro de uma agência de propaganda, tropeçando aqui e ali e caindo no seu colo com aquela cara de bezerro desmamado.
O PIT deve conter as informações necessárias para que o trabalho seja criado e volte ao atendimento, que então deverá aprová-lo com o cliente para ser produzido. Cópias para outros departamentos devem fazer parte do expediente, para que todos saibam o que estão fazendo dentro dessa linha de montagem.
O PIT também pode ser virtual, mas o papel ainda sobrevive pelo seu caráter de prova, para desespero dos apologistas da superioridade do digital sobre o analógico.
Alguns PITs são tão imprecisos que poderiam fazer parte de uma modernosa instalação em bienal, sob o título Esfinge. Por isso mesmo, os PITs devem vir acompanhados de reuniões de esclarecimento, ações indispensáveis que, no entanto, não podem ter a extensão de uma final de Roland Garros nem devem ser confundidas com mesas redondas sobre sexo, drogas e rock and roll, sexo, cerveja e futebol, sexo, Londres e New York ou sexo, sexo e sexo, dependendo da tribo que estiver na sala.
Por falha na comunicação ou coisa mais misteriosa, os trabalhos costumam ir e voltar do cliente com alguma freqüência. É o que se chama refação, índice que serve para medir a competência de uma empresa de comunicação. Se alguém tiver coragem de calculá-lo.
Nas agências chics do último, o PIT não possui essa deonominação burocrática. É intitulado job, que na língua-máter da propaganda significa trabalho. É comum ouvir os profissionias de uma agência dizendo tenho que fazer um job, frase código que carrega significados tácitos tais como olha como estou atarefado, veja só como sou competente, cuidado, posso me estressar a qualquer momento ou não enche o saco, tenho mais o que fazer.
Entre um PIT e outro, nem sempre há intervalo para respirar ou encaminhar qualquer outro assunto. Os PITs são sucessivos, intermitentes e, muitas vezes, concomitantes.
Mas, mesmo assim, alguns profissionais conseguem burlar essa servidão à funcionalidade e escapulir para outros mundos. Acionando dispositivos invisíveis confeccionados ao longo de duras jornadas de trabalho, eles disparam suas mentes como foguetes em direção a luas desconhecidas, enquanto os dedos das mãos fazem o registro instantâneo de tudo em suas houstons, onlinemente – assim nascem os neologismos, frutos do amor entre a necessidade de expressão premente, uma espécie de carência vocabular, e a igorância.
É dessa forma que as idéias e outros materiais não-metálicos percorrem o universo de uma agência de propaganda até se personificarem em obras, peças, feitos. Quando chegam a essa instância, pouco ou quase nada resta do caminho que foi percorrido, do seu começo e meio. O fim é o que interessa, porque vai começar a parte mais importante, a venda.
A não ser que no começo ou no meio desse processo esteja um Washington Olivetto. Aí o fim pode ser até um livro.
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Fumar é bom mas deixar de fazê-lo é uma droga
Maravilha, pulmões! Paramos de fumar. Beleza.
Mas a mente, não. A mente viciada sente-se superpoderosa, subestima. Faz uma campanha permanente, insistente, intermitente. Fuma. Fuma. Fuma.
Constatação auto-crítica: deixo de fumar não tanto pelos malefícios causados pelo fumo, mas pela insuportável sensação de não poder acender um cigarro só quando eu quiser, mas a qualquer hora que a mente mandar. 5 da manhã, por exemplo, varado de insônia.
A divisão mente X eu é didática e maniqueísta, mas necessária. Mesmo. Coexistimos. Às vezes, a socos e pontapés.
Como a resistência tem sido siberiana, a mente tem lançado mão de artifícios sutis. Chegam a arder de tão tentadores.
Deixar de fumar causa salivação excessiva, próxima a dos caninos. Ex-fumantes dariam bons punks.
Ver outras pessoas exalando aquela fumacinha não chega a ser torturante. É pior. É um misto disso com um sentimento de piedade cristã. Que vontade de voltar a ser como esses felizes coitadinhos, se matando com prazer.
O fumo tem um grande sócio: o cinema. Foi essa entidade imagética que disseminou o vício do fumo pelo mundo inteiro. Processar MGM, Warner, 20th Century Fox, entre tantas outras, em seu consórcio inescrupuloso com a Souza Cruz, Philip Morris - isso poderia ser classificado como enriquecimento ilícito?
Mas o fumo tem outro aliado que não é fichinha: o álcool. A mistura dessas duas drogas é capaz de derrotar quase todas as defesas erguidas durante anos para abandonar o vício do tabaco.
Trocadilhadas, à guisa de criatividade: ele só fuma só quando bebe - mas bebe...Melhor sofrer da hiperatividade de não fumar do que do autismo de ser fumante. Fumar faz bem à economia da nação e mata o cidadão.
Não cair nessa de que exercícios, frutas, adesivos e pílulas mágicas podem ajudar. Sexo, então. Faça. À vontade. Aliás, comemore com ele. Mas saiba que no final a vontade de fumar vai estar lá para instaurar o ménage.
Um ex-fumante costuma ter a sensação de ser um amante que foi abandonado. Bons e maus momentos compartilhados. Os registros fotográficos de uma história. Uma carterira de Marlboro perdida na paisagem de uma fotografia festiva. O indefectível entre os dedos, aceso, fumegando. Bons tempos não voltam mais. Tomara.
Oferecer uma campanha publicitária ao Ministério da Saúde. Não aceitar pagamento em mensalão. Abandonar o vício do fumo não significa deixar de lado, também, o vício da honestidade.
Idéia: inverter o enfoque tradicional das campanhas contra o fumo. Propor ao cidadão que ele fume, porque fumar faz muito bem à economia do país, só faz mal a ele mesmo e a uns poucos que ainda convivam com ele.
Anúncio.
Foto de um enterro com honras.
Chamada:
Fume. A Nação agradece.
Obs.: Pensar também numa campanha pró-publicitários, vide os últimos acontecimentos. Mas só se isso não representar risco de recaídas.
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Julia Roberts e o escapista
Ploft, o PIT cai na mesa. Ele aponta os olhos como quem arma uma leitura ligeira, sem compromisso. Identificado o terreno de mais uma batalha hercúlea. Os olhos desertam. Janela. Topos de prédios. Céu azul. Algumas nuvens. Bela composição. Foto de banco de imagem. Grande angular cairia bem. Lá de longe vêm as ondas do rádio se encaixar nas orelhas sem ouvidos.
Uma janelinha do Messenger. A imagem de Julia Roberts. Julia Roberts? I don´t speak english, Miss. Hahahahahahaha, ela ri, naquele português virtual. Gargalhada sem áudio é piada mal
contada. Oi, tudo bem? Ele responde tudo. Por que esse nick, ela pergunta. Nick não se explica. O processador paralelo desfaz páginas e páginas e páginas. A mesa, o PIT e o computador somem. Corre um ar leve e a calçada tem umas mesinhas e cadeiras com pessoas olhando umas para as outras e para a esquina que dobra e para outros lugares que só quem olha vê. Julia Roberts está bem na frente dele, sorrindo como no cartaz de um filme. Ele acaba de escapulir de mais um massacre diuturno. Sente-se leve como uma resma de papel da qual tiraram uma miniatura de bigorna de cima. Eles conversam vagarosamente, escorregando pelos trilhos dos assuntos mais interessados na paisagem que o trem mostra do que no que estão dizendo e ouvindo. A certa altura, ele se fixa nela. Da luz dos olhos ao desenho da boca, resvalando pelo queixo e, ploft, mergulhando no decote. Seus braços saem dos ombros de forma magnífica, ele observa. A postura é elevada. E as pernas - ele se admira por já ter invadido com os olhos todas as pradarias que Julia Roberts insinua -, as pernas são fortes e longas. Sente-se perverso. E sorri. Chega-lhe à lembrança a certeza de que sempre achara Julia Roberts uma linda mulher sem sal e, principalmente, sem manjericão. Mas, agora, ela exalava um canteiro de temperos. Os gestos são mínimos, fazendo com que ele se detenha cada vez mais na parte mais expressiva. Qual é? Qualé? Mas tudo bem, ele vai dizer, neste exato momento: teu rosto, tu é linda. Ela vira um tablete de manteiga. É só passar a faca. Não, não, deleta. Vamos de novo. Teu rosto, tu é linda. Lindo é você, ela devolve, para espanto de seu semblante embevecido de si mesmo. Ele está feliz diante de Julia Roberts. E vai beijá-la agora mesmo, nesta linha. O beijo os leva para tão longe que eles se sentem como dois viajantes cada vez mais próximos de um lugar onde vão chegar. E chegam. Quarto de hotel. Espanto. Ele jamais pensara que pudesse propor isso a ela. De repente, mais uma mensagem na janelinha do Messenger: tu ainda tá aí? Tô, ele diz.
Estou de saída, ela continua. Ele sapeca um tá. Detesto esse tá, ela devolve. Tá, quer dizer, tenho que trabalhar. Beijo, ela diz. Daqueles. Ele olha o nick. Deborah. Belo disfarce.
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N coisas
Quando não dá pra entender, processar com rapidez, lembrar, a gente coiseia. Feita de argila e vento, a palavra coisa dá pra moldar ao sabor da ignorância do sujeito. E a coisa vai longe - porque a gente é uma coisa que custa a aprender, talvez nunca. Coisas que tiraram férias de gente. Coisas tipo pedras, perdas, achados, perdidos. Coisas que já fazem parte da paisagem-coisa, daquilo que vemos sem ver. Coisas-janela e coisas-coisa, coisas-trem. Coisa boa essas coisas desfeitas, presas ao acaso, deitadas no ombro do esquecimento, encontradas de repente nos sulcos áridos do chão. Uma frase que salta de alguém que passa pela gente na rua nos transformando em estafetas de frases inconclusas. Uma árvore em sua rigidez centenária no meio de uma rua rasgada pelo transe do trânsito. Ou firme em suas raízes no fundo úmido de um parque. A prosa que de repente dobra a esquina e é engolida por uma floresta de metáforas. Um texto-rio, sem parar, sem sair do deserto do lugar. A frase na porta: antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo se encontra parado neste andar. Livros de gramática e dicionários casmurros. Placas de trânsito falantes. O anzol que fisga um olhar aceso em movimento atrás dos vidros de um automóvel. O poste que pisca. Cadê aquela coisa, como é que chama? A loucura do navio. A sabedoria das citações de jornal, vizinha da utilidade dos conselhos de horóscopo. As palavras cruzadas no saguão ou em alta madrugada. Os lugares do mapa onde nunca vamos estar. Os epitáfios, os alfarrábios, os prolegômenos, as beletrices e as aliterações. Você sabe o que é um hebdomadário? O lixo cheio de restos e da casa de banana dos trocadilhos. As frutas frescas na feira, cheias de efes e frutose. A palavra muxoxo. A palavra umbigo. (Frases entre parênteses). A palavra escrita erada. A errata. O computador offline. Os gestos que falam mais do que as palavras. Os sonhos de um astronauta dormindo. Uma frase incompreensível com pose magnâmina de postulado. A suposta clarevidência de uma redação de auto-ajuda no platô sem nuvens nem plenitude. Ser confuso é uma boa forma de fazer chover coisa nenhuma. O rei é o maior dos plebeus. Um delicioso palavrão filho da puta, juntando coisa com coisa. O mar das incertezas salobras. Sonho com sabor tutifruti. Uma paixão que dá de cara contra o muro da vergonha, a duzentos, trezentos quilômetros por hora. Uma paixão assombração. Um fantasma. Uma sombra. Aquela coisa que a gente ouve e, pá, gosta na hora. Anotações, anotações num papel qualquer. Recados para lugar algum. Tem coisa melhor do que o lugar nenhum? Os ponteiros do relógio em círculos. Uma lista de compras que não aconteceram. A fumaça. A desgraça. As gargalhadas gratuitas de uma roda de amigos. Milhões de e-mails sendo enviados e recebidos ao mesmo tempo. Caneta sem tinta. Infinitas pistas de uma civilização mal comportada. Coisas assim. N coisas.
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Triste fim do(a) garoto(a)-propaganda
Interrompemos a sua navegação em caráter extraordinário, para informar que o(a) garoto(a)-propaganda morreu. É, o coitadinho se foi, dessa pra pior. Publicitários, empresários, marqueteiros e o Zeca Pagodinho acabam de assassiná-lo e enterrá-lo diante da cumplicidade do telespectador, que não tá nem aí.
O(a) garoto(a)-propaganda já tinha sido alvo de diversas tentativas de assassinato. Diversas. Famosos de todos os quilates pulavam a cerca dos comerciais com a maior facilidade e não eram alvo sequer dos comentários das comadres e das matildes da imprensa especializada. Fidelidade? Pra quê? Virou rotina, todo mundo fazendo, sabe como é?
Se você não tem uma memória prodigiosa, o que é o meu caso, fica até difícil lembrar exatamente quem fez o quê, quando, onde, pra e com quem. Parece que as luzes foram apagadas e ninguém está vendo nada direito. Mas que a coisa tá rolando, ah, tá. Então vamos lá.
Ronaldo anunciava telefone num brake e, no outro, já estava anunciando, sei lá, uma cerveja, um supermercado. Na sequência, a embuxadinha da ex-mulher dele anunciava o concorrente e ironizava o fim do matrimônio com aquele sotaque maravilhoso. Mais ou menos por aí. Miguel Falabella falou em tantos comerciais que a certa altura mandaram ele sair de baixo.
Pelé foi um dos campeões da promiscuidade comunicativa. Ele e o Edison fizeram dupla em várias peças dignas de nota. Guga deu mais raquetadas em comerciais de tv de várias marcas do que em Roland Garrois. Só pouparam o Scheidt, eu acho. O resto foi tudo, até o talo.
Globais de todos os matizes passeavam pelas telinhas emprestando suas estampas desejadas a quem pagasse mais. Num passe de mágica, as estratégias de marketing e criativas, como que irmanadas, reduziram-se a uma só: pega-se um famoso, cria-se alguma piadinha com ele e coloca-se no ar. De preferência, o famoso tem que vir direto de outro comercial, isso jamais confundirá o público, que já está pra lá de confuso e anestesiado. Nem vê mais o que se passa na sua frente, a não ser naqueles momentos em que o que se passa na sua frente é um comercial de verdade. Aí, sim, ele ressurge, como que saído de um coma. E volta. Pro coma.
A partir desse momento tragicômico, a propaganda vai ter qde se arranjar sem esses mestres que ajudaram a entreter o público e a construir marcas, não exatamente nesta ordem e/ou importânica. Os publicitários não vão mais poder propor a uma empresa a contratação, em regime de exclusividade, de um determinado ator/personagem. Ela não resistiria à nova ética, seria imediatamente contaminada, mesmo se tivessem usado camisinha na relação.
Já existem até laboratórios de gestação de famoso(a)s-futuro(a)s-garoto(a)s-propagandas-modernos. São os BBB. Bota-se ali uma dezena e meia de pessoas comuns, destituídas de atributos culturais mas cheias de urrús na boca e pronto. Quando de lá saírem vão direto para comerciais de carros, telefones e maionese, não exatamente nesta ordem e/ou importância.
Há exceções. Ana Paula Arósio - uma exceção que excede-se em talento e beleza - e o São Nunca. Mas, como todas as exceções, só confirmam a regra assassina. Se você lembrar de mais alguma que esteja viva e pulsando na nossa mídia, por favor, escreva pra cá e mencione porque elas vão entrar para o Museu da Propaganda. Serão provas de que a ética já fez parte dos departamentos de marketing e de criação.
Já fez, né? Bom, os menos moços que se atreverem que respondam.
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Unplugged
Ele deu uma última olhada na mochila surrada, verificou se estava tudo certo. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis camisetas, calças, bermudas, cuecas, perfeito, material de higiene, deixa eu ver, ok, ok, ziiiiiiiiiiiiiiiiiper. Fechado. Lá vou eu, murmurou.
Já tinha girado a chave, quando a roda da dúvida também deu uma volta. Melhor conferir tudo de novo. Isso, aquilo, aquilo outro, tem também, ah, sim, grana, peguei, ok, o fogão, desliguei? Desligado. Droga. O celular.
O celular? Pra que levar o celular? Alguém vai me ligar? Pra falar do quê? Trabalho? Amigos? Que amigos? A maioria estava tão longe, o contato havia sido perdido, nem sabiam o número dele. Quem poderia ligar? Olhou a agenda. Resolveu dar umas férias para o celular, que soltou um sinal de protesto. Tecnologia workaholic não encara o ócio como o Domenico di Masi.
Um lap top. Ele não tinha, mas gostaria. Levaria como uma garantia de conexão imediata com o mundo, caso houvesse necessidade. Será? Um lap top na praia? Pra quê? Ler spams, e-mails com duas ou três frases mal redigidas, correntes, piadinhas, ver fotos de peladas? O lap top seria bom para escrever, meu caro. Será? Papel e caneta não seriam mais práticos, não representariam uma interferência mínima do mundo tecnotrônico?
O problema seria caligráfico. Tantos anos sem escrever a mão tinham transformado sua caligrafia em hieróglifos de era pré-histórica, inintelegíveis. Para ele mesmo. Taí. Poderia recuperar a elegância do traço e redigir bons textos bucólicos. Bucólicos? Desde quando ele conseguiria redigir um texto cheirando a natureza? Desde quando sua mente conseguiria fixar-se apenas na paisagem, no entorno físico e imediato, sem deixar se infiltrarem as sempre bem-vindas interferências das anotações mais surpreendentes, metalinguístico-físicas - os cut ups, hein, meu caro Burroughs? Abrupto, o corte, rasgando, faz uma colagem.
Que horas são? O ônibus. É real e já vai partir. Nessa hora ele sentia a falta de um automóvel. Pegar a estrada, ligar Jimi Hendrix e exaurir a mente de uma sucessão de sensações surpreendentes, alimentadas pela enigmática overdose de ruídos ultrassonoros do inesquecível mestre da guitarra. Ou então aquele disco da Marsalis Family. A amplitude mundana e celeste do jazz. O Chet Baker perdido, o Charlie Parker extraviado, o Dizzy, John Coltrane incompreensível, horizontal e paralelo, louco, tantos outros, todos mortos.
Ônibus ligado. Vamos lá. Hora de desligar. Tirar o plug da tomada. O verbo no substantivo, viajar na viagem. Tempestade, só aquelas que vêm das nuvens. Chega de dilúvio cerebral. Céu azul, água limpinha, citações, um navio cheio de loiras. Pastel de camarão. Tem quem prefira casquinha de siri, ele era fã de pastel de camarão, na hora, ali, no quiosque. E cerveja. Estúpida.
Ah, mas aquelas placas de estradas e front lights e outdoors não o deixavam descansar nunca. Poluição visual. Logotipos imensos. Duzentos tipos de fontes na mesma peça. Excesso de informação. E, principalmente, ausência de idéias e expressiva explosão de mau gosto. Descansar, descansar. Cegar o olho crítico, profissional, viciado em analisar tudo o que vê. Não ver mais.
Moçambique deserta, ele pensou. No deserto litorâneo, só o mar e o vento têm o dom da linguagem, falam Esperanto. O resto é silêncio. Silente, quase inaudível. Bucólico - bucólico, Burroughs? O streap tease monástico da paisagem. O mar lambendo o ventre da praia. A mochila pesada ficando leve, cheia de lembranças que não o afundam mais e o fazem acreditar que aquele é realmente um momento único, solitário e feliz. Único, solitário e feliz.
A repetição. A felicidade. A convivência forçada, quando desplugada, vira uma praia deserta, com ares de cartaz de agência de turismo. Uma montanha de comercial off-road. Um lago espraiado num anúncio de scoth. Um céu de outro mundo na mensagem conceitual de empresa aérea. Um mundo sem cobiça, abusando da elegância, do bom senso e das boas maneiras. Um outro mundo, momentaneamente possível.
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Laura nunca Esteves aqui
Há um texto da Laura Esteves (redatora brasileira da DDB/NY) que me fez lembrar de uma velha cisma já meio esquecida (cisma é parasitose intestinal, melhor deixar quieta), mas que volta e meia aparece como uma nuvenzinha afro-descendente. O texto chama-se “Um papo cabeça” (www.ccsp.com.br/passaporte/) e faz comentários leves, divertidos e até subversivos e libidinosos sobre a realidade da propaganda lá na Gringolândia.
A cisma não é a linguagem deliciosamente descompromissada (as mulheres fazem isso melhor do que nós, os brucutus do sexo oposto, por exercitarem mais e melhor o órgão da fala) e nem mesmo a Terra dos Gringos. A cisma é a realidade. Sempre que leio comentários sobre o grand monde da propaganda fico com a sensação de ser um extra-terrestre da periferia cósmica ou um sul-americano de alguma galáxia ao sul do equador de um buraco negro. Eu e mais uma resma de gente. Só que ninguém fala ou quando o faz é em off ou então se está a fim de fazer não tem onde nem como. Tá certo. Pra que ficar cutucando o ser parasitário da cisma, que corrói o intestino da auto-estima, e ainda por cima em público?
Mas diante do texto da Laura Esteves não deu pra evitar a diarréia. O grande desconforto não é a diferença dos mundos no que se refere a condições de trabalho, verbas, glamour, atmosfera, tecnologia ou talento, mas um certo tipo de liberdade que parece existir para os profissionais de criação, um dos tantos aspectos que constitui o charme da profissão e continua atraindo novatos. Ela nem fala exatamente disso, mas ao entrar em contato com frases (boas e belas frases, que andam em falta na imprensa do setor) que remetem ao nosso querido ambiente profissional, a taenia solium toma corpo de novo.
Vários textos dão a entender que redator e diretor de arte desses mundões conseguem levar adiante uma idéia sem ter de passar por um corredor polonês que começa no atendimento da própria agência e termina lá no cliente, que dá a sentença porque é o patrocinador do espetáculo dantesco. Ao que tudo indica, em Nova York isso é impensável. E em São Paulo, ibidem. Até mesmo quando o hilariante Lula Vieira sapeca suas crônicas escancaradamente debochadas percebe-se lá no fundo o poder que os redatores e diretores têm na hora de dar luz a uma idéia e apresentá-la ao mundo dos vivos, mesmo que isso acabe em situações jocosas. O bom humor acaba soterrando tudo, é verdade, mas tem horas que é o próprio bom humor que vai pro paredão. Rá tá tá tá, tá, tá!
Sabe-se lá por que cargas d’água, a cultura local da periferia publicitária brasileira “em geral” é essa via crucis. Por aqui, depois que a dupla de criação consegue se achar no meio de uma selva de falta de informações, aí, ah, aí aparecem os Engenheiros de Obras Prontas e os Palpiteiros de Plantão pra dizer “eu acho que o logotipo tá pequeno, preto lembra morte, o cliente não vai gostar dessa chamada porque eu sei, tem que ter algo no fundo, tá muito branco, vazio, repete o telefone três vezes no texto pra marcar bem, a idéia é muito legal mas é demais para o nosso cliente, as pessoas não vão entender isso, tem que ter mais emoção...”
Tudo indica que lá nesse primeiríssimo mundo da propaganda dá pra bater uma bola sem sentir aquela velha parasita subindo pelo esôfago. Pode parecer exagero, mas o pessoal de criação da periferia mais parece mula que não deve usar a cabeça e levar a carga do trabalho morro acima para entragar em mãos que decidem. E como a única saída do Brasil parece ser o aeroporto e não tá fácil conseguir um visto, o negócio é deitar e rolar fazendo trocadilho. E aguardar o próximo texto da Laura.
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Peripatetear
Asseveram os sabedores do grande conhecimento que o ser humano começou a criar estórias antes mesmo de saber escrever. Devem ter exata consciência do que dizem esses que ficam a bolir e furungar nas bibliotecas e tornam-se convivas até das traças dos clássicos - seriam elas íntimas de Homero, Shakespeare, Camões, Cervantes?
Eis então que não chega a ser um disparate afirmar que escrever tem algo a ver com andar, já que agitamos os membros por aí antes mesmo de ficar sobre duas patas. E com o escrever não é distinto. Enquanto mantemos o bujão cheio de gás ou qualquer outro combustível, saímos a traçar linhas por hábito ou necessidade.
Mas quando o assuntar é o tema desta coluna, a propaganda e o escambau que há no seu entorno, o andar é de caminhadinhas, passos movidos a pressa, tipo vai ali e volta logo, meu filho. Não há como peripatetear, soltar pensamentos como se fossem pandorgas, ficar na beira do lago à espreita do mágico instante do peixe fisgar o anzol. O escrever sobre propaganda é tão descartável quanto ela. Vai lá o escriba tentar as profundidades e tenderá a morrer afogado.
Com a interatividade a superfície torna-se mais cristalina, podemos ver o plâncton a boiar, feliz da vida. Sites e blogs que tratam do assunto são os campeões das rapidinhas, das notinhas e dos comentários de quem está passando por ali e resolve depositar a sua graça mais espontânea e nem sempre bem educada ou redigida.
É mesmo a cara do negócio. Tipo alguns segundos. Quando o instante contém uma idéia que sobreviveu aos bastidores do que é a criação, quando um anúncio de revista faz o desnorteado leitor arregalar seus olhos, quando um banner de internet consegue atrair o olhar e não apenas a raiva do internauta, a propaganda sobe no nosso conceito. Mas o que podemos assistir no espetáculo da propaganda nem sempre são coisas que nos fazem bramir e ribombar com a inteligência humana. Quando miramos os festivais, oh, idéias à vista. Mas idéias que muitas vezes vivem em ilhas que não fazem parte do estreito arquipélago dos mortais, são manifestações de egos inflados que querem voar como balões multicoloridos, mas de origem e rumo desconhecidos. Quando voltamos os olhos para as telas e páginas do dia a dia as idéias são quase sempre as mesmas e os layouts idem. A despeito do que afirmam os luminares do assunto, a propaganda está mais para a estética da repetição do que para a promoção da criatividade. A despeito do que até mesmo o leigo pensa sobre ela, a propaganda mais copia e se copia do que tenta criar. Também por isso, um momento de criatividade original tende a ser quase que uma acusação ao recurso da mesmice, porque denuncia a camuflagem e a solução homogênea.
Não há de nada ser. A alegria é a prova dos nove. Enquanto os relógios continuam a girar sem sofrer de labirintite, nós continuamos a caminhada, a escrita, combinando fragmentos passo a passo. Rumo a lugar nenhum, o reino da utopia. E da tontura.
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Ex-logans®
Criatividade é um processo sináptico próximo da esquizofrenia, tipo vizinhos de porta que nem precisam se cruzar no elevador pra trocar uma idéia. A comunicação acontece por telepatia, teletransporte de pensamentos ou algo ainda mais incompreensível e que requer muita fé ou mais ciência para compreender. Mesmo com o corpo relaxado durante um período ocioso, a mente do criativo/esquizofrênico se perde pela estrada lúdica e nem sempre lúcida da criação. Os ex-logans® nasceram assim, na esquina do óbvio com o inusitado. Baseiam-se no que a mente reteve ao longo dos anos e, de um milésimo de segundo para o outro, (re)criou. Aprecie sem parcimônia. E sempre volte. E versa-vice.
• O primeiro soutien a gente nunca esquece o quanto é difícil tirar.
• Se alguém lhe mandar flores, isso é telentrega.
• Você conhece, você desconfia.
• Coca-cola é isso aí. Isso daqui é Pepsi.
• Não basta ser pai. Tem que ser mãe, também.
• Não é nenhuma Brastemp. É a geladeira da vizinha.
• A cerveja que desce redondo e sai de fininho.
• Haiti, Haiti, Haiti, tão fazendo merda lá, a gente sente aqui.
• Quem disse que não dá? Na Fininvest até as calças você dá.
• Tem coisas que o dinheiro não compra. Pra todas as outras existem corruptos.
• Um dos nossos japoneses é melhor do que os japoneses dos outros, só não dá pra saber qual.
• Em matéria de pintura, quem dá as tintas não é pintor de parede.
• A verdadeira maionese é ovo, azeite e sal.
• Não esqueça da minha o que mesmo?
• Economizar é não comprar, meu bem.
• Tem coisas que só a mulher faz com você.
• Vivo é a conta em primeiro lugar.
• EXPERIMENTA! EXPERIMENTA! EXPERIMENTA! E nunca mais.
• É fácil. É simples pra dedell.
• Tente, invente, faça uma televisão diferente, pelo amor de Deus.
• Se é Bayer, é bomba pra barata.
• A número 1 nunca é a saideira.
• É impossível comer uma só.
• O MINISTÉRIO DA SAÚDE ADVERTE, MAS O PROBLEMA É TODO SEU.
• É claro que você tem...alô, não tô ouvindo mais nada.
• O importante é ter Charme, mesmo com mau hálito.
• Quem fuma Minister sabe o que quer: câncer, efisema, infarto ou derrame.
• Se você usa Avanço, elas fogem e eles avançam.
• Que conversar, que nada, nós viemos aqui pra beber mesmo.
• Na real, se o Big é mais barato não sei, mas que é grande, é.
• Nem sempre o menor preço. Às vezes é mais Carrefour.
• Nem parece banco. É poltrona reclinável.
• O tempo passa, o tempo voa e até a poupança Bamerindus se esboroa.
• Varig, Varig, Varig! Help! Help! Help!
• Apaixonado por bunda como todo brasileiro.
• Pense, seja, diferente.
• O mundo é dos nerts.
• Se eu fosse gay como você, só usava Valisére.
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Paredes, portas e janelas
No futebol tem aquela medição do tempo real de bola em jogo, um dos tantos números que enche a boca dos comentaristas, um hobbie tão bem pago que a Nação inteira está a gritar cala a boca, Galvão desde pelo menos o tetra nos EUA. Imagine se o pessoal da administração resolve copiar essa metodologia de aferição e aplicá-la em ambientes de trabalho onde o computador toma conta do cenário. Em agências de publicidade, por exemplo. Vai dar pane.
Salvo o momento do cafezinho e do pipi básicos de cada um, o pessoal que não cirucla muito por clientes passa a maior parte do tempo vendo o mundo em 1280X960, ralando dedos, tendões e neurônios. É o que se vê no plano geral. Ao fechar a câmera, nada é tão normal. Além de ser um instrumento de trabalho revolucionário, a internet também é um passatempo do caralho, com o perdão do trocadilho. Até este exato momento, há pelo menos 78 milhões de sites pra navegar. Só isso já é mais alucinante do que ecstasy. E ainda tem os chats, orkuts, gags, galhofas e boataria do dia. E o MSN, que já serve para atividades bem distintas como espalhar fofocas, enviar arquivos, vender lanches e fazer sexo - que, segundo seus defensores, é um trailer do sexo do futuro, sem doença venérea, sem gravidez e sem ninguém do seu lado, em cima ou embaixo pra incomodar depois do coito. A borboletinha voou tão longe que, em alguns ambientes profissionais é sinônimo de corpo mole, é proibida de borboletear. Não é bem assim, mas pode ser. Fácil, fácil. O MSN é telefone, correio e, se a igreja não fosse tão analogicamente preconceituosa, já tinha aderido ao confessionário online. Freud explicaria isso, também.
É por essas e outras que, muitas vezes, no meio da balbúrdia de um rotineiro dia de trabalho, você pode avistar um cara ensimesmado diante de seu computador. Parece que ele não está ali? E não está mesmo. A informática está nos antecipando as maravilhas do novo futuro, aquele que deixou o outro bem velho e tentando decifrar de onde saiu esse mundo invisível que está ficando mais real do que nunca. Algo como a terra do nunca que virou o mundo para sempre.
O mundo é assim, desde que se tem notícia lá das cavernas. O futuro é uma promessa que vem aos poucos, porque o pessoal de marketing decidiu vendê-lo aos pedacinhos. Dá mais grana. E futuro profissional.
Vamos lá, de imaginação em punho. Se hoje se trabalha cada vez menos no lugar onde se está, se é possível fazer algo sem se estar ali, o ambiente de trabalho ainda une e separa por paredes só porque somos umas tartarugas para perceber e nos adpatar ao novo zoológico. Muitas vezes o cara que está diante do computador tabalhando ou simplesmente exercitando o seu direito ao ócio vai tão longe na sua viagem que, quando volta de lá acha que os que estão na sua volta são seres ficionais, a realidade está lá aonde ele estava, ou seja, na sua mente.
Este que vos escreve no momento, por exemplo, tem sobre sua mesa um trabalho dos mais nublados, prometendo poucos benefícios e muitas horas investigativas e talvez infrutíferas. Deveria, neste exato momento, estar pensando sobre ele, destrinchando as informações, buscando um caminho criativo para bater bola com a diretora de arte. Só que ele já deflagrou a cápsula do ócio criativo e está em plena viagem pelo soturno planeta das divagações; ela acaba de ter um briga com o namorado e os dois estão tentando acertar os ponteiros pela internet. Péssimo momento para acertar as contas, mas só estamos um diante do outro porque a CLT assim determina. Neste momento a colega poderia estar protagonizando o bom e velho bate-boca ao vivo que invariavelmente acaba na cama ou no kama sutra de carne e osso e este que vos escreve, sei lá, simplesmente a divagar por trás da vitrina de um café.
Aqueles administradores citados lá no início do texto deveriam saber medir o valor do ócio e da dispersão na produtividade não-analógica, assim como se mede nos desfiles das escolas de samba. Deveriam criar uma fórmula para isso, bem mais complexa das que medem o desempenho dos jogadores de futebol, mas com certeza chegariam a resultados tão imprecisos quanto as opiniões do Galvão Bueno e sua trupe, que têm a melhor tecnologia televisiva a seu dispor mais o replay e não acertam uma.
Antigamente, o ócio e a dispersão podia ser preenchidos com livros, revistas, anuários e até mesmo com bons papos, mas isso era num outro mundo, que já faz parte de museu. No mundo de hoje, podemos preencher os espaços virtuais e reais com várias realidades ao mesmo tempo. No dia em que quiserem medir tudo isso e chegar a uma conclusão, acho que até os computadores vão entrar em pane. Principalmente os que rodam o Windows. Felizmente, esse não é o caso deste que vos escreve, portanto, ele vai poder fazer o que quiser, continuar divagando ou largar o texto no meio e ir embora pra outro lugar, até mesmo pra casa, quem sabe, aquele casulo encrustrado entre outros casulos, empilhados em prédios, sob uma noite chuvosa de Ridley Scott.
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Papel carbono
Eu, redator, confesso: morro de inveja de quem vai ao 1º Encontro de Latino-americano de Redação Publicitária de Parati. Não tanto pela programação, que não é lá uma Brastemp (www.alaprio.com.br). Tem coquetel, exposição de anúncios (espero que com textos), lançamento de livro em que o autor ou autores não são citados, palestras com debate sem citar os palestrantes, homenagens e entrega de prêmios. Tudo bem. Um passeio por Parati compensa. E com folga.
Brincadeiras (de redator) à parte, a iniciativa da ALAP e dos Clubes de Criação do Rio e São Paulo é mais do que oportuna. É, no mínimo, curiosa. Acreditem, o redator publicitário já foi dado como morto e enterrado numa campanha do Festival Mundial de Publicidade de Gramado - de 2001, se já não me falha o hd. O referido vt comparava o redator a coisas obsoletas como o papel carbono.
Confesso também que o comercial me deixou chocado não só por descobrir que eu havia fenecido, mas porque a afirmação vinha de uma instituição mundialmente reconhecida. Apesar da respeitabilidade do anunciante, não dava pra concordar com a própria morte anunciada, a não ser que ela fosse redigida por um Gabriel Garcia Marquez. Soava mais como uma ameaça. Ou um atentado.
O comercial em questão gerou até uma certa polêmica, um pequeno bate-boca em que o veredito foi reforçado: no mundo da imagem e da direção de arte, o homem das palavras estaria com os seus dias contados. Poucos dias. Minutos, segundos, talvez. Só tem uma coisa: pelo texto do comercial, todo ele muito bem produzido, ficava evidente a participação de um redator. E bom. Traidor.
É por essas e outras que eu, redator, continuo aqui me confessando: tenho curiosidade de saber o que os colegas-defuntos vão falar e ouvir durante os dois dias desse encontro histórico. Vítimas do mundo esmagador das imagens, qual será o texto desses homens de palavras?
Com tantas certezas pairando no ar poluído e imediatamente sumindo sem nem deixar rastro, a supremacia da imagem na comunicação é uma das que continua por aí . O momento é mais do que oportuno para atirar palavras sobre o assunto. Estou fazendo a minha parte.
Outra coisa que sou forçado a confessar é que sinto falta de presenças, digamos, mais significativas no evento. Redatores famosos e outros nem tanto, mas igualmente ótimos poderiam estar entre os palestrantes. E escritores, também. Muito embora redação publicitária não seja literatura, um escritor talvez emprestasse um olhar novo, de fora, um olhar de primo rico. Luiz Fernando Verissimo, que já foi redator publicitário, e que certa feita escreveu que textos publicitários quando tentam ser literários viram, no máximo, má literatura. Mas como ele não é de falar, quem sabe o João Ubaldo Ribeiro. Ele é bom de palavra escrita, falada e debochada. E já pensaram em Saramago tergiversando à lusitana sobre a redação de reclames? Imperdível. Quem sabe até o Amyr Klink, que mora nas redondezas e é um mestre em ousadia, planejamento e criatividade aplicada a aventuras marítimas.
O pessoal que organizou o evento também poderia ter pensado em um slogan, afinal, o encontro é de fazedores de slogans. Tenho uma sugestão: Uma imagem vale por mil palavras; diga isso sem elas. O ponto e vírgula é pra dar um ar obsoleto à frase do (genial) Millôr, que provoca: diga que uma imagem vale por mil palavras usando apenas imagens.
É por isso que eu, redator, confesso: gostaria de estar lá para testemunhar o texto do encontro sendo redigido. Numa máquina de escrever e com papel carbono. Com tanta gente de palavra junto e Parati ao fundo, o clima não está para velório.
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Roudimuvi
Lá estava eu assistindo ao belo filme do Walter Salles, viajando na história e na paisagem, acompanhando a linguagem precisa, por vezes seca, que não cede ao sentimentalismo nem ao modismo umbilical de Tarantino, muito menos ao bilheterismo roliudiano, quando um argumento fictício para o filme tomou conta da minha mente, a ponto de interferir na história de Diários de Motocicleta.
Pode parecer uma heresia cinematográfica, no mínimo, mas o argumento é o seguinte: montados em sua Norton 500 Modelo 18, La Poderosa , El Fuser e seu amigo compatriota atravessam o Brasil pegando o rumo da Venezuela. Eis a sinopse tragicômica. Se algum Cacá Diegues se atraver a filmar, favor entrar em contato para negociarmos os direitos. A única exigência são os diáogos: em portunhol.
Ao invés de ir pelo Chile, os protagonistas decidiriam atravessar o Uruguai até o Chuí e, então, subir pelo interior desse país que é um outro planeta na América Latina, a começar pela língua, com suas vogais abertas, impronunciáveis para os hispânicos.
Por nossos pagos, também encontrariam seres destroçados pela injustiça e resignados com as suas sinas malditas, tudo ao som dos sambas da Rádio Nacional, ritmo que para eles soaria como a mistura de mambo com tango.
As Missões ocupariam o lugar de Machu Pichu, onde fariam pausa para meditar sobre a civilização, o ser humano, os padres e os índios guaranis, os nossos incas, tirando lições bem delicadas sobre cada um desses temas. Hermes Aquino na vitrola da trilha sonora.
Até aí o andamento do filme seria como o de Walter Salles, clássico, com breves pausas para as verdades irrefutáveis que se cristalizam em momentos ímpares. De repente, numa licença ficcional ainda mais questionável pelos historiadores, nossos heróis cruzariam com militantes do MST. E aconteceria o seguinte diálogo, a la Forest Gump.
Sem-terra: Alto lá. Quem são vocês?
Ernesto e Alberto: Somos médicos. Salimos de Buenos Aires y estamos viajando por Latino América.
Sem-terra (tocando com o dedo no nariz): Argentinos? Maradona!
Ernesto: Como? No comprendo.
Sem-terra: Bueno, estamos precisando de médicos mismo. Ustedes podem ajudar?
Alberto: Si. A que horas sale el asado?
Ernesto (dando um cutucão em Alberto): Que quiere decir MST?
Sem-terra: Movimento dos Sem-terra.
Ernesto: Como? En este inmenso país ustedes no tienen tierra?
Sem-terra: É. Não temos. Invadimos. Tomamos conta. O Lula está do nosso lado.
Ernesto: Por la concha de tu madre!
Sem-terra: O que que é?
Ernesto: Pero, digame una cosita, quién és esse en su remera?
Sem-terra: Não conhecem? Che Guevara! Ernesto Guevara de la Serna. Saiu lá da Argentina de motocicleta, que nem ustedes, como vocês dissem, e fez la revolución cubana com Fidel Castro, o do charuto, da barba, dos discursos que nunca acabam.
Neste instante, Alberto fita Ernesto, que saca uma boina preta do bornel, mira o horizonte com olhar messiânico e diz “vamonos, camarada, hai que endurecer, pero...”
Num novo corte ficional, muitos e muitos e muitos anos mais tarde, Ernesto e Alberto pegariam a fatídica BR-101, desaguando na Ilha de Florianópolis, onde conheceriam aqueles paradisíacos recantos banhados pelo Oceâno Atlântico e lotados de gaúchos. E ficariam lá por Canasvieiras, vivendo da pesca e da caça de brasileiras encantadas com los hermanos, contaminados pelo vírus do deixa pra lá e fumando de tudo, menos charutos cubanos, num boteco chamado Sierra Maestra ou La Bodeguita.
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Deus é Ela
E tenho provas. Tudo que o homem faz é em devoção à Mulher. Se o homem ainda acredita que é ele quem manda é por que não percebeu as mãos que controlam os marionetes que ele é, mãos de unhas muito bem cuidadas. A Mulher fez o homem acreditar que o mundo é dele. E o homem fez de tudo para e por amor a esse Deus encoberto pelos ardis das sais, humores alternados e olhares fulminantes.
O homem descobriu a caverna depois de ver uma cena que lhe pareceu comovente: uma linda e doce Mulher tiritando de frio. Foi uma das primeiras vezes em que o chip da dominação foi acionado, fazendo o homem agir imediatamente, procurando abrigo e conforto para Ela. Se, depois da primeira noite ele a arrastou pelos cabelos, não pense o leitor em maldade ou felicidade descontrolada. Simplesmente, não havia meio de transporte mais rápido. A lentidão ou a preguiça por tanto esforço - e aqui há controvérsias - fez com que o homem, depois de muito jogar pedras revoltadas morro abaixo, desse de cara com a roda. Pra quê? Para construir o carrão rudimentar da época e levá-la com mais rapidez para a caverna, crente de seu poder dominador, estacionando o veículo, abrindo a porta, fazendo-a descer para o leito do amor. E tudo isso era a Mulher fazendo-o bater pernas. Por Ela.
Entre tantos, outro momento que marca a evolução da nossa espécie é aquele em que a Mulher sentiu a primeira TPM. Desesperado com o mau humor divino, depois de muitas cabeçadas em árvores, o homem pegou as folhas e gravetos que caíram e fez o primeiro colchão. Daí para ter a idéia da casa inteira e toda a parafernália que ela abriga na modernidade, foram-se alguns passos de milhares de anos. E TPMs, também, sabiamente programadas para acontecer mês a mês, impulsionando o progresso e todas as suas conseqüências.
Mas a divindade feminina não parou por aí, muito pelo contrário. Numa ação que denuncia contornos ainda mais divinos e mitológicos, a Mulher instalou no homem o imã da atração e espalhou pelo universo mulheres que mexem com a libido masculina a um nível quase insuportável. O homem está indo lepidamente pela rua e, de repente, se depara com um exemplar maravilhoso, fica louco, tropeça, bate no poste, olha pra trás. Inútil. Ela nem aí.
Aquela sensação que o homem tem quando está cercado de mulheres também foi meticulosamente planejada. Fica tonto, bobo, achando que é o centro das atenções. Na verdade, são os centros magnéticos das mulheres que colocam o homem em agitação constante, por deleite e tiração de sarro. Ele se sente diante de um buffet, cheio de opções para saciar a gula. Mas ele é o jantar que será espalitado depois da devoração.
E Deus é tão Mulher que uma de suas doenças preferidas é a enxaqueca. Numa dessas, tomado de uma crise, Deus Mulher resolveu colocar um homem contra o outro, pra ver se a dor de cabeça sumia. Por um tempo foi legal. Mas depois começou a ficar sem graça. Um ganhava, o outro perdia, um pouquinho de sangue e ponto final. Foi então que a Mulher teve a idéia divina de fazer com que vários homens brigassem entre si, empunhando armas cada vez mais mortais, marcando a história com momentos terrivelmente inesquecíveis. É claro que a Mulher finge que não gosta dessse faroeste, mas é por Ela que ele a faz, pra mostrar que é Bush, que é Bin Laden. E depois derrama lágrimas e desculpas às vítimas, como que dando vazão ao seu lado sentimental, feminino. Caso você ainda esteja pisoteando o pantanoso terreno da dúvida, propomos um teste. Responda rápido: o que é mais lindo do que uma linda Mulher?
Duas. Se beijando. É o mais belo quadro já composto com a natureza humana. Duas mulheres entralaçadas por línguas, lábios, mãos, corpos e desejos. Uma harmonia e delicadeza de formas que nenhum pintor (homem) jamais conseguiu sobrepujar. O ápice de uma criação egocêntrica, hedonista. Ou você pensa que o lesbian chic é moda por acaso?
Outra prova irrefutável: só a Mulher consegue fingir o orgasmo. O homem só tem o direito de ser duramente sincero. Qualquer outra atitude é flagrada a olho nu.
Lá pelas tantas, você pode objetar: e a revolta da Mulher contra o domínio masculino, o famoso soutien queimado em praça pública, o brado feminista, que está mudando o mundo? É mais uma manifestação da maldade divinamente mulher. Teve um duplo efeito: ao mesmo tempo em que reforçou no homem a sua suposta dominação, o fez recuar até um terreno ainda mais cativo e conformado, até mesmo o de lavar os pratos depois do jantar.
Descobimos isso e muito mais, eu e meu colega de trabalho, depois de muitas idas e vindas de um simpático restaurante que é freqüentado quase que exclusivamente por mulheres, com um tempero que parece o da Mamãe. Chegamos a investigar os cogumelos do cardápio para ver se não estávamos delirando.
É. Deus é Ela. Porque só a Mulher teria sutileza suficiente para criar um mundo tão delicadamente intrincado, torturante e sedutor. Um mundo no qual sexo frágil é um disfarce que só as divindades sabem usar com astúcia e requintes de crueldade.
Oremos, pois. Amém.
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Dedos e cabelos
Os nossos pêlos estão para o prazer assim como os ramos das árvores para o vento. E os cabelos estão no topo da lista dos prolongamentos filiformes que cobrem os nossos corpos. A penugem está logo atrás.
Outros pêlos estão nos arredores e até mesmo encravados em zonas consideradas mais erógenas, mas os cabelos se conectam à periferia de um órgão que, ocidentalmente equivocados, cremos só poder ser acariciado por argumentos inteligentes. Bobagem. Um cafuné vale por mil palavras.
Já que sou redator confesso, essa descoberta tátil e visual acabou rendendo uma idéia que nunca ninguém pensou a fundo, no máximo utilizou em partes - como elemento decorativo da repetitiva técnica dos comerciais de shampoo, por exemplo. Talvez, algum dia, quando estiver criando para um dos grandes fabricantes do segmento, eu possa tirá-la desse papel virtual, já que no momento ela se apresenta inaplicável à carteira de clientes da agência em que laboro.
A idéia é simples, direta e lírica como poucas, em singelos trinta segundos. Dedos e cabelos. Simplesmente o roçar dos dedos nos pêlos. O engalfilhar das extremidades dos membros superiores no emaranhado de fios perfumados emoldurando o que, sem eles, torna-se uma simples caixa óssea que encerra e protege o encéfalo - com o devido desconto para Marlon Brando em Appocalipse Now, in memorian.
Mas muita gente só deve considerar o delicado envolvimento de dedos e cabelos na hora quase sempre abrupta do coito. São seres que, pelo menos neste interregno, amam matéria apenas, estão em estado de minoração, desculpados pelo fato de buscarem abrandar sofrimentos, de ter um pouco de alívio. Prazer, aliás, como música, serve pra isso.
Nada contra, mas o cafuné, antes mesmo da rosa ou do amor à primeira vista, é a prova mais do que plena da existência de um sentimento superior e sublime, que a grande maioria acaba direcionando a animais de outra espécie - como os caninos e os felinos, dando, aí sim, toda a atenção aos seus pelinhos.
Posso estar magnificamente enganado, mas dedos e cabelos formam uma dupla que a literatura, a pintura, a fotografia e a maria-vai-com-as-outras que é a propaganda julgam de menor estatura. Mas o assunto rende em beleza, grandiosidade lírica e sensualidade. Basta ter olhos para sentir.
Imagino longos cabelos negros em preto e branco. Fios loiros em cores vivas. Fogo na tela em fios ruivos. Crespos, em longos caracóis volumosos, finos ou extra-finos como a definição do intangível. Todos eles a mercê dos dédalos de dedos. O quase microscrópico contato do pessoal intransferível registro digital de cada um com a filigrana dos fios. Dedos abrindo a mata cerrada de cabelos. Dedos denunciando a penugem da nuca escondida sobre uma cachoeira de cabelos. Dedos arrepiando pêlos. Cabelos alcançando o meio das costas, naquele ponto exato em que, formados mãos, os dedos podem envolver não apenas melenas, mas a parte anterior onde forma-se a helenice dos seios. Dedos e cabelos e dedos e cabelos.
O final, o desenlace, melhor dizendo, conteria um toque de impossibilidade, para aguçar o lirismo da peça, que então entraria para o short list de Cannes: um único fio escapulindo lentamente por entre os dedos entreabertos, como se água fosse.
Precisamos colocar no ar uma idéia como essa. Por isso, a lanço. Ao vento. Caso alguém a copie, a prova de sua autoria está aqui e agora, nesta página virtual. Dedos e cabelos. Quem sente o sublime sabe do que estou falando. Quem não sabe do que estou falando, passe a mão nos cabelos agora mesmo. E sinta o vento roçando a copa das árvores.
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Cortes são rápidos
O controle remoto é sacado como um revólver é arrancado do coldre nos filmes de faroeste. O gatilho dispara. Velocidade de um Billy The Kid.
Nada. A imagem na tela. O gatilho, de novo. E a bandida lá, parada. Aperta, aperta, aperta, aperta. Não acontece coisa. Nenhuma.
Ele joga-se para trás e prende o grito. Levanta-se e vai até o banheiro. Retém a urina como naquele exercício oriental para evitar a precocidade da ejaculação e então deixa o jato espesso e amarelado fazer sonoras borbulhas ao cair na água da privada. Segura de novo. Solta. E volta mais aliviado.
Saca seu trabuco eletrônico e pá, pá, pá, pá. Nada. Abandona o sedentarismo e vai até a frente do aparelho para desligá-lo - talvez as pilhas do controle não fossem alcalinas. Cadê a frente do aparelho? E o power?
Algo acerta o seu ouvido em cheio, um sai da frente agudo e irritado. Mais surpreso do que antes, ele vai até a pessoa que o acertou com um berro – o grito, não a gíria de revólver - e pergunta por que ela tinha falado assim com ele, já que ele só estava querendo desligar a TV.
Que TV? - responde o cara. Eu só queria que tu saísse da frente da mina. Olha só, coisa mais linda.
Linda mesmo, mas cadê a TV, ele pensa, cadê? Uma turba apressada e sem modos o arrasta, fazendo-o voltar ao seu lugar de origem. Os pensamentos também o empurravam pra lá e pra cá.
Espera aí, as luzes estão acesas, eu estou aqui mesmo, não estou dormindo, não estou delirando, mas que lugar é esse, afinal? Outro grito.
Tu aí, é, tu mesmo, esqueceu o que tem de fazer? Senta aí, acende um cigarro, fica falando sozinho, alguém que está delirando.
O cara que falara com ele tinha pinta de manda chuva, diretor, big boss. Ué, será que eu estou em um filme, que eu sou um figurante? - ele pensa. E imediatamente decide sacar o seu controle cada vez mais remoto, numa tentativa de acabar com o pesadelo. Pá, pá, pá, pá, sem perdão.
Mas o que vem em sua mão é uma Smith and Wesson. Cheiro de pólvora queimada e aquela fumaceira do maior alvoroço. O diretor volta a atacar, agora com a jugular espumando.
Tá querendo roubar a cena, é? Qual é? Isso aqui é um filme, porra.
Ele mira por cima do ombro do diretor baixinho e vê as caras nada satisfeitas dos camera man. Parecem seguranças de casa de tolerância, geralmente pouco tolerantes.
Senta-se. Raspa um fósforo na sola da bota. Acende o cigarro e fica falando sozinho, um hábito antigo, fácil de repetir, como andar de bicicleta, ninguém esquece.
Nisso, entra em seu campo de visão o pedaço de um corpo que vai fisgando o seu olhar, em slow, uma parte interessante, a meia altura, à retaguarda.
Ele faz uma avaliação rápida e exprime uma quase incontrolável satisfação, perceptível por quem está em volta. Bem, nem tudo está perdido, pensa.
Um tapa estala. Na cara. Na sequência, um soco. O tapa vem da proprietária da linda derrière. O soco, do cara que estava no balcão, o mocinho.
Corta, alguém grita. Agora temos.
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Como os outros, porém diferente
Não é piada. Ou é uma piada que aconteceu de fato, logo virou tragipiada. O briefing tinha exatas três linhas. As duas primeiras informavam o tamanho e o assunto da peça. A última era essa pérola que está aí no título, jogada aos porcos da criação: criar um anúncio como os outros, porém diferente. Não vou dizer onde isso aconteceu. Coisas desse naipe brotam como erva daninha em quase todos os clãs publicitários, mas aconteceu e o que vem a seguir é um desabafo sem o acento da lamúria. É um exagero, de certa forma, mas o exagero nada mais é do que a essência da verdade que uma caricatura é capaz de expressar.
Desde a tensa infância publicitária, sempre me perturbaram as vistas os textos dos pedidos de trabalho, a ponto de deixarem meus globos oculares com a expressão de quem está sofrendo uma lavagem cerebral, meio fora de órbita, algo assim como Malcolm McDowell em LARANJA MECÂNICA. Tanto , mas tanto, que semana que vem devo ir ao oculista, embora devesse também procurar um discípulo ou discípula de Freud.
Alguns desses pedidos beiram a calúnia e a difamação ao português e deveriam ser julgados, condenados e presos, para que nunca mais espalhassem a feiúra das suas construções ao restante da comunidade textual. Data vênia, os advogados que os defendessem também teriam os textos de suas defesas devidamente examinados por uma junta de linguistas.
Os textos de má redação seriam então enclausurados no Presídio dos Pedidos de Trabalho e por lá permaneceriam a alimentar suas traças em perpétuas penas exemplares. As portas do PPT seriam abertas somente para que os estudantes lá entrassem e aprendessem o que não devem fazer sob hipótese alguma. Nem o sol deveria por lá passear, sequer rasgar as frestas mais ínfimas dessa clausura.
Geralmente, quem mais sofre com os detratores da língua são os redatores, como este que vos fala. O momento em que se dá esse encontro, aliás, é quase sempre perpassado de angústia. Quando os olhos do redator avançam por sobre o papel, é como se fossem uma nave buscando pouso em outro planeta. E a lei de Murphy é mais implacável do que a de Newton.
Há frases de todo o tipo, coisas como vamos fazer uma peça de fácil compreensão e acessível a todos, como se publicidade fosse criar herméticos enigmas dirigidos a iniciados.
Muito comum, também, é a que faz referência a um passado recente e que deve ser criado algo assim no mesmo estilo. E por aí vão. A partir de hoje, por sinal, vou colecionar algumas para a posteridade. Prometo publicar.
Não faço aqui referência a um conjunto maior de informações, o famoso briefing, que sempre deveria alimentar os criadores e que, geralmente, está em falta na despensa da maioria das agências. Refiro-me ao texto propriamente dito, esse que é o elo de comunicação entre profissionais e que expressa o raciocínio anterior ao processo criativo. Se esse raciocínio é obtuso, sem nexo ou outra coisa mais assustadora, o criador fica numa sinuca de bico. E nem Rui Chapéu sai delas todos os dias.
Quando o pedido aterrisa pela internet, então, a situação pode ser agravada. A própria redação virtual já obedece a códigos específicos, o que contamina ainda mais a ausência de um raciocínio que faça sentido. Em virtude disso, abrir a caixa de entrada de um e-mail de trabalho pode se tornar uma aventura de ficção muito além da imaginação de um Stanley Kubrick.
Por que é assim? As razões são muitas e essa coluna não veio ao mundo virtual apenas para detectá-las, mas para despejar raios elétricos e luminosos sobre os assuntos, para que o e-leitor sinta-se provocado e tire suas conclusões. Mas é claro que a falta de aptidão para redigir umas frases com algum sentido denuncia não apenas dedos e mãos sem talento para o teclado, mas cérebros conturbados, relapsos e sedentários. Deveríamos criar academias de malhação do cérebro. Academias que não seriam como as outras, mas muito diferentes.
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19.12.06
A crônica que não queria crescer
Ela nasceu como vêm ao mundo as surpresas: da geração espontânea de uma idéia assoprada pelo vento, com o porte de uma frase que não enxerga além do horizonte do ponto final. Sua curiosidade não atingia a estatura de um parágrafo pontiagudo, pretensioso. Engatinhou por um bom tempo, atônita com o incansável exército das formigas, a ensurdecedora sinfonia das cigarras e a estranheza peçonhenta de cobras, largartixas e aranhas. Na tentativa de afastar-se delas, ainda em fraldas, ergueu-se e tombou uma centena de vezes antes de conseguir ficar em caixa alta e baixa, com a altivez de um título. A perspectiva bípede deixou-a insegura. Agarrou-se na condição de sujeito de sua história, colocou um pé na frente do outro e descobriu o verbo andar e depois o verbo correr e saiu em disparada, achando-se tão veloz quanto um cachorro atrás do próprio rabo. Tomou gosto pela brincadeira de viver perigosamente sobre a terra e a grama rala do pátio, pela areia da praia, na beira do rio. O tempo, crônico em passar, passa, os fonemas se juntam, palavras brotam, até que um dia, olhando diretamente nos olhos do horizonte, com motivos ocultos por trás da pureza, salta de sua boca uma sentença irrevogável, denunciando o sal da primeira amargura e o franzir da primeira ruga de sua alma infantil.
- Eu não quero crescer.
E sai a bater pernas mais uma vez para encontrar o chão e o joelho dilacerado. Passado o frisson do medo e a ardência do mertiolate, bate em retirada, para longe de uma vida adulta e crônica de responsabilidades. Não quer saber de contar sua história nem de assumir o ar didático e moral de uma construção literária. Não quer saber dos sinos do cinismo, que soam a cada assertiva maldosa. Do orgulho, quer apenas aquele que ocupa o tronco das árvores. Quer a terra para cavocar nela a verdade das raízes. Quer brincar com bandos despretensiosos de palavras-pássaros, percebendo o vôo que vem descendo sem ninguém chamar, com as frases se sucedendo em uma cadência de sons da mata, nunca com o ritmo dos compromissos marcados e dos encontros vocálicos e consonantais de vocações forçadas. Quer afundar nos contextos dos rios, fluidos, fundos, rasos, transparentes ou escuros. Quer subir na semântica galhosa das árvores para ver além e acima, sentir a temperatura do sol nas costas das palavras caminhando livremente pelas descobertas naturais. Quer o mar dos acontecimentos mínimos de um dia indo e vindo na vastidão de sua falta de compromisso, de sua alegria de bichinho livre e feliz. Quer saborear as palavras e os sons como vermelhas pitangas, suculentas laranjas de umbigo ou fedorentas bergamotas desbagaçadas e suas cuspidas sementes. Do mundo dos grandes, apenas o aceno do olhar do autor, dando-lhe segurança e liberdade, mesmo que de longe, perdido naquela linha do horizonte que está sempre no mesmo lugar, deixando-a livre para correr e cair e levantar, com os registros de suas eras evolutivas talhados em hematomas nas canelas finas. Embora vá continuar preenchendo páginas e páginas, não quer jamais ser uma crônica de mentalidade adulta, preocupada em dizer alguma coisa, ou um adulto de mentalidade crônica, querendo ter o que não tem. Quer ser apenas uma crônica criança grande.
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A bunda de Deus
Que o mundo está uma piada de muito, mas muito mau gosto mesmo, todo mundo já sabe, carecas e não carecas, da Jamaica, Davos ou do Haiti. Até cartum hoje em dia pode virar bomba. As guerras são cada vez mais estúpidas e injustas, como se fosse possível existir uma escala para medir tamanha horripilância. E a guerra é apenas a faceta mais sangrenta das injustiças, a lista não tem fim.
A terra está derretendo, vivemos dentro de uma estufa e não somos flores que se cheire, mas ervas daninhas e danadas. Tem gente bancando nostradamus dizendo que vem mais catástrofes por aí. Novos germes, vírus, bactérias e outras pestes não param de nascer e de infernizar a vida de todo mundo, até da Copa do Mundo. Traficamos armas, drogas, crianças, órgãos e ainda fazemos turismo sexual. Enquanto o boom tecnológico aponta para um paraíso digital high-tech, a realidade analógica nos trucida, humilha e só não nos deixa sem tesão porque ainda somos os animais racionais reprodutores e predadores que mandam no pedaço. Mesmo que irracionalmente. E, como se tudo isso não bastasse, ainda tem o Bono.
U2 é uma banda cool, legal, menos para Beaves and But Head. Cumpriu seu papel nos anos 80, foi trilha sonora da década perdida entre punks, darks e new wave e sobreviveu aos noventa. Uns LIVE AID bem que ajudaram. Eles foram atrás da terceira via entre Beatles e Roling Stones, já que não podiam ser geniais como aqueles e tão viceralmente roqueiros como estes que até hoje põem o povo em delírio, mesmo parecendo personagens de seu próprio museu de cera.
E conseguiram. Ou melhor, Bono conseguiu transbordar os limites do palco da realidade, transformando-o em palanque. E aí ele posa de bom moço ao lado de grandes crápulas da política mundial (Bono e Bush dá uma boa dupla country). É o maior lobista do Vaticano. Ou como você acha que ele conseguiu o “perdão” de algumas dívidas dos países “pobres”?
Mas vamos ver o lado Bono da coisa. Ao que tudo indica, o moço tem pretensões muito maiores do que seu conterrâneo James Joyce ou do que o Nobel Desmond Tutu. O cowboy de Dublin dá ares, na verdade, de querer ser algo muito mais grandioso e bíblico, algo como o futuro Papa, a personificação de Deus na terra. O terço no microfone é uma mensagem ao Primeiro de Todos dizendo “olha só como eles adoram a mim e a Cristo pendurado num símbolo fálico, isso não é o máximo? Nem preciso convertê-los, eles já são meus. Os quereis para Vós (Vox?) de novo ou deixá-los-a (empregar uma mesóclise é soberbo) à mercê de fanatismos?”
Imaginem a revolução que seria o fato consumado. Bono aparecendo na janelinha do Vaticano, todo de branco e amarelo com aqueles óculos coloridos e transparentes. Waaaalll. O mundo iria à loucura. Intelectuais gastariam muitos neurônios para tentar entender e muito mais saliva e dígitos e papel para se fazer entender, num esforço ad infinitum. A batina subiria às passarelas com o aval do Divino e andaria pelas ruas cobrindo as vergonhas de simples mortais. O mundo inteiro seria anestesiado com as missas pop do novo Primeiríssimo e até mesmo os muçulmanos teriam sua raiva abrandada porque, vamos combinar, muçulmano deve adorar Sunday Blood Sunday, embora devam alterar o refrão, mas isso é detalhe, é só deboche a la Maomé (abaixa aí que vem bomba).
Nas missas, Deus Bono ou Bono Deus faria a apresentação de sua troupe assim: "This is The Edge, my coroinha." O coroinha ficaria em português porque ele sempre estaria de olho em seus fiéis latinos. Frases do tipo “irlandês é um brasileiro que não sabe dançar” e “o Brasil é a extremidade mais sexy do catolicismo”, pérolas da nova teologia pop, serviriam para massagear o ego esmagado dos brasileiros. A mulher que ganhou um selinho seria canonizada e seu marido santificado como Corno de Deus. Em suas visitas ao Brazil, faria dupla com o Padre Marcelo e tomaria hóstia mineira com Lula para ajudá-lo a vencer a bursite e o Serra, que é o prórprio capeta, só que anêmico. Em companhia de um gaúcho ele cantaria “Ucho, ucho, ucho, o Bono é gaúcho...” e “O Bono é pop, o pop não poupa ninguém, o Bono vai levar um tiro à queiama roupa, mas vai ser de festim...”
The Edge é o responsável pelas sucessivas camadas de pesados rifs de guitarra que criam aquele clima U-RRU2, mas não pode avançar em solos muito individuais. Solar é pecado. É coisa do demônio Keith Richards. Mick Jager seria condecorado como o anti-cristo e mandado para o inferno (com a Luciana Gimenez), porque esse sim é rock and roll, música pagã, que não abraça causa nenhuma, é a própria causa, a causa do prazer, do sexo e das drogas.
Adaptando-se aos novos tempos do cristianismo pop, as comunidades do orkut que veneram Bono teriam que trocar seus nomes para não serem hereges. "Seria Bono Vox o Messias?" mudaria para "Bono é Deus"; "Eu daria para o Bono" mudaria para "Eu daria a bênção para o Bono"; !A bunda do Bono é linda" iria se chamar "Que bundinha, meu Bono Deus". E o mundo viveria na santa paz de Deus, quer dizer, de Bono Vox. Porque Deus é irlandês e não sabe dançar.
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Curto e grosso
Os xenófobos, as tias e o Vinícius de Moraes que me perdoem, mas a campanha da Gang é fundamental. Qual o cara de criação que não gostaria de ter em mãos o briefing de um cliente desses, com carta branca para usar palavrão e fazer lay out em funesto fundo preto?
Só tem um senão. O felizardo redator que participou da confecção criativa, se defendeu a versão tupiniquim, perdeu o debate. Ou então nem o fez, por preferir a redação globalizada.
OK. Eu iria às raias do olho da rua em nome do palavrão nacional, que é muito mais do caralho. O correlato norte-americano já perdeu sua força, até porque tem mais fuck do que dentes e neurônios nas bocas e nas mentes dos amiguinhos do norte. Mesmo assim, as tias carolas reagiram. Ganhou o revide criativo do CENSURADO. Parabéns.
A verdade é que o fuck foi domesticado. É um pitbulzinho. Só arranha os pudores das tias. O Bush não tá nem aí se alguém levantar um cartaz mandando-o praquele lugar. Virou lugar comum. Mas se você sapecar um desses pro Lula, a chapa esquenta. Palavrão em português é como bengalada. Dói mesmo. Pro Bush, só diga isso em português se não tiver tradutor e intérprete por perto.
Outro exemplo da virilidade do nosso palavrão é o cinema. O sujeito assiste a um filme norte-americano e sai com mil e quinhentos fuck e mother fuck atravessados nas orelhas, no minimo. E nem liga. Quando ele ouve o primeiro palavrão numa película brasileira - ai, que vulgar. O Brasil positivista do ORDEM E PROGRESSO não engole muito bem a mandioca das suas raízes. Mas já estava na hora de aprender a ser curto e grosso, quando for preciso.
Por tudo isso e mais um pouco, fuck you, 2005 é a mensagem do ano. Traduz e resume, em alto e bom som e com ou sem ele, a sensação brasileira com esse período cronológico tão deprimente. Aliás, a campanha poderia ter uma sustentação mandando inúmeros fuck you para as retrospectivas, os pais-de-santo e demais clichês de fim de ano.
Esse fuck you deveria ser uma espécie de reserva moral, o ano todo, sempre que preciso. Só que, repito, na versão nacional. Foda-se, 2005. E que que é, 2006, vai encarar?
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18.12.06
Orações provocativas substantivas adjetivadas
O poder das frases é quase o mesmo de uma estocada certeira ou um tiro, com largas vantagens. Se for das boas, a lâmina da frase deixa sua lembrança para sempre na carne da memória. Em relação ao tiro, a frase prescinde do escandaloso estampido, da inconveniência da pólvora e da aparência repulsiva do sangue. Só palavras. No meio da testa.
É por essas e outras que há frases que a gente guarda pra sempre, queira ou não queira. O sujeito vai no banheiro, ela vai atrás. Não sai na urina nem vai aos pés. O sujeito vai pra cama, ela vem que nem amante no cio. O sujeito sonha, ela surge tipo presságio. Frase boa gruda no sujeito, que nem verbo de ligação.
Em Bonitinha mas ordinária, do bravíssimo Nelson Rodrigues, tem uma frase repetidamente citada do início ao fim. É o verdadeiro lema dos mineros.
Quem lia Paulo Francis, no século passado, podia não concordar com ele, mas como não se divertir com a mistura de sarcasmo, deboche e plutônio num mesmo petardo. Só uma dele, pra matar a saudade rindo e muito: Marx escrevendo sobre dinheiro é como padre falando sobre sexo. (E sem aspas nas citações, por favor.)
Diogo Mainardi segue seus passos à risca. Ofensas curtas e grossas, uma atrás da outra, de preferência injustas, até acertar uma pérola nos textículos do adversário. Uma pérola do tamanho de uma bola de boliche. Macartistas adoram o exagero. Frasistas, também.
Aliás, a palavra não aparece no Aurélio. Frasista é o cara que faz as ditas cujas. E não são poucos. Formam uma legião universal. Bilhões de citações sendo arremessadas sem papas na língua.
Mas, para sintetizar, o rei da síntese. Millôr Definitivo, o livro, é a bíblia das frases em português. Todo metido a criador de orações provocativas tem que jurar com a mão em cima. Viver é desenhar sem borracha. Sexo causa gente. Bons tempos aqueles em que o faroeste era nos Estados Unidos. Feliz é o que você vai perceber que era, algum tempo depois. Todos os países são difíceis de governar. Só o Brasil é impossível. Roube hoje! Amanhã pode ser ilegal. Por aí.
Duailibi tem o seu famoso Phrase Book. Frases que, segundo ele, cutucam a criação. Deus não tinha phrase book, mas o melhor frasista de todos os tempos como dupla.
Ruy Castro fez uma série de livros só com elas. O melhor do mau humor foi o primeiro. Sim, porque grande parte das frases são filhas adúlteras do mau humor. O mau humor incentiva muito mais a criação do que o bom. Este é bom pra pele. Aquele, para as vísceras.
Juremir soltou uma nada acadêmica: Chico Buarque é o Felipe Dylon das quarentonas. E foi o Verissimo quem disse: Só acredito no que possa tocar. Não acredito, por exemplo, em Luiza Brunet.
Tem a famosa perco o amigo, mas não perco a piada, que mostra uma outra faceta das frases. Piada condensada. Não precisa ir até o menu. Tecla shift. A tecla aí é meramente ilustrativa.
E como se faz a frase de uma palavra só, como o samba?
E o que dizer do epitáfio, a última frase, que fica lá no mármore provocando gargalhadas e lágrimas entre flores esquecidas?
Frases soltas, oba, coisa boa.
Frases boas compõem diálogos inesquecíveis. Estão fazendo falta em nossos spots. Talvez os redatores de hoje não acreditem no poder criativo e rejuvenescedor do mau humor. Ou os que estão por sobre eles, no coito diário da criação.
Por falar nisso, a publicidade está abandonando as boas frases, os títulos, sacadas. Os textos têm ido parar na frente do pelotão de fuzilamento das imagens. Lamentável.
As frases estão em todos os lugares. O sujeito vai no mercado da esquina e de repente uma delas surge do meio das bananas. Mas ainda tem propaganda que imita a vida, embora boa parte dela prefira copiar a Archive. Nada contra a grande publicação alemã, mas como uma frase leva a outra e por falar em Alemanha, lembramos o irrelevante futebol: frase é drible. Ronaldinho, grande frasista. Pelé-Maradona.
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O dia em que o Brasil ganhou o Oscar
Todo ano é assim. A emoção inicial da indicação ao prêmio da Academia gera uma corrente ufanista de deslumbramento pelo prêmio máximo da indústria do cinemão. A imprensa, artistas e palpiteiros de plantão começam a dar como favas contadas. Metem-se lá no meio do mundão yankee e catam declarações de que o filme brasileiro é bom, sim, leva jeito, claro, pode ganhar, ok.
O país baba. A elite e a patuléia interpretam o pode ganhar como já ganhou. Vira uma Copa do Mundo de Futebol, só falta o juiz Billy Cristal apitar o fim do jogo. Mas aí surge um Giggia e nos dá uma bola nas costas. E é como se a derrota para o Uruguai na Copa de 1950 se repetisse. Estamos condenados a fracassar na Hora O(scar). Nossos roteiristas, diretores, atores e lobistas são uns Barbosas. Tomam frango. Dão vexame. Entregam o jogo. Calam Maracanãs.
A trama dessa novela nacional já está ficando tão melodramática que um dia desses vira filme da Globo. Ou seja, superprodução para os ricos com dinheiro dos pobres. No grand finale, felicíssimos de azevedo e da silva, a gente ganha, com roteiro do Jorge Furtado, direção do Guel Arraes.
Comoção nacional. O elenco desfilando pelas capitais brasileiras em carros de bombeiro pra incendiar a audiência. Galvão Bueno, com a voz embargada, puxando nos erres, lembrando Airrrrton Senna, Rrrrrromárrrrrrrio, Rrrrrivaldo, Rrrrrrronaldo, Rrrrrrrrrronaldinho.
Suando às bicas e às lágrimas, Lula decreta feriado nacional pra ver se o pessoal esquece do Zé Dirceu e fica de olho no Zé Celso e suas bacantes nuas subindo a rampa, em Brasília. Joãozinho Trinta carnavaliza o tema, com direito a todos os delírios do gigante que não adormece mais em berço esplêndido, brilha na Marquês de Sapucaí de Hollywood. Carros alegóricos mostram todos os filmes que morreram na praia, mas que agora comem o prato frio da vingança, antropofagicamente falando. Oswald de Andrade ergue um Pau Brasil gigante, duro, decretando o fim da impotência brasileira diante da alta cultura norte-americana.
Na entrega do prêmio, o Ministro da Cultura Gilberto Bob Marley Gil sobe ao palco junto com o elenco e canta Não chore mais, meu Brasil, o Oscar é nosso, urrú. A Embrafilme está viva e Glauber Rocha vai voltar.
A platéia fica encantada. Esse pessoal da bolívia é mesmo muito engraçado. Devem cheirar todas pra manter esse pique, essa simpatia tipicamente cucaracha. Mas podiam ser menos barulhentos, né?
O Oscar é levado à casa do BBB. Pedro Bial faz o maior mistério. Jorge Fernando adentra a casa com um objeto misterioso nas mãos, encoberto por um pano. Aquele que adivinhar o que é, ganha quinhentas pratas na hora. É a Jules Rimet roubada, diz um lutador de Sumô. É O Laçador em miniatura, diz um gaúcho. Iemanjá! Iemanjá! E por aí vai.
A imprensa gaúcha estampa a manchete em letras garrafais: TEM GAÚCHO NO OSCAR. E cita cada um dos conterrâneos que esteve lá e ajudou a trazer o dito cujo pra casa. Tomados de súbito positivismo, Verissimo e Juremir escrevem um texto a quatro mãos, citando Shaw e Baudrillard, fazendo as pazes no subtexto oblíquo. Entre eles e com a Nação renascida. Só Diogo Mainardi não entra na caravana. Permanece lá no seu canto tomando água de coco e arremessando opiniões pela sua janelinha na Veja.
Ninguém dá a menor pelota. O Oscar é nosso. Entram os créditos.
Fim?
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2 perdidos n1ma net suja
Fulano diz:
e ae? tudo bem?
Beltrano diz:
vai, mas tô a fim de fazer outra coisa, abrir um bar, cansei dessa vida
Fulano diz:
q bar q nada, só na cidade baixa tem 200, 250, vamos radicalizar, montar um bordel
Beltrano diz:
hahahaha
Fulano diz:
FLAUBERT
Beltrano diz:
flaubert?
Fulano diz:
o melhor lugar para um escritor viver era um bordel...segundo o cara
Beltrano diz:
escritor? não somos escritores
Fulano diz:
mas somos “criativos”
Beltrano diz:
hahahaha!
Fulano diz:
um sobradão, fachada art nouveau, decoração idem, toques de pós-modernidade fake, um mix de casa de tolerância com casa dos horrores, luz vermelha com estroboscópica, brega com chic trash
Beltrano diz:
uau, que conceito
Fulano diz:
mulheres belle epoque, absinto, luxúria e muito dinheiro no caixa, madame bovary na gerência
Beltrano diz:
e jás! muito jás!
Fulano diz:
nada de idéias, texto, layout, palpites, eu acho, tu acha, chega disso, uma big band!
Beltrano diz:
de mulheres! e um palco em formato de navio, cheio de loiras
Fulano diz:
montamos o show falus excentricus versus vaginas egocêntricas, uma mistura de tenenbaums com a madona
Beltrano diz:
sexo ao vivo com subtexto pueril? tô fora!
Fulano diz:
hahahahahaha! na independência tem um casarão pra alugar, uma coisa francesa, a quadra da devassidão cult, esses lances, lá embaixo a farrapos, a volunta Beltrano diz:
fan-tas-tic!
Fulano diz:
vamos ao sebrae levantar fundos...entertainment!
Beltrano diz:
geração de empregos, turismo, putaria também é cultura!
Fulano diz:
vai que eles liberam uns 100 mil
Beltrano diz:
tu já tá bebendo? são só cinco e meia
Fulano diz:
de manhã...igreja...de noite...BORDEL!!!
Beltrano diz:
boa!
Fulano diz:
com direito a gajos para as raparigas se refestelarem e padres erguendo as batinas e mostrando suas partes pudendas às virgens espavoridas
Beltrano diz:
hahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahaha
Fulano diz:
e teriam sumidouros na casa
Beltrano diz:
???????????????????????????????????????????????????????????
Fulano diz:
para os eventuais falsos moralistas
Beltrano diz:
touche!
Fulano diz:
aproveito e mando este texto pro adonline e pro argumento.net
Beltrano diz:
boa!
Fulano diz:
vai que eles publicam e alguém topa patrocinar, afinal, esse é um texto que reflete a crise do profissional diante da falta de perspectivas no mercado...fui, tenho que fazer o anúncio de dia das mães
Beltrano diz:
que é neste domingo, bom dia pra inaugurar
Fulano diz:
de manhã...la mamma...de noite...FLAUBERT
Beltrano diz:
só não gostei do nome, madame bovary ficaria mais legal
Fulano diz:
tu acha?
Beltrano diz:
apesar da sonoridade ebúrnea, flaubert é macho
Fulano diz:
mas a madame é personagem, o criador é o cara
Beltrano diz:
td bem
Fulano diz:
a gente vê, vou revisar o texto pra ver se tem erro
Beltrano diz:
bobagem, o erro é o acerto
Fulano diz:
oquei, lá vai
Beltrano diz:
fui
Postado por André Martins às 6:36 PM 0 comentários Links para esta postagem
Paz é amor
Guerra é sexo de impotentes - se eu escrevesse broxa, censurariam? Debate é flerte. Polêmica é o bom e velho sexo. Os beligerantes anseiam a ereção, a penetrância, por isso tantos canhões fálicos e mísseis balísticos espermatozóicos fecundando a morte de civis inocentes e de crianças. Querem rasgar a carne do outro, afundar na lingerie, ferir até a morte o corpo se debatendo, ensanguentado - menstruado? Não sossegam enquanto não matam o inimigo do prazer de sofrer.
Para aqueles que estão envolvidos num afair momentâneo, tudo é troca de olhares argumentativos. E inofensivos. A não ser que o flerte evolua até a aproximação e o contato mais próximo com a aura do outro. Aí outros órgãos e sentidos entram em ação e pode virar outra coisa.
Sexo, ah, o sexo é o supra-sumo. É o instante em que todo o ritual demonstra que os contendores estão envolvidos numa peleia sem igual, mas no entanto o que realmente sentem é o desenrolar de sensações indescritíveis, que fazem o corpo perceber a altura do divino. Maravihoso.
Se você olhar bem para dois humanos fazendo sexo vai pensar que eles estão querendo o mal um do outro, assim como na polêmica. Mas não. Na verdade, todos nós sabemos disso, mas não custa lembrar, na verdade eles querem é botar os podres pra fora, exorcizar corpo e alma, expelir a ânsia, aliviar a dor, secar a mágoa, matar e morrer, gozar. A superfície de um bom bate-boca deixa claro que os brigões estão na verdade se acariciando de forma animal e intransferível. Por mais que os argumentos pesem, maculem e firam, há sempre um quê de prazer de ambos os lados. Na polêmica, assim como no bom sexo, ninguém domina o tempo todo, mas só no exato momento em que está, digamos assim, com a palavra.
É por issso que as polêmicas chamam tanto a atenção da gente, porque expelem algo de erótico e de pornográfico, aí dependendo da competência dos envolvidos para um ou para outro.
Os polemistas, quando dão trégua, entregam-se ao deleite retroativo de suas ações, recarregando as forças para o próximo embate. E não anseiam pela paz. Paz é amor. É puro disfarce, a máscara que os humanos usam para esconder o canibal. Mas a verdade é o momento em que a máscara cai, levando junto todas as roupas. E comemos uns aos outros vivos.
Mas no sexo, assim como na polêmica, é bem melhor estar dentro. Quem fica do lado de fora só olhando, a la voyeur, quem tem algo quase explícito de invejoso, sente o desejo irrefreável de entrar com os dois pés na suruba. Mesmo que ela tenha se originado de algo banal, de uma atração indefinida, um motivo sem tanta importância para os outros, mas que para os envolvidos parece ser questão de vida ou morte.
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A nível de passatempo
A língua portuguesa falada e escrita por nós nasceu do bate boca de dois mundos que se toparam de repente e se estranharam. Os jesuítas sacaram o seu latim e venceram a parada, num encontro marcado por mortos, feridos, interjeições e interrogações sem resposta. E assim o é até hoje. Apenas os filólogos podem eructar que compreendem a nossa língua em toda a sua extensão, tal e qual padres pregando sobre a bíblia da gramática. Só que os filólogos não falam a mesma língua. Tente acompanhar as explanações desses experts. Você vai acabar perdido num labirinto de orações subordinadas substantivas adjetivadas, com uma crase fincada no peito e um hífen entalado na epiglote. Se assim o é para eles, para os mortais comuns o que resta é uma relação permeada de
dúvidas, incertezas, erros e outros senões. Mas, descartando o pessoal da alta cultura, podemos afirmar que o domínio da língua divide a humanindade que fala e escreve em português entre Nós e Eles. Nós somos aqueles que não cometemos absurdos. Quando o fazemos, foi erro de digitação. Eles são os que continuam repetindo erros medonhos, que já são de domínio público, só que Eles não percebem. Nós cultivamos o saudável hábito da leitura e conseguimos identificar o sujeito de uma frase, usar o verbo no tempo certo e não corremos o risco de receber um objeto direto na cabeça. Eles cultivam outros hábitos. Nós estamos livres das gafes imperdoáveis, das frases truncadas e sem estilo, daqueles
garranchos que mais parecem hieróglifos de uma espécie que foi extinta enquanto tentava inventar a escrita. Eles sapecam os plural. Mas, para os filólogos, somos todos uns erráticos, uns hereges. Tanto que escrevemos Ano Novo assim, sem hífen e com o n em caixa alta, quando o correto é Ano-novo. Feliz Natal, pecadores.
Postado por André Martins às 6:35 PM 0 comentários Links para esta postagem
A tiracolo da Miss Brasil
Por mais que os comerciais do mundo inteiro esfreguem gente bonita na nossa cara, não tem jeito, a maioria esmagadora da raça humana é de uma feiúra atroz. Gente externamente bonita, esteticamente falando, não chega a um por cento da população. E um por cento desse um por cento é composto das mulheres que nasceram para ser Miss.
Por um lance de dados do destino, esse senhor cruel que por vezes é generoso, acabei andando por aí a tiracolo da Miss Brasil 2004. Como toda Miss, ela é a beleza em si, aquela que merece a admiração de todos, sem distinção de sexo, cor, credo, ideologia ou qualquer outra categoria que nos separa em preconceitos.
Assisti-la entrar em um shopping é uma experiência quase hollywoodiana ou quem sabe woodyallenana, se é que vocês me entendem.
Como a atual Miss Brasil não é tão famosa quantos algumas de suas antecessoras, não é imediatamente reconhecida como tal, mas é notada instantaneamente, uma vez que traz em si a aura de celebridade. Seu porte, movimentos e postura têm algo de real, nobre, monárquico.
Quem está nas cercanias da sua ilustre passagem logo percebe o invisível tapete vermelho sob seus pés delicados. Algumas pessoas, mais recatadadas, até tentam disfarçar, fingir que não estão olhando, em oposição àqueles que logo diexam o queixo cair e a boca se abrir e rolar pelo chão num sorriso imenso, quiçá inédito. Mas, mesmo os mais reservados, logo se traem com uma viradinha de cabeça, uma espichada de olhos em direção aquele ícone de beleza que nasceu para ser admirado, simplesmente, sem explicações, sem palavras, sem comentários.
Praia da Solidão, Florianópolis, Santa Catarina. A única solidão que via-se naquela paisagem exuberante era a da própria Miss, mirada pelos olhares profissionais do produtor de moda e do maquiador, pelas lentes do fotógrafo e pelos olhos brilhantes de um séquito de pessoas que iam se juntando pelo caminho, dos 8 aos 80 anos, riscando seus pés na areia, tropeçando aqui e ali, fascinados com aquela imagem alheia a tudo, sempre sorrindo, sempre encantando, bela até mesmo quando nuvens pesadas de ciúme insistiam em esconder o sol. A medida que ela se encaminhava para um novo cenário, uma outra pose e produção de trajes de banho, mais pessoas juntavam-se ao grupo, subindo nas belas pedras que emolduram à beira-mar daquele recanto.
É uma mistura de vida real com irreal, de teatro com realidade, de cinema com os bastidores do próprio, uma coisa que parece ser outra. É disconcertante e, ao mesmo tempo, simples e
singelo, porque ao conversar com a Miss o que se percebe é uma mulher de 19 anos, simples, educadíssima e, sobretudo, muito profissional em seus compromissos. Ultrapassar essas
barreiras todas e encontrar a pessoa por baixo da faixa de Miss exige o mesmo esforço que parar diante de uma esfinge e sobreviver ao seu misterioso encanto.
Postado por André Martins às 6:34 PM 0 comentários Links para esta postagem
Bra X Sil
Fim do Hino Nacional Brasileiro. O povo ovaciona os jogadores e a si mesmo depois de acertar em cheio só no refrão da letra. O Maracanã reformado está impacientemente patriótico. O Pátria amada, Brasil não foi um grand finale, mas um prelúdio esperançoso. O maior jogo da história do futebol e do Brasil vai começar. O destino da Nação está em nossos pés.
Um minuto de silêncio em memória de Tancredo Neves, que amarelou e bateu com a alcatra na terra ingrata antes da partida. Arrnaldo Cézar Coelho apita, para desespero de Galvão Bueno. É dado o pontapé inicial, ou melhor, inaugural.
Pelé passa para Ronaldo, que lança Garrincha, que sai driblando até quem está no banco de reservas da história e também os titulares Getúlio, JK, Jânio, Jango, mas Costa e Silva entra duríssimo no lance e decreta o AI-5.
Confusão total, empurra-empurra, bofetões. João Saldanha protesta. As Forças Armadas entram em campo e encostam todo mundo na parede. João Saldanha é acusado de ser comunista e é expulso. Zagalo entra no lugar dele. A turma vai ter de engolir. Denúncias de que os militares estariam torturando pessoas nos porões do Maracanã. Mas o jogo continua.
Zé Sarney assume o controle da bola, mas resolve declamar poemas. Só a Academia Brasileira de Letras suporta. O povo quer milagres, não marimbondos de fogo.
Fernando Collor é escalado para o lugar dele como uma grande promessa. Sangue novo no jogo, a galera grita seu nome. Ele quer dar show, joga pra torcida, faz gestos ensaiados. Mas de repente faz uma jogada desleal, contra o patrimônio, gol contra. A torcida dá-lhe o cartão vermelho do impeachment. Fernando Collor está fora de jogo por oito anos, mas diz que vai voltar.
Itamar é a bola da vez. Ele tem topete, vai pra cima do adversário, mas confunde driblar com blefar e futebol com circo. É desarmado. Fernando Henrique retoma a bola, sob os apupos das sociais, que apostam no seu estilo de jogo. Fernando Henrique é fominha como todo intelectual. Faz pose, discursa com a bola e não quer passá-la para ninguém. Muito menos para o inculto Lula, que sai da esquerda e cai pela direita pra ver se agrada a torcida. Até que agrada, mas não joga nada. Lula chora e fica sozinho na direita, dizendo-se traído pelos corinthianos.
A bola agora está com o capitão Carlos Alberto, que passa para Nilton Santos, que lança Pelé, mas eis que Médici entra pesado como um urutu invocando a Segurança Nacional. Figueiredo vem atrás, a cavalo, distribuindo coturnadas.
Mais confusão. Parece campeonato gaúcho. Ânimos acirrados. Geisel chega com a turma do deixa disso, abrindo espaço pra todo mundo respirar, mesmo que para isso tenha que esmagar um ou outro. O clima melhora. Fala-se até em anistia ampla, geral e irrestrita de cartões amarelos e vermelhos e eleição direta para presidente do clube.
A bola está rolando de novo, nos pés de Pelé. E ele tem espaço. E tem Romário, Ronaldo e Ronaldinho se movimentando. A jogada está se armando, o futebol arte renascendo, o gol sendo desenhando pelos pés de artistas geniais. Getúlio percebe o perigo e, no círculo central, diante do Maracanã lotado, saca um revólver e dá um tiro no peito.
Fim de jogo. O Brasil não consegue vencer a si mesmo.
Postado por André Martins às 6:33 PM 0 comentários Links para esta postagem
Cerveja e cigarro
Copo de cerveja e um cigarro depositado no cinzeiro estão sobre a mesa de um bar e passam a discutir sobre as suas qualidades e defeitos.
Cerveja: Pô, tubo niticotinoso, tu não te manca mesmo, né? Que fedor, hein? Sai pra lá.
Cigarro: Qual é? E tu, loira aliciadora de bebuns. Te manca, perua!
Cerveja: Perua, eu? Quer saber? Eu alegro as pessoas, faço-as felizes e estou sempre lá, estimulando a alegria e a comemoração. Tu morre é de inveja, seu cancerígeno.
Cigarro: Alegra as pessoas, sei. Faz é elas encherem a cara, brigarem, dirigirem cheias de ti e matando-se uns aos outros nas estradas, no Natal, nossa, que horror, se eu fosse tu...
Cerveja: Cala essa boca maldita e fedorenta! Não tenho nada a ver com isso. São pessoas com problemas, que não sabem me usar devidamente, precisam ser tratadas.
Cigarro: Ah! Loira, perua e, ainda por cima, hipócrita.
Cerveja: E tu, que não poupa nem os fetos. Nossa...
Cigarro: Ah, é! E tu, não! E a cirrose, desgraçada.
Cerveja: Tu tá nas últimas, olha só.
Cigarro: Um mero resto de cevada.
Neste momento, duas mãos entram em cena. Uma pega o copo e bebe-o até o fim. A outra, dá uma última tragada e amassa a bitoca do cigarro no cinzeiro.
Entra letreiro.
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Che Guevara em 5X sem juros
Já ouvira falar que existe uma camiseta com a estampa do Che Guevara sendo vendida em uma grande rede de lojas de vestuário. Mas até então não tinha dado de cara com a famosa imagem criada pelo fotógrafo Korda - que não ganhou um vintém pelo clic, é o que dizem, mas virou referência do realismo socialista latino, se é que isso existe. E acabei descobrindo, em rápida visita ao Google, que Che já foi tão usado pra vender produtos que circulou pelos meios acadêmicos uma tese intitulada “Compre o detergente Che Guevara”. Amiga me confessou que, em um hotel, já se viu enrolada em uma toalha de banho com a estampa do próprio, uma toalha extremamente felpuda e macia. Disse ter sido um dos momentos mais eróticos de sua vida.
É definitivo. Che já foi engolido e deglutido pelo “sistema” - só uso essa palavra assim, entre aspas. Não havia motivo para surpresa. Não havia mesmo.
Esqueceram de avisar as minhas vísceras. Lá ia eu entre as araras do grande magazine, procurando básicas camisetas para compor meu guarda-roupa idem, quando vi Che Guevara em 5X sem juros. No cartão.
Parágrafo. Nova linha. Em primeiríssimo plano, o rosto com o olhar messiânico. Ao fundo, a foice e o martelo outrora diabólicos. Uma imagem montada em segundos em um personal computer movido a Windows, cria do revolucionário comedor de hambúrgueres, que engordou fazendo uma revolução tecnológica, bem mais lucrativa do que a política e social.
E por que o Che? Por que não Marx, Lênin, Stalin, Trotsky? Não, esses aí não têm o menor apelo comercial. Cheiram a mofo, têm imagem ranzinza, são os comunistas do mau. Che é do bem. Che traz em si a centelha do pop. Suas palavras comporiam ótimos raps, com ritmo e poesia de guerrilha inofensiva, de festim. Letras agressivas e humanistas encerradas num layout latino. É tudo o que o mercado quer. Che daria um bom Marcelo D2, mais ofensivo, digamos, perto da panacéia ultrassônica do sambista-rapper brasileiro. E Che, pelo que sabemos, não fazia apologia do hemp, só dos charutos cubanos, embora estampasse um layout de maconheiro.
Imaginemos, num exercício de ficção desmedida, que o revolucionário renasça tal e qual Cristo e entre no shopping pra saber do que se trata aquela selva bem diferente de Sierra Maestra. Tipo aquele filme Jesus em Montreal, do tal Denys Arcand, o do Declínio do Império Americano e das Invasões Bárbaras. Alguém viu? Pois é. Seria uma tragédia. Bem ao gosto de um argentino. Melhor deixar o Che morto e enterrado, mandando bem no ponto de venda, para alegria da nossa economia e de cofres bem privados.
É por essas e outras que o tal do capitalismo está uns 2000 anos luz na frente do lado derrotado da guerra fria. Enquanto esses boicotam a Coca-Cola no Forum Ssocial Mundial, os vencedores da batalha ideológica botam os ícones dos antigos adversários para engordar suas mais-valias. Como gesto revolucionário, deixar de beber Coca-cola tem o mesmo efeito que um soco na parede ou uma cusparada para o alto e para cima. Como marketing, botar o Che pra vender é uma estratégia de vendas que acerta em cheio no gosto do público sem memória, quem dirá história.
Coca-cola do comunismo, como já foi dito por alguém, Che manda bem no ponto de venda. E ponto final. Melhor engolir o espanto tardio e tirar umas férias. E aguardar as novas camisetas dos grandes magazines e seus juros embutidos.
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