28.7.09

15.1.08
Morrer é o fim

A questão dos acidentes no trânsito é um problema com uma causa comum a tantos outros: educação. Educação é um princípio fundamental que foi abandonado por sucessivos governos. Se ainda temos professores em salas de aula isso é obra da obstinação de uns poucos. Por isso, a campanha “Correr é o fim” derrapou na curva, capotou, saiu da estrada e deu de cara com um número recorde de acidentes no exato momento em que largava na pole position da mídia.
É inútil centrar uma campanha na violência quando é sabido que as causas dos acidentes no trânsito são a imprudência, o desrespeito, as más condições das estradas, a imperícia, a embriaguez e o despreparo, entre outras. É inútil até mesmo fazer apenas campanhas publicitárias para um público que não reage às sucessivas mensagens e continua se matando. O que fazer, então?
A resposta não é simples, não está aqui neste texto, mas começa lá atrás. Pela mais pura ganância, as indústrias do petróleo e automobilística desmontaram o sistema ferroviário brasileiro, que funcionava há anos. E bem. O lobby violentíssimo realizado por esses grandes grupos trouxe benefícios evidentes à economia brasileira, que são destacados desde JK. Mas também coleciona prejuízos que nenhuma campanha publicitária filantrópica vai dar jeito e que não sei se alguém já teve a coragem de calcular. Criamos um sistema de transporte que, além de poluente e caro, é palco privilegiado para que nossos cidadãos se matem uns aos outros, porque não estão preparados para andar em fila indiana mantendo um mínimo de racionalidade. Querem chegar cinco minutos antes, querem ultrapassagens de Fórmula 1, querem mostrar que o seu veículo é o mais potente, querem se transformar em super-heróis assim que montam em suas quatro patas. Quer dizer, rodas.
Também parece fácil escrever sobre isso e repetir frases que muita gente já está cansada de dizer, escrever, ouvir, ler, refletir. Mas daqui a pouco as rodovias têm seu fluxo diminuído em razão do fim do período de férias e o tema volta ao esquecimento. Quando chegarmos ao final de 2008, as vagas por novas campanhas serão preenchidas. Já é hábito no mercado. Aproveitando o ensejo, pelo menos uma delas poderia deixar os caminhos já percorridos e bater contra o muro de forma mais contundente. Ao invés de tentar deter os acidentes com mensagens de alerta, faria o caminho contrário, estimulando-os. Estamparia frases do tipo corra para o cemitério mais próximo; ultrapasse o otário que está na sua frente e alcance a morte antes dele; a morte espera por você na próxima curva, pise fundo; 40 mil irão morrer este ano, não seja o último; beba todas que hoje a festa é no seu velório.
É a estratégia de marketing mais apropriada para agir em tempos de guerra, sem ajuda dos vietcongues e sem o patrocínio de grandes marcas.
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13.1.08



Redaçao

A lingua portuguesa me faz penar desde o primeiro professor da materia. A figura era um calvo, magro e baixinho que se identificava por diminutivo e tinha odor de chumbo em papel jornal, aroma que hoje so existe na minha memoria olfativa e nos raros ambientes onde ainda sao confeccionados os cliches.
Ele era um leitor voraz e mantinha aquele olhar de leitor voraz. Dava a entender que estava muito acima da infante patuleia. A calvicie era prova de ceticismo. Talvez intuisse que muitos de nos seriam futuros leitores da fantastica literatura de auto-ajuda, que entope as prateleiras da livrarias e bate todos os recordes em feiras e bienais. Ou coisa pior: trocariamos um bom livro pelas ultimas fofocas da imprensa, cada vez mais de variedades. O franzinismo seria um contraponto a importancia de sua missao naquela simples sala de aula: nos fazer entender toda profundidade do saber que a gramatica oculta.
O homem aterrorizava com seus sujeitos, verbos, predicados, pronomes e as exceçoes inexplicaveis. Certa ocasiao, lançou uma de suas tantas frases de efeito ao afirmar que era soberbo empregar uma mesoclise. Foi quando decidi jamais me meter no mundo da escrita, a nao ser forçado. Na hora de narrar minhas ultimas ferias, tinha certeza de que seria atacado por um sujeito oculto ou levaria um objeto direto na cabeça.
Quando chegamos ao assunto das oraçoes e suas classificaçoes ao mesmo tempo insubordinadas e adversativas, entrei em recuperaçao. E em crise. Os livros consultados nao eram prova suficiente de que eu precisasse daquele emaranhado de conexoes sem fim para aprender a falar, ler, escrever e interpretar um texto. Definitivamente, o homem diante do quadro negro assumia contornos de pesadelo. Tive de recorrer a um professor auxiliar, que nao mantinha a postura e o semblante de um nazista franzino, me fez pasar de ano, esquecer o assunto e todo o resto.
Hoje, quando as sumidades da lingua debatem o sexo dos anjos da unificaçao e se manifestam preocupadas com a escrita na internet, minha memoria olfativa capta o cheiro de chumbo no ar. A imagem de um homem calvo, magro e baixinho ressurge. Aula de redaçao. O tema redigido a giz no quadro: a importancia da acentuaçao grafica para a lingua portuguesa. Abaixo a cabeça e escrevo sem temer nenhuma das ameaças que rondaram as minhas velhas sabatinas de portugues. E entrego-lhe esse texto que voce acaba de ler.
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Porto Alegre é minha praia

O Cara foi entrando na sala da criação, falando muito alto como sempre, instaurando um clima de pré-pânico diluviano. Apontou para um dos seus súditos e foi logo dizendo "abre aquele arquivo daquela campanha, aquela, aquela sobre Porto Alegre, vou mostrar pra vocês que a minha grande idéia".
O súdito abriu uma infinidade de pastas até chegar a um arquivo que os detalhes denunciavam ter sido acessado pela última vez há dois anos. Clicou. A ampulheta antecipava arquivo pesado. Em Corel, num PC com Windows 95 pirateado. Boom, o outdoor na tela. Silêncio, mas silêncio represado.
O Cara fitava a todos. De repente, a pólvora acende e começam a explodir as bombinhas dos risos presos e os rojões das gargalhadas fáceis. O Cara fica furioso e sai lacrando portas, desce a escada fazendo-a balançar como uma pinguela desmilinguida, prestes a cair. E some. Qual o motivo de tanta raiva? Está na tela do computador. Um outdoor com O Laçador de bermudão e uma prancha de surf embaixo do braço. Outro, de sunga. Outro, raquetes de frescobol. O título era o mesmo, em todas as peças: Porto Alegre é a minha praia.
O Cara era o dono onipotente, o diretor de criação onipresente, o Deus da agência. E tomou a reação dos seus como heresia. Os súditos estavam com os dias infelizes contados e as cabeças risonhas a prêmio. Sem entrar no mérito criativo da idéia e nem especular sobre a questão trabalhista que poderia advir do incidente, Porto Alegre no verão é mesmo uma das 117 maravilhas do mundo.
Vejamos. O trânsito recua para antes do inchaço automotivo, com a vantagem de que as grandes avenidas que nasceram por causa dele não o acompanham como se fossem tsunamis de concreto. Pelo contrário, dão contornos de Brasília.
No verão, é possível andar com facilidade e admirar a arquitetura escondida como um sujeito oculto, nos bairros, no centro. Dá até pra cruzar com o fantasma que sempre foi Mário Quintana perambulando por um dos mais belos pedaços do mapa da cidade, aquele que vai do Hotel Majestic ao prédio do jornal da Companhia Caldas Junior, indo pedir um vale para obter mais combustível para as suas líricas sandices. Vez ou outra, cruza-se também com João Gilberto Noll caminhando interminavelmente com os braços cruzados nas costas.
Também é possível ir do Alto da Bronze até a Cidade Baixa e, ao cair da tarde, fazer uma parada no Fofa para sorver uma Norteña ao som dos impropérios verborrágicos do Acosta, com
apartes delicadíssimos do Dario, isso sem falar do seu famoso Filé a alho e óleo, recomendado pelo Osterman. É o lado carioca da capital dos gaúchos.
E olha só: a marcante beleza feminina da cidade não é totalmente arrastada em ondas para o litoral. Permanecem por aqui mulheres que podem ser avistadas pelos shoppings, ruas, bares, mais nítidas, menos disputadas, não menos belas. É uma característica muito nossa, que todos querem. Mulheres como as daqui, só aqui. Que nem a Polar.
Outra das 117 maravilhas de Porto Alegre no verão é que a população canina é consideravelmente reduzida, indo boa parte dela fazer seus cocôs nas praias, arrastando consigo os ganidos histéricos dos poodles, os latidos robustos dos cockers e pastores alemães e as mandíbulas assassinas dos pitbulls.
As filas diminuem, os cinemas transformam-se em salas habitáveis, os museus ficam mais refrescantes, as praças mais felizes, o brique mais caminhável, os parques nem tão cheios de gente, o Gazômetro mais festivo, até o vergonhoso muro da Mauá fica bonito no verão, meio berlinense. É também nesta época do ano que podemos espiar a nossa culpa com mais sinceridade: a poluição do Dilúvio e do Guaíba, fruto dos pecados do subdesenvolvimento de uma metrópole que quer dar descarga no sub. É a nossa ânsia de ser São Paulo, deixando odoríficos vestígios.
No verão, os caminhos são tantos quanto as descobertas. Se os catarinenses nos perdoassem, poderíamos até afirmar que Porto Alegre tem tantos recantos quanto a Ilha de Santa Catarina, só que sem o Oceano Atlântico por perto. É a nossa aceitação da mineirice.
Apesar dos contornos desérticos já citados, Porto Alegre ganha no verão elementos cosmopolitas, com a chegada da turba insandecida do Forum Social Mundial. Ou ganhava. Porque os organizadores do evento estão ameaçando bater em retirada. Está na hora do senhor prefeito mostrar que Porto Alegre é (mesmo) demais e convencê-los do contrário.
O Cara, aquele, o dono onipotente, o diretor de criação onipresente, o Deus da agência, certamente vai tentar aprovar de novo aquela idéia com eles: Porto Alegre is my beach, ele vai dizer aos caras.
Não sei, não. O Paixão Cortes é todo cortez, mas faca na bota. O Laçador de bermudão até passa, mas de sunga...
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A loira do T5

Pra quem não conhece Porto Alegre ou não usa o transporte coletivo da cidade, cabe uma introdução à guisa de prefácio: T5 é uma linha de ônibus da empresa Carris, centenária e premiadíssima prestadora de serviços no segmento. No T5, tudo só não é perfeito porque perfeição não existe, mas os veíuclos são bem pensados, com espaços para grávidas, deficientes, idosos e alguns sem vergonhas que ocupam lugares indevidamente. O ambiente é limpo, a temperatura controlada. Os motoristas são educados, atentos e tranqüilos. Os cobradores, solícitos, bem humorados e cultos. Há até leitores de Dostoievski entre eles. Aliás, entre os passageiros também há muitos leitores e não só do Diário Gaúcho - pra quem não é do Rio Grande do Sul, cabe informar que este é um jornal de característica “popular”. O cidadão que utiliza a linha, por mais humilde que seja, dentro do T5 se sente um cidadão de verdade. A loira é o detalhe que transforma o serviço da Carris num exemplo para o mundo.
A Loira do T5 não é fatal nem vulgar ou opulenta a ponto de causar transtornos sensoriais por onde passe. É dourada na medida certa e demonstra certo pudor na vestimenta, mesmo no mais escaldante verão porto-alegrense. Não a vemos exibindo seios explosivos ou barriguinhas demasiadamente nuas. A composição de quantidade entre tecido e pele é perfeita. Há o suficiente para ressaltar um e outro.
Quando ela sobe pela porta da frente, o ônibus continua seu trajeto normalmente e ninguém a observa desavergonhadamente ou sofre uma acesso súbito de desejo incontrolável. Ela parece ter um repelente natural a esse tipo de assédio, coibindo-o com altivez e superioridade.
O rosto é emoldurado por suaves fios loiros, é exato. Da medida da testa ao olhar discreto, do nariz bem desenhado a boca que guarda os sorrisos largos para outros momentos. Aliás, o sorriso da Loira do T5. É o de uma Monalisa. Mostra-se sutilmente por trás de uma sobriedade maliciosa. O pescoço é longo, bem desenhado e firme.
Em sua pele, mesmo sem ser tocada, brilha a macia textura dos pêssegos maduros. É de dar arrepios e de desejar vê-los percorrer aquele terreno tão suave. O busto, instalado entre omoplatas largos e bem constituídos, repousa seios rijos com a candura necessária que a maciez do seu desenho denuncia. Quase desnecessário afirmar que passam longe dos turbinados que ameaçam explodir quando vamos ao seu encontro.
Sua cintura tem o caimento perfeito, sobre pernas rijas, longas e bem definidas, cobertas muitas vezes por um simples jeans desbotado. As nádegas sentam-se firmemente sobre o banco do ônibus e alicerçam uma postura descansada e ereta. Quando ela parte, até ele (banco) sente saudade.
Os pés, sobre delicadas sandálias, mostram-se com o devido respeito e não pisam o chão. Vão até ele, mesmo serpenteando entre os muitos usuários do T5, nem todos providos da mesma elegância.
Numa cidade como Porto Alegre, onde a beleza feminina é um dos dotes turísticos, a Loira do T5 não passa desapercebida nem se confunde na multidão de beldades do Moinhos de Vento - para quem não é de Porto Alegre, cabe informar novamente que neste bairro é possível tropeçar em belas mulheres não por falta de educação, mas porque existem numa abundância pertubadora, tanto que este é o bairro que mais sedia agências de modelos do país.
A Loira do T5 é bela por também ser simples. É simples por exalar uma beleza complexa e refinada. É atraente porque parece fingir que não sabe disso. A Loira do T5 só não é perfeita porque tem de passar pela roleta do ônibus - mesmo dando a impressão de que é a roleta que gira para ela passar - e alcançar ao cobrador uma fichinha de Vale Transporre. A Loira do T5 deveria viver num eterno feriado, sempre com passe livre.
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12.1.08



Livre pensar

Criar é divino. Apresentar ao cliente, diabólico.

Não dá pra não ler um jornal que tem dois nãos no slogan.

Não tem comparação. Uma campanha incomparável.

Kraunus Sang e o maestro Plestkaya são uma das melhores duplas de criação da propaganda. Brasileira.

Se existe a verdadeira maionese, isso quer dizer que as outras são de mentirinha?

Biquíni é uma calcinha que se molha por inteiro.

A alegria é a prova dos nove. A tristeza, um zero à esquerda.

O Brasil é um país feijão com arroz.

Nei Lisboa é um Caetano Veloso com frio.

Lábios gostam de lábios.

É claro que dois corpos ocupam o mesmo lugar no espaço ou nenhum de nós estaria por aqui.

Pelé mesmo foi o Garrincha, a estrela solitária. Mas Pelé sempre esteve acompanhado de uma boa estratégia de marketing.

A doutrina comunista é a prova teológica de que os ateus morrem de inveja da Igreja Católica e de Deus.

Se você ler Roberto Piva não vai mais saber o que é uma bicha.

A noite de Porto Alegre se divide entre a Calçada da Fama que vira pó e a Calçada do Fumo que vira fumaça.

Juremir Machado da Silva é o nosso Diogo Mainardi de Santana do Livramento. Diogo Mainaradi é a nossa conexão com Paulo Francis. Paulo Francis mesmo, esse já era.

No Brasil, ao escrever algo em inglês, esse algo ganha um valor agregado instantâneo. Nos EUA, ao escrever em português, você é levado até a polícia.

A risada dela vinha do ventre.

Ela tinha umas coxas-tronco-de-amarrar-escravos.

Machista é eufemismo pra tarado. Feminista é metáfora de revanche.

Quanto mais conheço as pessoas, mais admiro as que mantém certa distância.

Anagrama: Ana, de todos os jeitos, na cama.

Surto: uma palavra atrás da outra, como numa corrida de cavalos.

A maturidade é o sarcasmo.

Faça como Deus nas camisetas dos jogadores de futebol: seja fiel.

Como nós nos comemos, com todos os órgãos. É possível comer alguém até com o pâncreas.

Tímido, as mulheres me davam medo. Hoje, me dão.

Se a direita é a guerra, a esquerda é a nóia. Se a esquerda é um atraso, a direita é o museu.

Pelas narinas de Freud. Ela vicia.

Hugo Chavez é a rapa do tacho marxista-leninista.

Tem intelectual que cheira a intelectuai.

Uma das boas coisas de escrever é que é um gesto portátil. Você pode levar para onde quiser e cometer as maiores barbaridades em qualquer lugar, até mesmo em público.

Em quase todo lugar que vou, tem alguém falando em outro país. Inglaterra no topo. Fidel Castro é ter um trabalhão aqui no Brasil.

Detesto caça. Prefiro a pesca.

Refrigério: sob 40 graus, uma mulher de pele clara e lábios ultravermelhos lambendo sorvete de morango.

Desconfie de um cara que gosta muito de frases. Cedo ou tarde, ele acertará você com uma.

Deviam processar a criatura que colocou o canal urinário dentro da genitália.

A nossa literatura dá a impressão de ser uma tentativa frustrada e incessante de redigir um manual de instruções do ser humano.

Sempre que vou aos pés me dou conta de como as mulheres fariam falta se não existissem.

O PT deixou saudades. Não, saudações.

Nerd é um onanista que tem todas as revistas do mundo ao alcance da mão.

Lula, não capitula, pra que eu te engula.

O otimista vê o sinal sempre verde. O pessimista, vermelho. O sábio, amarelo.

A carne mais barata do mercado é a carne negra. A mais cara, é a siliconada.

Depois de todo avanço da ciência, se ainda continuamos falando em raça é por que somos mesmo racistas.

A estrada dos excessos leva ao palácio da polícia.

A bossa-nova é o prelúdio da ditadura.

O primeiro Valisère a gente nunca consegue desabotoar direito.

A criatividade é prima-irmã da preguiça.

Na intimidade de seus colóquios, as mulheres costumam medir a sua estatura sexual em picas. Os homens, em picadas.

As boas frases não são compreendidas. Uma boa frase serve pra isso.

Ela disse-me assim: sempre que te ver, vou pensar em sexo. Auto-sugestão ou coincidência? Sempre que a vejo, penso o mesmo.

Nós fedemos. Bom título para anúncio de perfume.

Leia Agripino Grieco: http://www.traca.com.br/traca.cgi?mod=livro&codlivro=51493

Até eu comento futebol melhor do que o Casagrande. É só me darem o salário dele.

Galvão Bueno devia ser grife de galocha.

Falcão é o mais inglês dos comentaristas gaúchos de santa catarina.

Está na hora dos heterossexuais saírem do armário.

Não é assim. Nem ao contrário. Quase sempre.

Mamar é tão bom que a gente não enjoa nem arrota mais.

Escrever de ressaca é melhor que Engov.

Uma frase começa com maiúscula e termina num ponto. De fuga.

Tem gente que acha que tirar uma foto é só fazer clic, que escrever é só botar uma palavra atrás da outra e pincelar o quadro é pintar. E é.

Não preste muita atenção no que os outros estão fazendo. Apenas observe.

A angústia é um cachorro que está sempre pressentindo o pior.

O amor é peça de museu.

Na gôndola das paixões, o que importa é pegar e levar.

Tem gente que está sempre empoleirada numa gôndola, à venda.

Dizem que a vida é breve referindo-se a extensão de uma existência. Na verdade, a vida é breve porque restringe-se a momentos, à velocidade de um momento que passa voando e é impossível captar. Entre um momento e outro, só o que há é espera, incerteza e saudade daquilo que vivemos sem entender direito como e porque.

Papel e caneta aos mendigos, aos desvalidos, aos sem-teto, aos mortos de fome. Estômago vazio atiça os sentidos.

Cartola e Adoniran Barbosa, só pra citar dois, valem por toda a Academia Brasileira de Letras Mortas.

Ela tinha tanta pressa em chegar lá que, quando estava dirigindo seu carro, inclinava-se para a frente, como que empurrando o seu 1.0, numa ânsia fisiológica de chegar antes dela mesma.

Ela era à inglesa. Mas tinhas seus dias de latina.

A trilha do programa Provocações, do Abujamra, é nepotismo.

Você passou na velocidade de um instante, com o ímpeto de um trocadilho e a graça perdida de uma frase feita.

Quanto mais me afasto de mim, mais pressinto que vou me encontrar na próxima esquina. Acho que vou me mudar para Brasília.

Com raras exceções ubaldianas.

João Ubaldo Ribeiro conta histórias como quem escreve e escreve como quem sabe deixar as histórias sairem pela boca para a vida.

Um dia eu chego lá onde estou.

Depois do advento do Messenger, o ócio criativo virou ócio fricativo.

O homem pode ir até o fim da via láctea e sempre vai dar de cara com a sua infinita ignorância.

Que petulância a dessa palavra pontiaguda.

Ser lido é como estar nu sem saber que tem alguém olhando.

Tá olhando o quê?

A tristeza é uma morte que ficou pela metade, uma morte que esqueceu de morrer, talvez até uma morte que implorou para morrer e deixar a tristeza viva.

A tristeza é um cabo de vassoura esquecido na área de serviço.

A tristeza é seca, com ou sem lágrimas.

A tristeza é um auto de compadecimento.

É impossível comer UMA só.

A alma do negócio é ser desalmado.

Maravilhas da tecnologia. Já inventaram até uma louça inquebrável para que maridos e mulheres quebrem os pratos e ninguém se machuque. Principalmente, quem gosta de meter a colher onde não é chamado.

Tem gente que assiste a um bom comercial na TV e nem se dá conta de que aquilo é propaganda. Lembra que produto era? Qual a marca? Não. Mas que é legal, é.

Ela desabotoou o corpo, botão por botão. Já a outra preferia ir direto no zíper.

Um homem só está compeltamente derrotado quando não consegue mais desligar os aparelhos que o prendem a uma existência medíocre.

Um homem só está compeltamente derrotado quando não consegue mais desligar a TV.

Um homem só está completamente derrotado quando não consegue achar o controle remoto.

Um homem só está completamente derrotado quando descobre que a pilha do controle remoto acabou.

Se a marca é Cicarelli, isso indica que quem come é o Ronaldo.

As mulheres não são incompreensíveis. Elas só se esforçam para não ser compreendidas. Não muito.

Você pasou voando.

Nunca é o bastante. Quase sempre é muito pouco.

Dizem que a cidade de São Paulo, que antes foi o mundo todo, agora é outro mundo. Tem que tirar passaporte pra entrar lá.

O arroto é uma orgulhosa manifestação da falta de educação.

O peido cheira a deboche.

Não confio nem mais na memória. Anoto tudo. Anotou?

Leveza é vento na saia.

O arrepio é leve e eriçado. E é quente ou gelado?

Escrever para registrar o que está acontecendo, como se vê acontecendo, a realidade caindo como um bombardeio, os fragmentos, os estilhaços. Deve haver algo no meio dos escombros.

Não, escritor não. Poeta, muito menos. Correspondente de guerra.

As mulheres gostam que os homens deixem aflorar delicadeza. Sem exageros.

As mulheres gostam mais dos gays porque elas acham que é mais fácil ganhar um homem estando junto deles do que de outras mulheres.

Algumas idéias tomam forma e viram frases. Algumas frases tomam corpo e viram textos. Há textos que conseguem alfinetar a vida e viram obras. E alguns deles conseguem atingir a estatura de um Poema.

Frases que botei fora, que fugiram, apagaram seus arquivos, perdi, desertaram, não deixaram pistas, esqueci, eu gostaria de encontrá-las de novo, para saber quem eram, como estão, quais foram os seus destinos. Imagina reencontrar uma frase minha que virou pára-choque de caminhão.

Gooooooooooooolllllllllllllllllllllllllllllllllllll, virou pro lado e dormiu.

Picasso e Modigliani se odiavam. Picasso e Modigliani se amavam. No fim da vida, Renoir sorria.

Era uma mulher de uma força de vontade descomunal, dinâmica, incansável, forte, dominadora. Mas quando se entregava era para ser dominada com força, era para ser subjugada, agarrada, judiada, mordida. E seu gozo era um choro condoído, uma ferida constantemente aberta.

Ela aprendeu a mentir desde cedo. Mas as salas de bate-papo na internet, já em idade adulta, foram a sua pós-graduação. Aí ninguém a segurou mais. Virou uma expert da encenação, uma virtuose. Todos acreditavam, ficavam encantados. Mentia a idade, profissão, fatos de sua vida, recentes ou antigos, reminiscências, chegou a criar vários e-mails com perfis e personalidades diferentes para se corresponder com cada um de acordo com um estereótipo. Eram seus heterônimos. E acreditava em todos. Mas sempre escolhia um só, de acordo com a ocasião. Caso fosse necessário, entretanto, podia botar umas pitadas de um naquele que estivesse vestindo no momento. Mas tudo que ela mais desejava era despir-se de todos e se entregar, completamente nua, de corpo, alma e sofrimentos.

Hum-hum, hum-hum, hum-hum. Exatamente. Fizemos assim. Era só o que ela dizia.

Um dia partiu. Ao meio.
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Remoto controle

Há uma fórmula na propaganda para os casos de branco criativo, falta de referência, criatividade ou briefing que não ajuda em nada. É formada por ingredientes que sempre funcionam, se a verba ajudar: mulher pelada, gente famosa e cachorro. Os exemplos estão aí, puxe pela memória. Mulher pelada até o Greenpeace usou, recentemente, em uma de suas ações de guerrilha para a mídia. A boazuda todo mundo viu, o que estava escrito no cartaz que ela erguia com muito charme e elegância, quem lembra?
Propaganda tem muito disso. Usa-se um recurso criativo dos bons, uma idéia do caralho, como se diz, as pessoas comentam, só que no final ninguém sabe que produto ou empresa ou serviço estava sendo anunciado. Vira entretenimento, mas o anunciante não acha nada engraçado.
No caso de gente famosa é a mesma coisa. Lembra-se da última propaganda do Famoso de Tal, mas do que era mesmo? Quando o famoso não é muito promíscuo publicitariamente, a chance de o dinheiro do anunciante não ser jogado fora é muito maior. Quando há fidelidade entre o famoso e a marca, a relação melhora. Mas a fidelidade tem de ser comprada a peso de ouro e, assim com nem todo marido tem a conta bancária do Justus, nem toda empresa é uma Embratel. O caso do cachorro parece pôr abaixo o argumento, basta lembrar do au-au da Cofap. Não é bem assim. O sucesso aí não está só no cachorro, mas também na idéia por trás e nas cabeças que a pensaram. O cachorro foi o brilhante protagonista de uma idéia bem bolada e produzida com esmero. E orçamento à altura.
Estamos citando os cachorros, mas na verdade eles entram nessa fórmula representando todo o reino animal, das formigas aos elefantes. Qualquer bichinho bem domesticado pelos seus tratadores pode servir com muito mais talento a uma causa comercial ou social. Bicho é melhor bicho-propaganda do que gente, a não ser quando o espécime é da mesma raça da Marieva.
Mas o mundo de propaganda é um terreno cheio de controvérsias e paradoxos como outro qualquer. A criatividade é o tempero de tudo, sem ela toda propaganda fica insossa. Entretanto, tem um ingrediente de muitos comerciais que não é citado na receita do sucesso criativo, pois faz parte de outra, bem menos saborosa. Trata-se da mesmice, da ausência de novidade, da repetição, do chavão, da fórmula que não ousa. São os comerciais de margarina, sabão em pó, remédios, shampoos, sabonetes, produtos miraculosos. Parece que você está vendo a mesma coisa há 10, 20, 200 anos. Mas funciona. Muitas vezes muito mais do que o criativo. Felizmente, há casos em que o criativo derruba a mesmice da gôndola e aí empresas e agências de publicidade são obrigadas a se puxar, não só pelos custos, mas por benefícios.
E a mesmice também é o caso da propaganda institucional dos governos. Esses aí dão de 10X0 na concorrência - a saber, nós. Todos os anos, aconteça o que acontecer, o país vai estar cada vez mais mergulhado na miséria, insegurança, falta de saúde, habitação etc, mas a belíssima (e riquíssima) propaganda do governo do momento vai dizer o contrário. É um case top em matéria de propaganda enganosa. Mesmo que pudéssemos trocar de governo como quem muda de canal, não estaríamos livres do espetáculo, porque todos os garotos-propagandas e locutores em off dos comerciais oficiais são obrigados a seguir a fórmula mais antiga de todas: mentir. Essa é a verdade usada desde sempre na política. E que a lei eleitoral, mesmo reformada, não tem condições de controlar nem remotamente.
A propósito: seria possível fazer, na atualidade, algo parecido ao que fez a Vulcabrás fez com o seu 752, sem incorrer em 171?
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Pra jogar pela janela

Aeromoça, a janela tá emperrada.

Fume nuvens. Realidade dá barato, maluco.

Dizem que tudo é matemático e até mesmo cientificamente previsível. Será que somos tão burros que mesmo assim não conseguimos saber nem os números que vão dar na Mega Sena?

Exato. A ciência tem que acreditar que é precisa. Ou não se convenceria disso.

Daqui do alto o mundo é imensamente pequenininho.

Voa, passarinho, voa, que avião não é pro teu bico.

Se o Millôr Fernandes escrevesse isso, iam dizer que é uma frase inteligente.

A mídia jamais vai morrer. Deixaria muita gente sem ter o que falar.

Estou velho. E cada vez mais guri.

A caminho da morte, renovamos o espírito todos os dias.
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Peixes esquisitos

A propaganda não vai a fundo na maioria dos assuntos porque supõe que isso demande muito tempo e não dê dinheiro. Ela é reflexo, é o "brilho" de uma cultura que quer se "espelhar"
no que há de supostamente mais positivo para se vender. E reza a lenda que superficialidade vende mais e melhor. Mergulhar nas profundezas só se for pra ver peixinhos coloridos.
Mas há exceções. Da propaganda da nossa aldeia, há um VT que teve a coragem de mostrar mãe e filha brigando em plena passagem do Dia das Mães. A ousadia de tratar a data com um enfoque a princípio negativo, chamou a atenção, marcou. Até por que, o final era verdadeiramente feliz: por mais que se desentendam, mãe e filha estão unidas por laços que dificilmente se desfazem ao longo da vida. Mas que brigam, brigam. E isso ninguém se atrevia a mostrar.
Parabéns, Lojas Renner.
Na grande propaganda do nosso país teve aquela do "Você precisa rever os seus conceitos".
Entre outras coisas, a campanha mostrava um pai que vai falar com a filha sobre sexo na adolescência e a flagra com uma camisinha, uma mulher que pensa que o marido da amiga é o
motorista por ser negro etc. Era a Fiat dando aula.
Você aí deve ter outros exemplos, mas as exceções só confirmam: a superficialidade borbulhante oculta realidades e impede que se trate o consumidor de acordo com o seu perfil
específico. Mesmo com a posse de dados de pesquisas que mostram as mudanças dos últimos anos, a maioria não vai atrás desse contato porque a busca esbarra em tabus perigosos.
Que eu saiba, um assunto que nunca foi abordado é o dos casamentos que não dão certo, dos casais eternamente separados e dos filhos dessa geração de incompreendidos que não se entendem e vivem pulando de cama, para o espanto sofrido e algo engraçado dos filhos e o pavor moralista dos carolas.
Até hoje, nos comerciais de margarina, lá estão todos eles reunidos, como se assim vivesse a maioria. Pais e mães, avôs e avós, filhos, sobrinhos e netos, cães e gatos. Como bem
sabemos, esse é um perfil de família da era das cavernas. E nem vamos citar Nelson Rodrigues, que já mostrou o que temos de igreja e de bordel há muitos anos.
Por falar nisso, a propaganda parece ser uma Igreja Católica que aceita a pílula e o DIU porque eles vendem bem e investe fortemente na camisinha como recurso litúrgico. Tirando a
gozação, é visível que a propaganda dedica-se, pelo menos em seus estames mais profissionais, a identificar perfis e perseguir consumidores com produtos redimensionados,
mas não tem interesse que a verdade mínima dos fatos apareça na tela. A realidade ainda está só aqui, permeando as nossas histórias, não mergulha nos intervalos comerciais.
Na novela, tudo bem. Aos poucos, o padrão novelesco brasileiro percebeu que incluir temas polêmicos pasteurizados aumenta a audiência, ou seja, as vendas. Então, dê-lhe casais gays, drogados irrecuperáveis, maridos violentos, mulheres perversas etc. Mas corta pro break e não se vê nada disso.
Por exemplo: um casal separado que se vê morando em cidades diferentes. A filha deve ficar com um deles e fica com a mãe. O pai, repentinamente, perde a convivência diária, a das
pequenas coisas que montam a colcha de retalhos da vida.
Um dia, esse pai está passeando por uma exposição aquática e, inadvertidamente, ouve uma criança fazer várias perguntas ao seu pai respectivo, bem ali ao lado: Pai, como é que peixe
respira? Se a gente vivesse no fundo do mar nós seríamos coloridos e esquisitos como eles?
Pai, peixe tem raça? Por que a baleia não afunda se ela é tão pesada? É sempre noite no fundo do mar? Peixe tem sede? Como é que peixe não morre afogado? Pai, eu vou pedir um
aquário pro Papai Noel. Será que ele já traz com a água dentro? E a água do aquário também é salgada? Peixe come bolacha? Aquele ali não parece a vovó?
Pois é. Profundidade é a pele.
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Panelinhas, puxadores e marketing pessoal

No tempo em que as avós, as mães e as tias costuravam, a gaveta da máquina de costurar era um celeiro de craques de futebol de mesa. Ocupando a posição de detalhe no prêt à porter doméstico, alguns botões viravam robustos zagueirões dourados, côncavos laterais que escorregavam rápido para o ataque, habilidosos meio-campistas em cores sóbrias, atacantes prateados infalíveis no arremate final.
Depois a indústria descobriu o filão e entraram em cena os panelinhas, botões industrializados que já vinham com o distintivo do time e o número da camiseta. Para a gurizada, os panelinhas passaram a ser a escolinha do futebol de mesa: posicionar, passar, driblar, chutar, chutar com efeito, fazer e gritar gooooooooooool.
Na idade adulta - dos 7 aos 9, mais ou menos -, a gurizada ia experimentar as estrelas dos gramados de eucatex ou de madeira mesmo, os puxadores. E aí era preciso amadurecer, porque os puxadores exigiam muito mais habilidade e, no futebol de mesa, o cara que segura a palheta é o técnico e jogador, ao mesmo tempo.
Sem nunca ter jogado futebol profissional, talvez nem o de mesa, o cara que segura a palheta da seleção brasileira é um maneta. Carlos Alberto Parreira tem em mãos alguns dos melhores puxadores do mundo e os faz jogar como se fossem panelinhas. Carlos Alberto Parreira é o que, no meu tempo de guri, se chamava de balaqueiro. O cara que bota banca, que até no movimento da sobrancelha dá a entender que sabe mais do que nós, mas não vai contar de jeito nenhum.
Parreira arma um esquema fechado e feio, sem o tradicional jogo pelas pontas, coisas que qualquer guri aplica nas peladas ou nos estratégicos e emotivos campeonatos de botão. Tudo em busca do resultado que nem sempre vem.
E o pior: quando é chamado a intervir, quando a nossa seleção de puxadores está perdendo ou encontrando muita dificuldade para ganhar, Parreira faz alterações que nada alteram, que até o Galvão Bueno e o Casagrande não gostam. Não raro, Parreira retira a capacidade de organização e de ataque no momento em que o time mais precisa.
Isso quando ele não deleta o melhor puxador do mundo, o Ronaldinho Gaúcho, e o futuro melhor puxador do mundo, o Kaká. Quanto ao puxador Robinho, ele dá a entender que deseja sepultar a malemolência do crioulo na centrípeta função de Zinho Enceradeira.
Por falar nele, é sempre bom lembrar que Parreira é campeão do mundo, sim. Graças ao jogador-técnico Dunga e ao puxador baixinho Romário, auxiliado pela genorosa cristandade do Bebeto.
Parreira chegou a esse nível investindo, em primeiríssimo lugar, no duplo sentido da palavra panelinha, desde os tempos da CBD. Depois, veio o a formatação da imagem de técnico com diferencial: estudo, conhecimento técnico, comentários neutros, um semblante de intelectual do esporte bretão e o hobby da pintura, uma espécie de folha seca do seu marketing pessoal.
Tudo bem, é uma estratégia de sucesso. Pessoal. Mas futebol é conjunto e eu eu não sei não. Se o Brasil ganhou da Argentina – este texto foi escrito antes do jogo -, foi porque os nossos puxadores se puxaram mesmo e deixaram de lado o homem que segura a palheta da seleção brasileira e ocupa o privilegiado lugar de torcedor mais bem pago do mundo.
Postado por André Martins às 10:02 PM 0 comentários Links para esta postagem



O que você veio fazer aqui que não podia ser feito lá no lugar de onde você veio?

Tenho comigo uma pergunta daquelas que não quer calar. Agora que espoucaram os boatos sobre as malufadas no Forum Social Mundial, vou soltá-la que nem pipa, pandorga, papagaio. Trata-se de uma pergunta dirigida aos participantes do FSM, deixando de lado aqueles que são locais. A pergunta é essa que está no título do texto que vos fala.
É claro que qualquer participante do FSM que ler essa pergunta vai encará-la como fruto de uma mente reacionária e vai dar de ombros. Lodoso engano. Acontece que a magnitude do evento tem chamado a atenção do mundo inteiro, catapultando Porto Alegre à condição de capital da esquerda na América Latina ou algo do gênero, recheando o ego maltratado dos gaúchos, pelo menos os que se consideram mais progressistas. Mas já que não somos mais crianças nem tão bairristas assim, vamos por partes. Que resultados práticos têm deixado tantos embates ideológicos? Um mundaréu de gente do planeta inteiro se lança pra cá com as despesas pagar por nós, senta, conversa, discute, pensa, repensa, passeia, namora, come, bebe, fuma, gasta, deita, dorme, pira, ouve, fala e vai embora. O que fica? Muito dinheiro circulando e um patrimônio quase infinito de histórias pessoais, entre eles muitos namoros e casamentos? Era de se esperar que tantos encontros e despedidas resultassem em ações que nos mostrassem o caminho para aquele outro mundo que é posível e não apenas para o livro de Thomas Morus. Senão, o FSM vai se tornar um evento turístico-cultural, lotando os cofres da cidade de alguns milhares de dólares. Algo como o carnaval no Rio e em Salvador.
Outro dia, um amigo perguntou-me pra que serviam os intelectuais. Eu, que não tenho muitas respostas, respondi que não sabia, mas devolvi que alguns pensadores servem pra fazer a gente pensar. O que já é um serviço de uma utilidade pública considerável. Mas a intelectualidade e o ativismo constante parecem ser uma incógnita. Assim como o vício da direita é o assistencialismo, a guerra e a hipocrisia social, a esquerda tem manifestado uma dependência química do reunismo e da discussão, mesmo que, muitas vezes, ela leve apenas a um olho roxo, a uma infecção na garganta, a um porre coletivo ou a uma noite de amor vulgar.
O FSM tornou-se o auge desse vício, o pico. Entretanto, agora que surgiram os boatos sobre malversação de fundos - sempre quis usar essa expressão num texto, mesmo correndo o risco do erro -, a pergunta que não queria calar está clamando por uma resposta. Aos berros.
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O elogio da loucura

Devemos levantar as bundas das cadeiras e arremessar uma mão espalmada contra a outra, repetidamente, e produzir o som do nosso reconhecimento: a campanha publicitária da Feira do Livro de Porto Alegre é um elogio da loucura, a loucura da leitura.
Viva o Livro é um enfoque óbvio, até sóbrio, com um pé no panfleto, mas apresentado de uma forma não só inusitada como belíssima – nada a ver com a novela de mesmo nome -, o que deve ser saudado pelo impacto impressionante que provoca, pela sedutora expressividade, pela magia da capacidade ilustrativa de um mundo que só existe em nossas mentes. Mesmo que alguns dos títulos mais vendidos sejam obras de auto-ajuda para quem os escreveu, o que vale, no final das contas, é o contato com o mundo das palavras que se juntam e formam frases, parágrafos, idéias e imagens.
Outras campanhas da Feira já cumpriram seu papel de forma adequada, mas acredito que essa o faz de forma única, impecável, mantendo-se fiel aos elementos do assunto e alcançando um resultado estupendo, partindo dos alicerces de um bom briefing para o topo de uma criação iluminada. A imagem dos personagens coloridos saindo de uma cabeça em preto e branco vai ficar para sempre.
Aliás, a campanha é também pertinente ao próprio espírito da Feira, que é um abraço carinhoso na saudável insanidade humana de transcender, transmutar, entrar em transe. Sob a frondosa flora da Praça da Alfândega, seres de todas as idades, cores e tamanhos formam uma fauna tão heterogênea quanto os títulos que se esparramam pelas bancas, numa diversidade cultural que já é marca registrada de Porto Alegre. Além disso, não devemos esquecer que grande parte do público da Feira do Livro mal consegue ver os livros sobre o balcão dos estandes porque sua estatura é mirim, muitos ainda em fraldas. E essa campanha é uma das poucas que fala com eles na língua que eles gostam de ouvir/ver, uma língua divertida, colorida e louca.
Elogiar a loucura é um ato de sanidade. Nascemos com ela, mas lemos em algum lugar que devemos desistir dela e nos resignamos. No entanto, secretamente quase todos sabemos que só a loucura nos permite abandonar a condição de mamíferos bípedes condenados à morte. Só a loucura nos permite sonhar acordados, entre os colchões, lençóis e travesseiros da dura realidade. Em sã consciência, a maioria de nós opta pela rotina, pela sucessão de acontecimentos enfadonhos, não arrisca nem petisca. Já a literatura conspira contra o status quo da nossa estabilidade, nos provoca, nos dá asas, nos remete para as profundezas em mergulhos assustadores, nos põe no mar das incertezas, dilemas e incógnitas do (nosso) (des)conhecimento.
Elogiar a loucura é uma das formas de se alimentar com o feijão com arroz do nosso perplexo percurso sobre esse mundo sabidamente injusto. É uma jeito de buscar, compreender, reagir civilizadamente.
Elogiar a loucura é elogiar os leitores, seres que se acostumam a voltar àquela sala (de espera) da leitura (e da infância), prontos para uma abdução. Leitores são animais que tratam a racionalidade com distanciamento. Tanto o livro nos informa e seduz como nos provoca a viver acontecimentos que jamais viveríamos fora dele. Por exemplo: quem criaria um romance baseado na idéia de que precisamos da morte para viver? Um louco, é claro. Um louco com nome de: Saramago. Leia-o. E morra de rir.
Com algum esforço, não raro o cinema consegue o mesmo efeito, mas precisa colocar em ação milhões de dólares, centenas de milhares de técnicos e atores, megaestúdios para efeitos especiais à cata de bilheterias milionárias. A literatura só precisa de talento, um bom editor e loucos a fim de apreciá-la. Todos de pé, por favor. Viva a criatividade viva! Viva a loucura da leitura!
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Geraldine

Ela perambula pelas ruas do bairro boêmio parecendo ter sido recortada de outro mundo. De imagem franzina e cortante como uma agulha, olhar miúdo e sem brilho, ainda por cima é idêntica a uma das obras de carne e osso de Charlie Chaplin: sua filha Geraldine.
Mestre em fazer rir e chorar ao mesmo tempo, Carlitos teria alguma coisa a ver com a nada infantil existência daquela figura solitária?
O certo é que parece um pedaço de negativo que foi cortado pela fria tesoura do montador. É como se saísse da tela para a vida real conservando a virtualidade da película e a expressividade única do cinema antes de adquirir o direito à fala.
O seu olhar dói. A solidão é circense, mas sem palhaçadas, tombos, muito menos gargalhadas. É saltimbanca, mas está sempre no mesmo lugar. Como num picadeiro, sua vida é em círculos.
Circula por aquelas ruas, por entre as pessoas, oferecendo flores aos casais. Há pelos menos 10 anos está por ali, mas não é possível precisar sua idade nem se pode dizer que foi ou é uma criança ou que um dia irá se tornar uma mulher adulta.
Seus passos são tímidos. O corpo magro pende para frente, colocando a cabeça numa posição sem firmeza. O único horizonte que vislumbra é o do cenário da cidade aos pés do morro que desce de ônibus para cumprir sua sina. Os braços finos seguram as flores sem vigor. O abandono é evidente. Ela não é obra do amor. Seu criador não se deteve em carinhos. É cria de um momento qualquer.
Mas nem tudo é verdade. Ou então a verdade é essa lâmina afiada que cria um rasgo de surpresa em nossa visão. Àqueles que julgam impossível observá-la a salvo, por verem-na carregar significados e não apenas flores e lágrimas secas, ela devolve a existência luminosa de um súbito sorriso, revelando-se na câmara escura da cumplicidade instantânea.
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Fumantes e não fumantes

Em plena apresentação da campanha, o cliente interrompeu o curso dos argumentos do diretor de criação com uma frase que ficou pendurada no ar como um móbile. Eu gostei mais da campanha da Tramontina, aquela que é só Tramontina com um produto no lugar de uma letra.
O diretor de criação da agência conteve o ímpeto como quem dá uma tragada forte e prende. Saltar no pescoço do cliente não seria homicídio qualificado, mas suicídio intempestivo, sem planejamento, um gesto agressivo que precisava ser domado. Passou, então, a elogiar a campanha da Tramontina, como quem solta uma deliciosa baforada.
É realmente uma boa idéia. Não é originalíssima, mas é boa, muito boa mesmo, chego a dizer esplêndida – a palavra estalou no ar como dois pratos de banda marcial. A Tramontina e a agência dela estão de parabéns. Mas o produto da Tramontina e o seu público são completamente distintos do que estamos tratando aqui. E continuou falando, com eloquência, desenvoltura e muita calma, escolhendo as palavras para que nem um grama do que estava realmente sentindo respingasse na gola ou na goela do cliente.
A campanha da Tramontina é de marca. A nossa, de produto. As peças de nossa campanha, além apresentarem o produto, devem passar algumas informações indispensáveis sobre os seus atributos e diferenciais. E devem, também, persuadir o consumidor a ir até o ponto de venda e comprá-lo, de preferência com regularidade. A campanha da Tramontina não tem esse objetivo, foi planejada em outra direção. O diretor de criação continuava em seu périplo argumentativo. Com uma cajadada, queria matar dois leopardos: conter o seu ímpeto assassino e colocar o cliente no seu lugar de Cliente.
E prosseguia. Veja bem, se lhe apresentássemos uma idéia nessa linha, estaríamos completamente equivocados. Essa linguagem é inadequada para o nosso produto, não tem a ver com nossa marca. Além disso, se lhe mostrássemos anúncios limpos, apenas com uma palavra e uma ilustração, num layout clean, o senhor certamente iria reeditar argumentos, como aquele de que o senhor está pagando por toda a área do anúncio e quer vê-lo, portanto, totalmente preenchido.
O semblante do cliente, que era de desdém, foi passando para o pouco a vontade, depois para o nervoso e, finalmente, para o profundamente irritado. Parecia um não-fumante debatendo com um famante sobre os males do tabaco. Impossível chegar a um acordo. No máximo, cada um que ocupe o seu lugar pré-determinado no restaurante. Foi quando o cliente pendurou outro móbile, para deixar o ar ainda mais poluído de interrogações. Você está querendo dizer que o meu produto não pode ser como o da Tramontina, que a minha marca não tem qualificação para chegar a esse nível de comunicação?
O diretor de criação, ah, o nosso nobre profissional e suas boas intenções de sempre. Fez-se mudo. Engoliu seco. Sentiu o nó na goela. E foi de novo. Imagina. Só estou querendo fazê-lo perceber que é um engano colocar-se na pele de uma empresa e de uma marca que tem um determinado material publicitário tido como bom, sem levar em consideração aspectos pertinentes ao seu próprio mercado e ao problema específico que o originou.
O cliente ficou mais irritado ainda e fez-se um silêncio desértico. O diretor de criação ouvia a reverberação do seu próprio desespero em palavras incompreensíveis, como miranges. E não via como sair daquela sinuca de bico. O bicho estava pegando e a cobra ia fumar daqui a pouquinho. E ia fumar Marlboro.
Continuou, então, como se missiva redigisse aquele que estava na sua frente. Meu caro cliente, assim como administrar não é copiar fórmulas que deram certo em outras empresas, só por que deram certo, criar uma campanha publicitária não é clonar as já existentes e trocar o logotipo. Temos que fazer a nossa propaganda e não a da Tramontina. Se perseguirmos a idéia que sugere, o que acabaremos fazendo é uma comunicação com uma personalidade roubada, que nunca será a nossa, uma clonagem. O público verá sempre a propaganda da Tramontina e não a nossa. Passaremos em branco. Ninguém vai ficar sabendo do nosso produto e marca. Com o tempo, nossas vendas, que agora são boas, cairão. No máximo, com muito esforço, conseguiremos ser identificados como aquele produto que copiava a Tramontina, lembra? Qual era o nome mesmo?
Foi quando o cliente, surpreendentemente, concordou. Tudo bem, tudo bem, você até tem um pouco de razão. Esse talvez não seja o melhor caminho. Quem sabe no futuro, então, possamos fazer algo nesse estilo.
O diretor de criação não acreditava no que ouvia. Subitamente, sem mais nem menos, o cliente voltara atrás. Mas o que estaria por trás desse movimento de xadrez. Foi quando o cliente voltou a falar. Mas e aquela do sabonete Dove, o que você acha?
O diretor de criação, ah, o diretor de criação, olhou para cima e viu uma tempestade se armando. Fitou o cliente mais uma vez e continuou. O senhor não fuma, não é mesmo? Pegou sua carteira de Marlboro. E pensou. Coitado de quem aprendeu lógica.
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E agora, Zé Dirceu?

Eu tenho amigos que são do PT desde quando o Lula era um da Silva feio, sujo e malvado e nem sonhava que chegaria a Presidente do Brasil tendo de fazer escala no salão de beleza do Duda Mendonça.
Quando a estrelinha ainda não assustava os patrões nem da Carro do Povo, quanto mais da Volkswagen, Ford e GM, um desses companheiros da juventude já anulava a sua cédula redigindo, com profundo orgulho e professada vaidade ideológica, a seguinte frase: Pelo partido do Zé trabalhador!
Outro deles era tão fanático que não tinha lençol no quarto. Usava uma bandeira do partido para cobrir o seu materialismo histórico e dialético. Não raro, o mesmo lençol era visto sobre a mesa em bate-papos intermináveis. Pauta: conjuntura internacional e nacional, agonia do capitalismo, aluguel atrasado. Era tão PT, mas tão PT, que acabou no PSTU. Ultraesquerdista, já está arrastando a sua roupa de cama e/ou mesa pros lados da Luciana Genro. Mas a sua grande decepção não foi o que vocês podem estar pensando. Acontece que ele tentou lançar a moda do militante percorrendo as ruas da cidade envolto em seu lençol, uma espécie de poncho ideológico que protegeria da frieza da burguesia, indiferente às mazelas sociais. Acabou em maus lençóis: o cara que teve a idéia da bandeirinha depoisitada no ombro a caminho do comício, do trabalho ou do súper venceu a concorrência. Dizem que era da DS.
E tem aquele que volta e meia encontro para repartirmos angústias. Quando cruzávamos as ruas dos anos atrás, com a mochila ainda leve e a alma idem, ele sempre exalava um prazer fervoroso ao provocar os que, mesmo à esquerda do plenário, injuriavam o PT. Escarnecia, sustentado pelos alicerces messiânicos de uma profecia que não era de Nostradamus. Era de Marx, Engels e do atual Ministro da Educação: o PT seria o grande partido das massas, uma espécie de macarronada da esmagadora maioria, com direito a muito molho, queijo parmesão ralado e Coca-Cola Litro. Engordou uns 15 Kg.
As amigas mereceriam uma edição especial, mas o editor dessa e-revista descartaria o tema. Os delírios ideológicos sectários e a indisfarçável inveja dessas meninas por aquelas que possuiam um shape burguês, geralmente vinham acompanhados de uma liberalidade sexual avant-garde. Era o contraponto hedonista ao transtorno do timbre agudo dos discursos de cartilha, os cabelos no sovaco e a surrada bolsinha de couro a tiracolo sobre um vestido a la indiana.
E teve um que me fez cair a ficha, embora essa expressão acho que ainda nem existisse, só a sensação, estranha e reveladora. Apareceu lá em casa dizendo que ia pra Nicarágua. Vamos - disse ele - fazer a revolução? A namorada o havia trocado por um sandinista especialista em granada de mão. Era fã d’Os Replicantes.
Mas todos tinham a Ética em alta conta e não a confundiam com estética ou etiqueta. Não roubavam nem mesmo do pequeno-burguês que administrava o bar onde bebíamos além da conta, embora, é claro, não admitissem ser enganados por um ser de estatura ideológica anti-revolucionária, o que causou algumas celeumas. Sim, os meus amigos militantes acreditavam na revolução, com ou sem sangue, muita cerveja & baratos afins. Como eu, devo dizer. Mesmo sem vestir o uniforme e marchar nas colunas, professava a idéia e aguardava a hora de partir pra cima da burguesia para socializar os meios de produção, dar um calote no FMI e construir um país decente, sem JN e novela das oito.
Essa característica peculiar dos meus convivas era um dos traços que viria a ser a coluna vertebral do Partido dos Trabalhadores. Para alguns, eram encrenqueiros, baderneiros, comunistas, mas para todos acabaram sendo honestos, cidadãos acima de qualquer suspeita. Até para o Barrinuevo.
Diante dos últimos acontecimentos, do desabamento das torres gêmeas da ética e da honestidade petista, liguei e convoquei um happy hour - se falasse em reunião, eles achariam dèjá vu. Depois que chegarem com suas sacolas de abraços efusivos e beberem os conteúdos de algumas brahmas da Bohemia, vou ser obrigado a fazer a pergunta que vai me transformar num Lasier Martins, com o agravante de repartirmos o mesmo sobrenome. Vai ser um porre.
Booaaa taaaaaaaarrde.
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Biografia se inventa

O dono da empresa havia adquirido o seu poder recentemente e esse poder advinha da montanha de dinheiro que passara a colecionar, fruto do sucesso de um produto que estava vendendo nem água no país inteiro, porque ajudava as mulheres a entrarem nos biquínis.
O cara enricara e agora usava esse poder para se divertir com os outros, principalmente a agência de propaganda que o atendia. Segundo ele, eles não faziam nada direito sem a aguçada interferência dos seus palpites.
Aliás, segundo ele, nada funcionava direito sem Ele. Portanto, se metia em tudo, determinava tudo, até quem ia pagar a conta da sinuca das terças-feiras, com o seu séquito de aspones estarrecidos e sempre prontos para um comentário, digamos, surpreendente.
E ele confessava que tinha um sonho, queria conquistar aquilo que está muito além do dinheiro, queria a glória, a transmutação de ser humano em mito, referência, nome de rua, estátua. É isso mesmo: estátua. Era isso que ele queria e essa simples peça tinha que ser um prêmio, ele não podia simplesmente mandar fazer, embora tivesse dinheiro suficiente para construir uma estátua sua de 20 metros de altura em ouro 24 quilates.
Outra peculiaridade sobre esse superhomem era o fato de que ele gostava de fazer tudo que os outros já fizeram, só que melhor. O seu produto era igual aos outros, mas era melhor do que os outros. A propaganda do seu produto era igual a dos outros, só que melhor do que a dos outros. Tudo na única opinião que lhe interessava, a dele, evidentemente. E, já que ele iria morrer, como todo mundo, ele dizia que até a morte dele ia ser melhor do que a dos outros.
Foi quando um dos caras da criação, que estava pela bola 8, profundamente atingido pelas sucessivas investidas do empresário contra as criações da agência, teve uma idéia e uma idéia que valia ouro, segundo o seu ego sussurrava. Só precisava ser lapidada um pouco e embebida em leite condensado para que o cliente engolisse com facilidade e prazer, o que não seria nada fácil.
A idéia era escrever um livro sobre a vida do empresário, a sua biografia, contando a sua história desde a infância pobre até o sucesso. Mas só isso não bastava, porque na verdade, mesmo romanceando muito, a vida do cara não era lá uma Brastemp. Por isso, a grande sacada seria copiar a biografia dele de pedaços de biografias de outras pessoas, de inúmeras outras pessoas de sucesso, mas com um ingrediente inovador e insólito no final.
O livro venderia muito mais do que o produto que o estava fazendo rico e insuportável. Mas não é só isso. Ele encontraria a tão desejada glória, a estátua exibindo o olhar de um homem de visão e uma pose de vencedor.
O insólito desfecho seria a lá Getúlio Vargas. É isso mesmo, a morte do protagonista, que sairia da vida para entrar na história – história das histórias inventadas, o que não deixa de ser uma verdade insólita, também.
Esse fato acrescentaria requintes, se é que isso é possível, de reality show, uma mistura de literatura com a vida, de Big Brother com Gabriel Garcia Marquez, Jorge Amado e Jô Soares, a consagração total.
A única aresta da idéia que ainda não estava redonda era como fazer aquele homem tão vivo e dinâmico aceitar a própria morte.
Simples. Jesus Cristo. Depois de sua morte, quando voltasse ressuscitado, ele abriria uma igreja muito melhor que a do Papa e Bispo Edir Macedo juntos.
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Cheio e vazio

Se alguém disser que tudo que faz parte do lugar em que se está é o que está no lugar depositado ou é ingênuo ou criminoso. O que mais preenche um lugar é o que nele não mais preenche espaço físico, é o que faz falta. A ausência é um vazio que preenche o seu lugar com postura de flor desencantada. Paredes, porta, janelas, móveis, tapete, objetos, livros, canetas, roupas, porta-lápis, lâmpada acesa, lâmpada apagada, interruptor, mancha de umidade na parede, pintura descascando, ondas invisíveis saindo do rádio, percorrendo o ar do lugar preenchido de tudo. Até do vazio do que não está mais ali ou talvez nunca tenha existido. Mas o vazio daquilo que já passou por ali é o maior de todos, o que cria raízes e se esparrama, sobe pelas paredes como uma trepadeira. Há momentos em que ele quase se materializa de tanto que quem o sente, sente, de tanto que uma determinada pessoa faz ele existir dessa forma que, para muitos, é triste. Para quem sente essa ausência, não é tristeza. A tristeza está em quem vê a vê de fora. Quem está dentro sente o que sente, não importa o nome. A ausência, o vazio, o não estar, nada disso existe em uma forma gramatical ou corpórea, sequer aceita definições. Quem está de fora não consegue perceber todos os elementos da paisagem interna, nem que cores ou sons ou cheiros fazem parte dela. Só aquele que faz essa paisagem existir com suas formas visíveis ou não, só aquele que inala o aroma da memória penetrando-lhe as narinas, o som do movimento se arrastando até os ouvidos, só esse pode entender como se dá o nascimento de uma morte e a morte de uma existência. Sempre aos pedaços. Nada termina por inteiro nem fenece de forma definitiva. Tudo transmuta-se e se vai ao mesmo tempo em que se deixa. Em alguém. A dor, essa palavra dura, a dor é a ausência de não mais ter, mas o conforto é saber que já teve. Enquanto um sentimento finca de um lado denunciando a não existência ou a existência de forma indesejada, um outro traz o afago da memória e a sua concavidade de aconchego. É o vazio cheio de si. O cheio do nada existir.
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O machado do Juremir

Não é de bom alvitre dar uma declaração dessas, ainda mais em público, mas se fosse eu um crédulo na reencarnação só aceitaria retornar a esta dimensão da realidade se o meu código genético fosse pelo menos aproximado ao de um cara como o Juremir. Não vou entrar nos meandros intelectuais da questão porque, como diz o João Ubaldo Ribeiro falando de Jorge Amado, sobre isso há quem fale melhor do que eu. O que me interessa ressaltar é a coragem do dito cujo. Gaúcho de Santana do Livramento, o guasca não veste a pilcha, mas mete a faca. O Machado incrustado ao nome não é por acaso. É uma profecia, condiciona um des(a)tino. As estocadas vão para todos os lados, direita, esquerda, meio, RBS e até no Grêmio, coitado, o macho que só vence em casa. Pelo que li (e não li tudo), sobra apenas o Colorado.
E ele é tão bom no que faz que chega a ser melhor do que o seu amigo famoso, que metralha o Brasil inteiro lá das suas trincheiras na revista Veja e do Manhattan Connection. Melhor porque consegue fazer mais com menos. Se no Correio do Povo de hoje restasse algo daquele jornalzão de antigamente, Juremir seria muito mais processado do que o colérico escriba paulista do Rio de Janeiro. Se lhe dessem uma coluninha, claro. Coisa que a Zero Hora fez, mas logo caiu em (veris)si(mo).
Fincado aqui no Rio Grande, esse outro país do Prata, acontece com ele o mesmo que já occorreu a tantos talentos do paralelo 30: a impossibilidade de ser traduzido pelo Brasil. Não que o nosso país vizinho seja burro ou não tenha tradutores à altura. Há gente por lá que entende o gauchês. E até gosta. O Brasil, a nação da esperteza e da dissimulação, não entende a nossa língua enfática, irredutível, com todas as letras, Grêmio ou Inter, Picapau ou Maragato, RBS ou Record, Capital ou do Interiror, Metade Norte ou Metade Sul, Pelotas ou Bagé, Santana do Livramento ou Uruguaiana. E por aí vai. Muito menos a Academia Brasileira de Letra entendeu Simões Lopes Neto ou Mario Quintana.
A sua crônica sobre os monstrinhos da RBS, que vão do o saci, mula-sem-cabeça, bicho-papão, salamanca do Jarau, Negrinho do Pastoreio e lobisomem até Paulo Sant’ana, Lasier Martins, Luis Fernando Verissimo, Lauro Quadros e Ruy Carlos Ostermann é soberba. Principalmente pela visão espetacular de conceder a todos o título de monstruosidades mitológicas gaúchas.
Os poucos no jornalismo que por aqui conseguem fazer-lhe sombra não alcançam a aguda síntese das facadas do machadismo. O homem maneja idéias e palavras como um gaúcho da fronteira puxa da faca. Ele não dá de lado, enfia no bucho. Não tem páreo pra ele aqui nessas bandas. Entra em campo sozinho, ganha por WO. Muitas vezes é um pouco incompreensível, talvez pelo amor à Braudrillard, o oblíquo, o provocador, o obscurso, o francês, enfim. Menos para ele, claro. Ele entende o mestre e deve tê-lo levado ao Beira-Rio para assistir ao simulacro futebolístico do Internacional, devedor até hoje daquele time mitológico que tinha craques de uma ponta a outra e um dos melhores meios-do-campo de todos os tempos, capaz de criar a imortalidade construída entre as quatro linhas da realidade de 90 minutos. Mas, talvez, pra ele, aquele esquete seja a esquerda irredutível, a que dormita, anárquica. E um dia ressurgirá das cinzas da sua ilusão.
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