15.4.10

3.500 caracteres

Um dia eu tomei um cálice de coragem, selecionei o avatar do meu ilustre vizinho desta página e tuitei pra ele. E para o Carpinejar.


Carpinejar não retrucou. Meu ilustre vizinho de página respondeu que era um idiota sem coisas tuitáveis.


Embora eu não seja um acadêmico, vi aí uma tese. Há idiotas que cabem em 140 caracteres. E há idiotas que cabem em 1.400, 2.400, 3.500...


A suposta tese serviu-me de carapuça. E de escada. Eu virei um tuiteiro anônimo, um viciado seviciador de palavras em até 140 caracteres.


Escrever em 140 caracteres passou a ser um dos melhores passatempos na internet. É bom para o sistema circulatório de sinapses.


Se você escreve briefings e PITs, por favor, tente. Tente insistentemente. Tente.


Era inimaginável: informação e diversão no mesmo tempo real. Hoje é possível preencher o expediente com mais criatividade. E ócio.


Por trás daquele @nomezinho pode haver boas surpresas, mas é bem provável que exista apenas uma cachoeira de bobagens.


Quem disse que bobagens não são necessárias vestia farda e cuspia ordens para o seu pelotão contra-atacar.


Assim como a internet toda, o Twitter não precisou de propaganda paga. Cresceu só no gratuitíssimo boca a boca. (Bela lição, boca-aberta.)


Aliás, quem precisa de propaganda hoje em dia cai na mão de gente que está numa corrida espacial montada em camelos. (Vai, camelo, vai!)


Os seguidos são geralmente famosos. Mesmo que idiotas. O que importa é seguir. Aonde um idiota famoso vai, milhares vão atrás.


Eu gosto mais da turma do fundo da sala do Twitter. Não são seguidos por serem famosos. É ao contrário.


Nessa turma aí tem gente que ainda vai dar o que tuitar, os xiitas do trocadilho. Xiita é meio chato, mas o mundo seria mais chato sem eles.


O trocadilhismo é uma praga. Mas sabendo separar o sorgo da sogra, acham-se algumas joias.


O Twitter é um emaranhado de canais por anda passa de tudo. Provocar uma explosão de seguidores e retuitar-se, por exemplo. É a webegomania.


Há quem siga centenas de milhares de pessoas na tentativa de conquistar seguidores. Deviam ter aula particular com Edir Macedo.


A Biblioteca do Congresso americano arquiva todo o conteúdo do Twitter. Bem, nem tudo é perfeito. Viver é mesmo perigoso.


Os grandes temas viram piadas em tempo real. Num mundo onde a informação é abundante e narcótica, alienar-se é preciso.


Empresas, lobistas, mascastes de todos os gêneros atracam no Twitter desde cedo da manhã. É o bom-dia mais cretino que existe.


Se um poeta concreto dos anos 50 ressuscitasse agora, tornar-se-ia um discursivo verborrágico. Fã até da mesóclise.


André Breton ficaria alucinado com a possibilidade da escrita automática e infinita num blog. Certamente seria um tuiteiro ilegível.


Por esse microblog, dá pra ter uma microideia do que está ocorrendo no mundo o mesmo que sempre houve: muita confusão, nenhum esclarecimento.


Devo agradecer ao Twitter, também, a descoberta de frases geniais. Por exemplo: é melhor ser rico com saúde do que pobre e doente.


O Saramago disse que o Twitter é empobrecimento da linguagem. Os livros dele é que sugerem um enriquecimento exagerado de sintaxe.


Foi-se o tempo dos 15 minutos de fama. Hoje são 140 caracteres. Mais do que isso não é para simples mortais simplórios.


Mas o Saramago deve ter razão. E não. Burros selvagens são necessários. Idiotas frasistas, idem. O meu ilustre vizinho de página etc e tal.


Viva o para-choque de caminhão.

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