Hoje, agora, neste exato momento, se alguém disser para colocar reticências no final da frase para que ela “deixe algo no ar” ou se complete em outra, eu levanto e bato palmas. Gênio. Viva a papinha!!! Cometer frases que precisam ser degustadas está ficando profissionalmente incorreto. Está vendo o cartaz na parede? É proibido fumar, também no texto.
Como você já leu, acabo de aceitar até mesmo os pontos de exclamação. Até 3, pelo menos. Na ânsia de se comunicar, o texto quase sempre é arrastado pelo comboio cliente-atendimento-planejamento na direção de uma grandiloquência varejeira, de camelô, que tem limites, mas eles ficam irreconhecíveis esmagados.
As aspas. Pra que ligar para o fato de elas deixarem o texto em estado comprometedor. Até por que texto publicitário não tem dono publicitário. Ele é propriedade do cliente. Vai que seja uma autorreferência. Temos de respeitar os gostos, manias e fetiches do chefe.
O lugarcomum, coitado. Já foi pedra bruta. Tinha até hífen. “Hoje em dia” é arroz de festa. Não há como deixar de redigi-lo sem dó nem piedade a pedido do cliente e do filho dele, que mexe no Corel.
Uma confissão nada estarrecedora: nem sei mais quantas vezes já fiz um VSMTSOV - Variação Sobre o Mesmo Tema de Sempre Outra Vez. No aniversário do fulano, quem ganha o presente é o adivinhão, ão, ão...
No mais das vezes, consumi longos períodos infrutíferos fazendo 6 por 6. Tira o 6, bota o meia dúzia. Ou essas mudanças não mudam nada ou destroem o raciocínio. E sempre são tratadas em regime de ambulância.
Há também o momento reflexivo. Acachapado de tanto trabalho, stress e papos no MSN, alguém identifica uma certa palavra lá no meio, olha, acha-a mais importante do que as outras e entende que ela tem de ser em MAIÚSCULAS. Acha e pronto. Ou então quer a palavra em bold, sublinhada ou “italizada”. E o texto vai ficando assim, cheio de emoticons.
E o asterisco*? Não sei se o consumidor sente arrepios quando avista um deles, mas deveria. Somos obrigados a enganá-lo - opa! que que é isso? Corrigindo: somos obrigados a informá-lo em letras ilegíveis. Ele que se vire com as traiçoeiras miudezas - em corpo 8 no pé da página.
Eis algumas das pragas que já se esparramaram que nem erva daninha pelos gramados maltratados do contexto publicitário. Jamais serão expulsas. Fazem parte da imania. São imexíveis, imperdíveis e inextermináveis.
Mas tem outra coisa, meio de passagem. Desde os tempos da revolta com essas rotinas que escuto falar em ARP. E pensava, lá atrás: o que poderia unir, reunir e congregar uma categoria composta de pessoas tão “sou mais eu”? Um jantar? Medalhas, medalhas, medalhas? Mais do que isso: será que a categoria poderia - vir a - ter espírito profissional visto que, entre outras coisas, grande parte de sua mão de obra só não abandona o barco porque tem medo de se jogar ao mar?
...
* Isto é o que você está pensando.
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