11.3.10

Três pontinhos...

Hoje, agora, neste exato momento, se alguém disser para colocar reticências no final da frase para que ela “deixe algo no ar” ou se complete em outra, eu levanto e bato palmas. Gênio. Viva a papinha!!! Cometer frases que precisam ser degustadas está ficando profissionalmente incorreto. Está vendo o cartaz na parede? É proibido fumar, também no texto.

Como você já leu, acabo de aceitar até mesmo os pontos de exclamação. Até 3, pelo menos. Na ânsia de se comunicar, o texto quase sempre é arrastado pelo comboio cliente-atendimento-planejamento na direção de uma grandiloquência varejeira, de camelô, que tem limites, mas eles ficam irreconhecíveis esmagados.

As aspas. Pra que ligar para o fato de elas deixarem o texto em estado comprometedor. Até por que texto publicitário não tem dono publicitário. Ele é propriedade do cliente. Vai que seja uma autorreferência. Temos de respeitar os gostos, manias e fetiches do chefe.

O lugarcomum, coitado. Já foi pedra bruta. Tinha até hífen. “Hoje em dia” é arroz de festa. Não há como deixar de redigi-lo sem dó nem piedade a pedido do cliente e do filho dele, que mexe no Corel.

Uma confissão nada estarrecedora: nem sei mais quantas vezes já fiz um VSMTSOV - Variação Sobre o Mesmo Tema de Sempre Outra Vez. No aniversário do fulano, quem ganha o presente é o adivinhão, ão, ão...

No mais das vezes, consumi longos períodos infrutíferos fazendo 6 por 6. Tira o 6, bota o meia dúzia. Ou essas mudanças não mudam nada ou destroem o raciocínio. E sempre são tratadas em regime de ambulância.

Há também o momento reflexivo. Acachapado de tanto trabalho, stress e papos no MSN, alguém identifica uma certa palavra lá no meio, olha, acha-a mais importante do que as outras e entende que ela tem de ser em MAIÚSCULAS. Acha e pronto. Ou então quer a palavra em bold, sublinhada ou “italizada”. E o texto vai ficando assim, cheio de emoticons.

E o asterisco*? Não sei se o consumidor sente arrepios quando avista um deles, mas deveria. Somos obrigados a enganá-lo - opa! que que é isso? Corrigindo: somos obrigados a informá-lo em letras ilegíveis. Ele que se vire com as traiçoeiras miudezas - em corpo 8 no pé da página.

Eis algumas das pragas que já se esparramaram que nem erva daninha pelos gramados maltratados do contexto publicitário. Jamais serão expulsas. Fazem parte da imania. São imexíveis, imperdíveis e inextermináveis.

Mas tem outra coisa, meio de passagem. Desde os tempos da revolta com essas rotinas que escuto falar em ARP. E pensava, lá atrás: o que poderia unir, reunir e congregar uma categoria composta de pessoas tão “sou mais eu”? Um jantar? Medalhas, medalhas, medalhas? Mais do que isso: será que a categoria poderia - vir a - ter espírito profissional visto que, entre outras coisas, grande parte de sua mão de obra só não abandona o barco porque tem medo de se jogar ao mar?

...

* Isto é o que você está pensando.

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