8.9.10

Pangarés

Era uma vez um redator publicitário que trabalhava numa agência que prestava serviços ao grande banco de uma província que cultuava um sangrento passado de lutas, mas colhia um presente de dívidas e um futuro de dúvidas. Todos os dias, quando chegava na lida e descia do seu cavalo, o redator notava um prédio novo e vazio ao lado do que trabalhava. Um dia perguntou a um colega se ele sabia o que era aquela construção. O parceiro retrucou que não tinha a menor ideia, inclusive para o pit que estava em suas mãos suadas. Em seguida, ouviram o som de um disparo vindo do outro lado da sala. Era uma frase-boleadeira, que os circundou e envolveu: “É um prédio fantasma.”

Diariamente, quando chegava na agência e apeava de seu cavalo, o redator punha os olhos na construção ectoplasmática e imaginava coisas - recurso imediatamente recolhido ao entrar na sala da criação. Com o correr dos pits enigmáticos, no entanto, os convivas aproximaram-se e os boatos sobre o prédio ao lado começaram a brotar como chilca. Contava-se, de soslaio, que os donos da agência em que eles trabalhavam teriam erguido o edifício como símbolo da nova era da empresa, mas não podiam comprovar de onde viera o dinheiro para a empreitada. Em razão disso, o pessoal da Fazenda, órgão público que controlava o rebanho de papel-moeda e sua circulação, os investigara. A conclusão teria sido a de que os proprietários da agência haviam metido a mão no bornal da grande instituição da província. Rumorejava-se ao longo dos corredores que os mandatários ou iriam para a prisão ou um funcionário previamente selecionado assumiria a culpa pelo desvio. Nada disso se deu. A pendenga foi cozida no bafo de negociações discretíssimas. Os chefões amargaram uma prisãozinha domiciliar.

Anos mais tarde, surge um novo escândalo envolvendo o conluio de profissionais com a grande instituição da província. Não há como afirmar que esse episódio seja diferente do anterior, mas dessa vez há um personagem novo, uma polícia montada no poder e na ética, distante da polícia da província, que dos mais abastados se amasia fácil. Ela invadira prédios que não eram fantasmas e prendera pessoas reais com a mão na argamassa de dinheiro vivo. Se antes o dinheiro sumira por labirintos contábeis, agora ele era real, embora os meliantes dissessem que não sabiam como ele havia se materializado naquela mesa. Depois da ação eliotnesca, porém, a polícia abandonara a cena de cinema do crime. Os fatos que correram pelas páginas de jornais e de blogs, que frequentaram o boca a boca generalizado e alarmista escafederam-se para o esquecimento, com anuência da imprensa local. Tal e qual o prédio de anos atrás, com seus tijolos e concreto surreais, tudo virara fantasma.

Em nova passagem de tempo, o redator está diante de seu computador. Como sempre, faltam dados. O pit oco exige investigação, informações, fontes. Talvez um repórter ou um detetive ou os dois juntos. O prédio do texto ameaça ruir como mera figura de metalinguagem. Ele ergue-se da cadeira e sai a bater pernas tal e qual um peripateta. Seu cavalo não o segue, parece um quadro na parede descascada. Começa a chover.

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