(Texto criado sob encomenda para um ex-bebê Johnson que queria fazer stand up, mas desistiu - para o bem da comédia e da tragédia.)
Eu fui uma verdadeira gracinha. A bochecha preferida das tias. Depois que deixei o berço e aprendi a falar, virei um miniastro. Gente por perto queria dizer uma coisa só: plateia. Eu abria a boca e todo mundo ria, me afagava, apertava: que-gurizinho-magi-bunitinho-vem-cá-vem-pru-colinho-da-titia...Quando começaram a dar outras coisas que estão ali pela periferia do colinho, ficou ainda melhor.
Poucos dias atrás eu estava no banheiro. Momento Marília Gabriela. Só eu e eu, fazendo a barba. Quem é este cara velho e acabado no espelho? Onde eu fui parar? Cadê o bebê Johnson que estava aqui? Por que diabos vocês estão pensando em ralo? É só porque eu estou no banheiro, certo?
Mas o banheiro é o melhor lugar para descarregar ideias que estão presas. E eu pensei: vou voltar a ser aquele cara engraçado. E não é que o cara velho e acabado no espelho riu. E o papo rolou.
- Porra, de que lado tu estás, meu velho? Se tu és eu, tu tens que me apoiar.
- Tu não tem graça nenhuma, disse ele, assim, sem mais nem menos.
- Ah, não tenho graça? Então do que todo mundo está rindo aqui neste auditório?
- Talvez eles não tenham nada pior pra fazer.
- Qualé que é, meu velho? Dá uma dica, então, já que juntos somos um.
- Tu precisas da ajuda de um especialista.
- Eu não preciso de psicanalista.
- E precisa de aparelho auditivo também. Eu disse es-pe-ci-a-lis-ta. Teu texto, na verdade, tua forma de juntar as palavras, é bem abaixo do mediano, desponta para o anonimato.
- Viram só o topete do cara? Desponta para o anonimato. Quem ele pensa que é? O falecido Paulo Francis e sua legião de viúvas opinativas? Você está querendo dizer que só riam de mim porque eu era um menino engraçadinho e que hoje em dia ninguém dá bola pro que eu digo porque o que eu digo não tem graça nenhuma?
- Do que você está rindo, porra? Bem, com licença, eu vou ter que abrir um parênteses e levar um papo mais sério com esse cara. Já volto.
- Me diz uma coisa, meu velho: quem você acha que pode me ajudar a fazer um texto mais engraçado para me tornar engraçado de novo, já que você acha que eu sou um despossuído de graça, um desgraçado?
- Um redator publicitário.
- Mas porque diabos um redator publicitário?
- Frustração, inveja e rancor. Eles se esmeram em ter ideias, em fazer títulos e textos criativos. Aí vem o cliente ou até mesmo algum colega do atendimento e detona, simplesmente porque acha que não ficou bom. Pra piorar, eles ainda têm que suportar os elogios que todos na volta fazem aos diretores de arte. Só com o veneno que um redator publicitário despeja diariamente no Twitter já daria pra montar um showzinho desses aqui por semana.
- Mas redator publicitário, assim como todo publicitário, se acha, é muito metido a besta. Parece que eles vivem na frente do espelho, ajeitando o gel.
- É a tua única saída, meu caro.
- É a tua única saída, meu caro. Esse texto é teu? Bem, eu conheço um redator publicitário. Eu tenho papo, ele tem as palavras. Juntando uma coisa na outra eu voltarei a ser aquele cara engraçado que fazia todo mundo rir. E ainda vou ganhar muita grana com isso.
- Qual é? Tá rindo de novo, seu desgraçado. Você acha que nenhum otário vai pagar pra me assistir? Ou você acha que o redator não vai topar? Ou que vai topar mas, como todo publicitário, vai cobrar os tubos?
- Não sei se ele vai, mas eu vou.
- Como é que é? Você quer participação na bilheteria? Pro redator publicitário basta dizer que o texto é do caralho, que vai ganhar prêmio e pagar umas cervejas? Você pensa que eu sou idiota?
- Olhando daqui...E a ideia foi minha.
- A ideia foi tua?
- Sim, está todo mundo de testemunha, diz ele.
- A ideia foi tua mesmo, mas o espelho é meu.
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