Se houvesse um provável futuro chefe na minha vida e ele lesse o que vou escrever aqui, eu certamente voltaria ao estado em que estou enquanto cato essas miudinhas: sem chefe. Por outro lado, tomara que os anteriores debulhem cada letra, já que não nos veremos mais diante de um PIT que é um e-mail do cliente reencaminhado, eu a escorder o espanto atrás de uma mascarazinha de profissionalismo, tal e qual uma bunda do tamanho de uma melancia num fio dental; eles, com aquela simpática expressão que quer dizer “é pra amanhã, faz logo e não enche”.
Está cada vez mais difícil criar.
Você que me lê e não é do ramo estranhou a frase acima. Caro leigo, a vida não é uma novela com Lázaro Ramos no papel de designer, cheio de charme afro, pegando todas. Hobby e work são duas coisas bem distintas. Não confunda criatividade com belas e esmeradas produções em que a grande ideia é o valor do orçamento.
É muito mais fácil repetir.
Você que me lê e que é do ramo vai dizer que não é bem assim. Estimado caro colega, quero lembrar que nossa missão nesta vida profissional é mentir, mas a atividade não tem que ser full time. Tem a hora de olhar para aquela lente ali e dizer a verdade. O que se faz na esmagadora maioria das salas de criação é o mesmo que acontece todos os dias em uma padaria. Joga-se água na farinha da informação rala, umas clicadas de sal, molda-se a massa na forma pré-determinada e o pão está pronto para entrar, assar e sair do forno, bem quentinho.
Está cada vez mais difícil criar.
A produção em série, que repete infinitamente processos e produtos, vem desde o momento de pensar. É aí que surge o vamos criar algo do tipo, que nem aquela campanha, cadê a Archive, hein? A busca por referências muitas vezes substitui o pensamento que vai atrás da ideia. Ou então, quando acontece, o resultado gera estranheza. Muita gente acha maravilhoso um comercial divertido, inteligente, pronto e acabado na TV. Quando vê algo parecido em sua frente, ainda sem produzir, vira a casaca. Apertar os mesmos botões é mais prático e, aparentemente, mais lucrativo (as aparências, você sabe). Tá pronto. Waaaaaaal! Afudê.
É muito mais fácil repetir.
Por quê? Seriam necessárias várias edições desta revista para se chegar a um denominador incomum. E certamente nossos queridos editores iriam à falência. O certo é que vemos por aí uma enxurrada das mesmas ideias, os mesmos layouts, a mesma luz, o mesmo título, o mesmo rótulo, a mesma praça, o mesmo banco de imagem matador e baratinho, quiçá free. Como se todos fôssemos parte de uma cultura homogênea, uma superfície só, sem profundezas, sem dúvidas, questionamentos, alma. Como se todos fôssemos um mesmo pote de margarina.
Está cada vez mais difícil criar.
Falta de criatividade? Jamais. Tem muita gente anônima e criativa nas agências de publicidade, trabalhando com uma dedicação impressionante. Principalmente quando se vê o que recebem no fim do mês, sem carteira assinada, sem ganhos extras, sem direito algum na hora de ir embora. Criatividade tem de sobra. Pra ser bem simples, direto e pouco criativo, é como no futebol: um celeiro de talentos incríveis, só que nas mãos de cartolas inescrupulosos (pleonasmo), que só pensam no ganho imediato. O negócio é (re)produzir. E fazer uma defesa criativa na apresentação para dar a ideia de que a tal ferramenta foi utilizada.
Está cada vez mais difícil começar algo novo. É melhor pular essa parte e ir logo pro fim.
Perfeito André, concordo com todas as tuas palavras. O mercado publicitário é muito bonitinho na TV. Na vida real, é suor, horas sem dormir e poucquíssimo dinheiro para a enorme maioria.
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