12.1.12

A cabeça no umbigo

Volto um pouco no tempo para falar de um assunto que espantou muita gente e que merece ser esmiuçado – ou seria pisoteado? Nunca antes num estado que se orgulha tanto de sua cultura tinha-se visto manifestação de tamanha pavonice intelectual. Não vou dizer que em tempos de redes sociais isso, que a internet aquilo, que a globalização não sei o quê e outros argumentos que estão pipocando na panela. Nada disso. Só gostaria de perguntar uma coisa: onde esses senhores e senhoras que elaboraram o tema da redação da úrguis estavam com a cabeça quando cometeram esse desatino?

Como sei que não vou obter resposta, fui atrás de uma. Vasculhei as estantes da minha mente, dialoguei com outras pessoas, li o que um pai de vestibulando escreveu com justa indignação e cheguei à conclusão que os criadores do tema da redação estavam com a cabeça no próprio umbigo, a fornalha onde forjaram o aço de um enunciado que disse a esses moços e moças, pobres moços e moças, que sem o Google por perto eles não sabem de nada. Rarará!

Lembrei de um professor de redação que sempre dizia aos alunos que escrever bem não é encher um texto de pensamentos rebuscados e palavras bonitas ou de antanho. O que demonstra conhecimento e inteligência, em matéria de texto, é saber expressar uma linha de raciocínio de forma clara, objetiva e, se possivel, com estilo sedutor e envolvente. O que importa em um texto não é seu gongorismo, mas o ponto de vista que revela. O que importa no texto é o substantivo, não o adjetivo. Não escrevemos para aparecer, mas para dizer alguma coisa. Belíssima lição que me fez pensar se existe algum professor que ensine outros professores a escolher um tema relevante para uma prova de redação que sirva para analisar, verdadeiramente, a capacidade expressiva do candidato ao mundo acadêmico. Se existe, por favor, dê uma passada urgente na úrguis.

A escolha do tema da redação da úrguis mostra que a nossa universidade é uma instituição mais alienada do que os jovens denunciados como dispersivos, que o enunciado colocou contra a parede. Se também invertêssemos essa situação, se os jovens em questão pudessem sabatinar os professores, eu creio que seriam não apenas mais criativos do que esses mestres, como também manifestariam muito mais interesse no que está acontecendo de veradeiramente importante neste mundo, visto que são alvejados todos os dias por uma tsunami de fatos, informações e novidades. Seria uma aula de aluno para professor que parece já ter deixado pra lá da sua missão de gerar a curiosidade pela conhecimento, pelo desconhecido que está em seu redor e que se dedica tão somente à masturbação intelectual, mera punheta beletrista.

Se uma prova assim me caísse em mãos quando fui vestibulando, certamente não teria nem a inspiração nem a mesma presença de espírito para escrever o que me ocorreu agora e que colocaria minha nota em torno do redondíssimo zero. No espaço dedicado às minhas trinta linhas, eu escreveria apenas uma pergunta: se vocês não têm mais o que fazer, que tal alfabetizar os 14 milhões de brasileiros que ainda não sabem nem ler nem escrever e que sonham em ter uma vida mais digna e ajudar a sociedade a construir dias melhores, menos confusos e injustos, para os quais, por sinal, a educação é o pilar mais importante de todos?

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