19.1.12
O que eu escrevo é mentira
Sou redator publicitário e, caso você não saiba, meu trabalho é escrever criativamente. Tudo que escrevo tem que ter alguma graça, algo sedutor, uma sacadinha. Se não for assim, eu não posso deixar sair da minha máquina senão vou queimar meu filme. Não há nada pior para um redator publicitário do que ser visto como alguém que não deslancha no texto, que nunca cria algo engraçado. Enquanto a ideia boa não vem, eu fico sentado fazendo isso aqui: escrevendo. Troco ideias com alguém do planejamento, indago o atendimento sobre os pedidos de trabalho mal costurados, participo de reuniões, reviso materiais, tomo um cafezinho, vou lá for a fumar meio escondido mas, fundamentalmente, meu trabalho é voltar aqui para esta mesa, me sentar e escrever. Acontece que escrever publicitariamente não é como escrever jornalisticamente, por exemplo. Eu não tenho que descrever um fato, eu não tenho que contar histórias a não ser que sejam curtíssimas. Tudo que jogo para a tela deve ser sintético, conciso, criativo. Não é possível fazer isso sem boas doses de ficção. Dourar a pílula é necessário. Mentir um pouquinho é fundamental. Não se faz uma boa peça publicitária dizendo a verdade. Esse é o escaninho da filosofia, que anda em busca dela há milênios. A publicidade mente e saber mentir é uma arte. Mas há uma outra coisa que acontece nesse processo que é o que vou me dedicar aqui, de vez em quando, aleatoriamente. Escrever preciso de ócio. Ninguém consegue soltar o pensamento que nem uma pandorga sem ficar algumas horas divagando pelo céu da imaginação. Nesse percurso, acabo cruzando com algumas nuvens que não servem para o meu trabalho. São ideias engraçadas que surgem no caminho, mas que eu não posso transferir para o trabalho. E aí eu as registro no Twitter. Antigamente, quando ele não existia, eu registrava numa agenda, em pedaço de papel, em carteira de cigarro e guardava para nunca mais tocar. Com a revolução das redes sociais, eu passei a usá-las com esse intuito. E eu viciei nisso. Mesmo. Tem dias que faço mais de cem posts no Twitter. No Facebook nem tanto. Eu o acho muito Lyons Club. O Twitter é que me encanta. A frase curta, a ideia condensada, a chinfra, a folha seca e, às vezes, a reação instantânea de pessoas que, geralmente, nem conheço. A partir de hoje, no entanto, vou tuitar menos. Não só porque não pega bem profissionalmente, mas porque eu estou visivelmente viciado e a dependência precisa ser enfrentada. É como diz um amigo meu, chegado numa birita. Tô indo lá pro bar enfrentar o vício. Eu tô aqui sentado na frente da máquina, pensando em coisas do trabalho e, ao mesmo tempo, atravessando nuvens esquisitas lá no céu do meu delírio.
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