Não sei mais escrever um texto na
íntegra, aquele emaranhado de palavras estruturado em começo, meio e fim, que
segue um raciocínio e vem ao mundo pra fazer pensar, pra dizer alguma coisa,
discordar de algumas outras ou simplesmente quer provocar reações, da raiva ao
encantamento, do desprezo a gargalhada.
Ou melhor: sei, afinal, escrever é como
pedalar ou fazer sexo, nunca se esquece. No máximo a gente perde o pique,
principalmente quem o aprendeu no autodidatismo masturbatório. Mas metade de
mim não tem mais vontade e a outra se pega pensando se seria (será que foi?)
útil de alguma forma. E ainda tem uma terceira parte, além da matemática do
corpo, que integra-se à impalpável física da mente, que se questiona se alguém
acompanharia o meu esforço (intelectual?) até o fim, se não iria parar no meio
e me jogar na lata de lixo da sala de espera ou se ultrapassaria minha abertura
brechtiana.
Eu, que sempre quis fazer parte do meu
tempo, só agora me sinto incluso, mais do que nunca. Se antes o social era
reduto de castas e crenças, hoje ele se democratizou de tal forma que basta
você ter login e senha para entrar e participar da algaravia. Se ontem era
necessário um grandioso esforço para chegar ao ponto máximo da expressão linguística,
agora um kkkkkk ou um shuashuashuashau resume a ópera. Eu entro no emaranhado
das redes sociais e fico desatando seus infinitos nós com a compulsividade de
quem estoura plástico bolha. O único outsider autêntico é o índio.
Eu devoro o fast food virtual, o digiro
rapidamente e o expilo da forma que achar melhor: vômito, fezes ou uma corbélia
de flores pra você, meu amor. Ainda pega bem bancar o poeta.
Eu curto, bato papos, vejo o que outros
almoçam, fujo dos posts açucarados, provo os meio amargos e descubro uma rede
tão subversiva quanto subserviente esparramando sonhos recheados de goiabada e
crustáceos criativos.
Eu sou um dos vermes do comentarismo
espreitando os assuntos do dia para dar minha fisgada inofensiva. Eu olho as #
do Twitter em suas quase sempre significantes mediocridades e as desdenho, às
vezes, ipsis litteris. Eu faço versos no meio de uma conversa sobre qualquer
coisa e troco de trilhos na maior cara de pau. Eu escrevo a esmo. Só não gosto
de limpar.
Se o capitalismo agoniza e o socialismo
está realmente morto e soterrado sob o muro de Berlim, vivemos agora a euforia
do redessocialismo. Uma mistura que inclui ingredientes como fatias bem
fininhas de aroma de democracia com colheres de sopa de corante de
sociabilidade e que, mesmo que ainda esteja no forno, já é devorada com
voracidade. Se vamos queimar os beiços ou não, nenhum profeta sabe, seja da era
do silício ou da era do silêncio e da incerteza.
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