16.1.13

A AMBEV faz mal à saúde

Um dia vai estar na capa da Veja: bebida não faz mal a ninguém. E tem mais, pode escrever aí. Na semana subsequente, a ilustríssima capa do Financial Times vai estampar: é o dinheiro que faz mal.

Álcool não é droga perigosa, é uma droguinha do bem. O álcool só se torna desagradável quando o sujeito já está a caminho da destruição. Ele funciona como álibi, como o bom e velho boi de piranha. E todo mundo fala: Fulano se atirou na bebida, a cachaça acabou com Beltrano. Besteira. Óbvio que não foi aquela aguinha que passarinho não bebe porque é muito fresco. Foram Fulano e Beltrano que jogaram suas vidas pro santo, mas o santo, meu amigo, não quer saber de sarjeta.

Droga perigosa mesmo é a AmBev. Esse cartel, sim,  é o responsável pela ressaca moral e financeira do cidadão que gosta de espichar o final do expediente com uns inocentes birinaites. Se tem algum assessor de deputado sem nada melhor pra fazer e que esteja lendo este texto, por favor, sugira a ele encaminhar projeto para que toda garrafa de bebida venha com a frase A AMBEV FAZ MAL À SAÚDE.

O álcool é o promoter da alegria. Não sei se o amigo já notou, mas a felicidade está hermeticamente lacrada em vasilhames. É só abrir e se deliciar. Alguns efeitos colaterais fazem parte do jogo. A realidade é assim, coitada, imperfeita, porque às pressas. Encontre seu ritmo e tudo vai dar certo. 

Mas com a AmBev no meio fica mais difícil. Vamos ao fundo do poço da questão: o preço da cerveja. É definido por eles, aumentado por eles, sempre que eles querem e não há discussão. O que outrora custava umas poucas patacas, hoje alcança cifrões estratosféricos, que ainda dependem do famoso migué do valor agregado. Ao já alegre cidadão que está ali no boteco sorvendo a sua loira gelada, só resta pagar, pagar e pagar. Ai dele se resolver reclamar além da conta. Dono de bar e garçon, quando se incomodam, costumam ser violentos. Tome cuidado. Até porque bater em bêbado pode servir pra aliviar as tensões do dia a dia.

Aliás, por falar em garçon. Em geral, é boa gente, mas, com aquele jeitão simpático, ele muitas vezes é o arauto das más notícias. Ao colocar o singelo papelzinho na sua frente, a conta, pode causar mais estragos do que o crack e o crack da bolsa de Nova York. Juntos.

O dono do bar é outra figura que merece estudo. Os anos de experiência nos botecos e assemelhados recomendam manter certa distância, não ser muito próximo da chefia. Claro que é bom trocar gentilezas com esse cidadão tão importante na vida do bebedor, mas é necessário evitar a tentação de, por exemplo, abrir uma continha. Nunca faça isso. Muitas vidas já foram dizimadas porque o barzeiro gostou da cara do freguês e começou a pendurar o traguinho dele. Fique de olho nesse cidadão atrás do caixa. Ele pode ser mais maligno do que o agiota da esquina.

Mas não crucifiquemos o proletário garçon e o capitalista dono do bar. Eles fazem parte da engrenagem da indústria de bebidas, uma selva de capitalistas gananciosos e, via de regra, bons bebedores e dados a delírios de grandeza. O garçon é Carlitos correndo pra lá e pra cá com sua bandeja; o dono do bar é um administrador assoberbado cheio de compromissos. O problema mesmo está lá em cima, no topo, na sala do boss, na estratégia disseminada entre os executivos, que chega ao ponto de venda através de um exército de vendedores turbinados. Como a AmBev cartelizou quase tudo, só resta a quem vai ao bar fazer o sinal da cruz, beber, dizer amém e, claro, tratar de ficar longe da sarjeta.

Garçon!

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