Um dia vai estar na capa da
Veja: bebida não faz mal a ninguém. E tem mais, pode escrever aí. Na semana
subsequente, a ilustríssima capa do Financial Times vai estampar: é o dinheiro que
faz mal.
Álcool não é droga perigosa,
é uma droguinha do bem. O álcool só se torna desagradável quando o sujeito já
está a caminho da destruição. Ele funciona como álibi, como o bom e velho boi
de piranha. E todo mundo fala: Fulano se atirou na bebida, a cachaça acabou com
Beltrano. Besteira. Óbvio que não foi aquela aguinha que passarinho não bebe
porque é muito fresco. Foram Fulano e Beltrano que jogaram suas vidas pro
santo, mas o santo, meu amigo, não quer saber de sarjeta.
Droga perigosa mesmo é a
AmBev. Esse cartel, sim, é o responsável
pela ressaca moral e financeira do cidadão que gosta de espichar o final do expediente
com uns inocentes birinaites. Se tem algum assessor de deputado sem nada melhor
pra fazer e que esteja lendo este texto, por favor, sugira a ele
encaminhar projeto para que toda garrafa de bebida venha com a frase A AMBEV
FAZ MAL À SAÚDE.
O álcool é o promoter da
alegria. Não sei se o amigo já notou, mas a felicidade está hermeticamente
lacrada em vasilhames. É só abrir e se deliciar. Alguns efeitos colaterais fazem
parte do jogo. A realidade é assim, coitada, imperfeita, porque às pressas.
Encontre seu ritmo e tudo vai dar certo.
Mas com a AmBev no meio fica
mais difícil. Vamos ao fundo do poço da questão: o preço da cerveja. É definido
por eles, aumentado por eles, sempre que eles querem e não há discussão. O que
outrora custava umas poucas patacas, hoje alcança cifrões estratosféricos, que
ainda dependem do famoso migué do valor agregado. Ao já alegre cidadão que está
ali no boteco sorvendo a sua loira gelada, só resta pagar, pagar e pagar. Ai
dele se resolver reclamar além da conta. Dono de bar e garçon, quando se
incomodam, costumam ser violentos. Tome cuidado. Até porque bater em bêbado
pode servir pra aliviar as tensões do dia a dia.
Aliás, por falar em garçon. Em
geral, é boa gente, mas, com aquele jeitão simpático, ele muitas vezes é o
arauto das más notícias. Ao colocar o singelo papelzinho na sua frente, a
conta, pode causar mais estragos do que o crack e o crack da bolsa de Nova
York. Juntos.
O dono do bar é outra figura
que merece estudo. Os anos de experiência nos botecos e assemelhados recomendam
manter certa distância, não ser muito próximo da chefia. Claro que é bom trocar
gentilezas com esse cidadão tão importante na vida do bebedor, mas é necessário
evitar a tentação de, por exemplo, abrir uma continha. Nunca faça isso. Muitas
vidas já foram dizimadas porque o barzeiro gostou da cara do freguês e começou
a pendurar o traguinho dele. Fique de olho nesse cidadão atrás do caixa. Ele
pode ser mais maligno do que o agiota da esquina.
Mas não crucifiquemos o
proletário garçon e o capitalista dono do bar. Eles fazem parte da engrenagem
da indústria de bebidas, uma selva de capitalistas gananciosos e, via de regra,
bons bebedores e dados a delírios de grandeza. O garçon é Carlitos correndo pra
lá e pra cá com sua bandeja; o dono do bar é um administrador assoberbado cheio
de compromissos. O problema mesmo está lá em cima, no topo, na sala do boss, na
estratégia disseminada entre os executivos, que chega ao ponto de venda através
de um exército de vendedores turbinados. Como a AmBev cartelizou quase tudo, só
resta a quem vai ao bar fazer o sinal da cruz, beber, dizer amém e, claro,
tratar de ficar longe da sarjeta.
Garçon!
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