O cinema perdeu espaço para
as séries de TV porque pasteurizou-se. Ponto. Há algumas dezenas de outras
razões e motivos que vão alimentar muitos debates ao longo do século. A nota
deixa-os a cargo dos especialistas.
Mas existe também uma causa
que está relacionada com a nova forma de viver, bem mais pragmática e
multifuncional. As séries se encaixam com mais facilidade na mente do atual
"cinéfilo", que não entra na história como quem mergulha numa câmara
totalmente escura ou em um buraco negro. À exceção do contato com o primeiro
espisódio - e até mesmo esse é precedido de comentários da imprensa, digo,
publicidade, bem, hoje em dia são a mesma coisa -, todo o resto é já em si uma
sinopse antecipada, um resíduo que permanece na mente, sem deixá-la vazia e oca
de referências do que será visto. O cinema exige - ou exigia - uma preparação
diferente. Apesar dos trailers, apesar das "críticas" que muitas
vezes contam o filme, quem entra - ou quem entrava - numa sala de cinema não
sabe o que irá acontecer, fica no breu, sem interrupções, à mercê de um roteiro
que pode se revelar assustador, hilário, emocionante ou, o que é ainda melhor,
tudo isso ao mesmo tempo. Dessa relação nasce - ou nascia - a magia de crer em
luz projetada numa tela. Na TV, a luz não alcança a mesma performance. Não só
pela falta da mítica treva ou da interrupção do entorno, mas porque não existe
o propósito do encantamento, da transcendência, da identificação com situações ímpares
para o ser humano e de outros termos e conceitos que caíram em desuso. Há
entretenimento.
Uma das ironias dessa nova
realidade é que ela acontece exatamente numa época que começa a ser chamada de
era do compartilhamento. Onde está a ironia? No cinema, compartilha-se com
outras pessoas uma experiência "real". Na TV, se faz o mesmo com o
micro-ondas. Boa pipoca.
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