17.3.13

Prolegômenos


Por que tanta banca e, ao mesmo tempo, tanta falta de graça? Por que as gazetas publicam tanto reclame publicitário, mas  não nos presenteiam com nossas queixas ou até ridículas cartas de amor? Por que os jornais imprimem a letra fria da notícia e nenhuma poesia? Por que, de matutinos e vespertinos, os jornais passaram a momentâneos? Por que o clic da foto, que era a arte de captar o instante, dispara a todo milésimo de segundo? Por que não é mais possível embrulhar as compras feitas no mercadinho no jornal de ontem, com uma crônica sobre a padaria da esquina? Por que horóscopos clarividentes,  não desígnios misteriosos? Por que tanta bola rolando e nada de drible linguístico? Por que tanta sisudez gráfica e nem um - pequeno que seja - parquinho de diversões para as nossas cansadas cabeças? Por que os jornais têm tantos cadernos e não aceitam rabiscos na borda da página ou uma garatuja que fuja da ditadura da linha editorial? Por que tanta seriedade a condenar o macambúzio leitor? Por que tantos tuítes engraçadinhos, mas nenhuma pedra no meio do caminho? Por que tantos classificados, porém nenhuma falta de classe gramatical? Por que tantos colunistas acadêmicos abafam poetas maltrapilhos a catar ignorâncias na imundície da calçada? Por que tanto marketing pessoal a dizer bons dias de curriculum vitae? Por que tantas manchetes claras e objetivas, ora bolas, e nenhuma metáfora? Por que tanta suposta clareza e nada ou quase nada daquela obscuridade luminosa? Por que tanta matéria, pouquíssima alma? Por que cobramos dos jornais e revistas e livros e compêndios as responsabilidades que são nossas? Por que o nosso humor é tão duro? Por que o meu humor é tão concreto? Por que só damos atenção à ciência quando ela promete o milagre ou desmente o que foi  prometido anos atrás? Por que fazemos tantas piadas e perdemos cada vez mais o senso de humor? Por que não mais miudezas ao invés dessas gigantescas máscaras de um mundo espetaculoso? Por que nosso senso de observação da realidade fica aguçado quando uma tragédia promete dezenas, centenas, milhares de mortos de forma estúpida e, no decorrer dos dias em que a expectativa diminui, aposentamos nosso urubu interior? Por que tanta tecnologia e mais tecnologia e, olha só, mais tecnologia, se o que mais precisamos não tem telas, não tem teclas, não tem fios? Por que tanto ouro, tanta prata, tanto ferro, tanto silício e nenhum simples cisco no olho? Por que lemos tantos livros, jornais, revistas, sites, blogs, e-isso, e-aquilo e não somos alfabetizados em nós mesmos? Por que não podemos, simplesmente, nos calar de vez em quando? Por que não um dia inteiro de silêncio ao invés de um mísero minuto? Por que não parar um pouco e se encostar no poste do não ir? Por que não conseguimos apenas viver, trabalhar, viajar, namorar, sair pra comer e beber e voltar pra casa vivos?  Por que tantos por quês? Por que não temos respostas para nada? Por que abominamos a metafísica? Por que achamos que tudo é apenas número? Por que nos achamos no direito de criar clones? Por que devemos perguntar interminavelmente? Por que tanta buzina? Por que tanta pressa? O que tem de tão especial lá na frente que não podemos usufruir aqui e agora? Como diria o velhinho do comercial do Corsa, há sei lá quantos anos atrás, pra onde este mundo vai? 

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