Depois dos ciclos do ouro, café, borracha, entre outros, o Brasil experimenta, concomitantemente ao ciclo do roubo, o da engorda. O aumento do poder aquisitivo da classe C (consumir, comprar, comer) gerou um crescimento assustador de células adiposas. Sou testemunha ocular, quase uma cobaia involuntária, diariamente, no transporte coletivo. O que aconteceu outro dia foi incrível. Depositou-se ao meu lado uma senhora volumosa. Cada uma de suas nádegas ocupava 75% dos dois bancos. Restava-se, portanto, 50%. Como sou alto, magro e esguio - ilustrando zoologicamente, pra facilitar, uma girafa -, deu pra me acomodar ao lado daquela elefanta. Mas a história não encerra nesse encaixe do destino. Em determinado momento escutei uma voz que vinha daquela montanha gelatinosa. O timbre grave afirmava, taxativamente, que eu estava a me esfregar nela. Senti que o entorno ouvira a manifestação e repliquei. Sem conseguir olhar para o lado, afirmei, enfaticamente, que seu ponto de vista era solitário. Qualquer pessoa que estava ali na volta – consegui erguer a mão como se fora um piloto de fórmula 1 comemorando a vitória - testemunharia a meu favor em um processo contra bullying adiposo. Silêncio profundo, ao ponto de abafar a sinfonia do trânsito e os ruídos enervantes do coletivo. Usando de toda a extensão de meu pescoço, pude avistar o ponto em que deveria saltar. Num movimento brusco, deixei para trás aquele espaço onde me acomodara com a sensação de uma rolha ao ser sacada de uma garrafa de vinho ou, numa analogia menos enopoética, de um poço. O ônibus continuou sua jornada com uma boa inclinação à direita.
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