26.4.13

Meu nome é Andressa

Meu nome é Andressa

Tropeça, cai, levanta, cai de novo, um passo, outro, upa, que gracinha. Os primeiros passos foram como os de todo nascituro. Quando conseguiu, enfim, ficar em pé, um balão de pensamento voou da sua cabeça com a frase: Agora sou um profissional de verdade. 

À exceção de Picasso, quem procura, acha. E ele encontrou. Um leão atrás do outro, não em Cannes, mas na sua mesa, com vastas jubas enroladas e difíceis de destrinchar. Foi dando cabo de cada um como podia e a medida que avançava outros balões de pensamento imaginários surgiam sobre a usina da sua massa encefálica. As frases se sucediam misturando onomatopéias de todos os gêneros: Argh! GRRR! POW! BANG! BUÁÁÁÁ! GLUP!

Com o tempo, ganhou experiência, ganhou até uns CLAP! CLAP! CLAP! CLAP! Mas era tudo muito rápido. Logo, logo, lá estava ele em situações desagradáveis que se repetiam. Seus clientes não sabiam direito o que queriam, mas sabiam exigir. Por mais que se esforçasse, era sempre tratado como alguém que devia fazer algo rapidamente, no escuro, sem questionar, está pronto? 

O tempo foi passando e trouxe de carona a sensação de que sua profissão não era aquela na qual havia entrado. Ou ele errara a porta ou havia se perdido em alguma encruzilhada, num daqueles becos escuros e lamacentos em que se metia, fazendo coisas sem pensar. Seu trabalho estava mais parecido com um outro tipo de serviço, em que se faz qualquer coisa que o cliente peça e se usa um nome de guerra para disfarçar a identidade.

Foi então que ele teve uma idéia radiante. Já que todo esforço que fizera não conseguia conter nem muito menos reverter aquele desconforto, fez como o poste que fica no meio da sala e que não há como retirar. Não, ele não se pintou de vermelho. Ele criou um nome de guerra e passou a agir como todos exigiam. Foi dessa maternidade criativa que veio Andressa.

Andressa fazia qualquer coisa. Se o cliente quisesse a aprovação da esposa, do sobrinho ou da secretaria gostosa, Andressa topava. Qualquer negócio. Era preciso, além de sobreviver, criar um comportamento que servisse de couraça e o, digo, e a permitisse crescer e aparecer para crescer mais. Depois de vários e solitários brainstormings, Andressa adotou até um slogan que focava no que o cliente queria ou, em outras palavra, ia direto ao ponto: Andressa. Puta criação.

Tiro pela culatra. A primeira coisa que lhe aconteceu foi perder os direitos trabalhistas. Andressa passou a trabalhar sem carteira assinada, sem 13º, hora extra, pizza, táxi. Não há de ser nada, pensou. Andressa se sentia uma fortaleza e foi atrás dos desafios. Tudo que o cliente pedia e a cafetina da vez ressaltava que era o correto a fazer, Andressa traçava. 

Andressa fez também uma tabela de preços. Uma chamadete? Cinquentinha. Chamadinha com textículo de apoio? Cento e cinquentinha. E por aí avançava até chegar na suruba de criar uma campanha inteira., tomando pau de tudo que é lado, até mesmo da cafetina travesti. 

Hoje, Andressa é uma profissional já experiente, com alguns clientes acumulados, outros já saindo do mercado, mas está firme no batente. Como é, antes de mais nada, uma pessoa muito criativa, quando pega sua carteira de trabalho e a folheia fica imaginando que cargo ou função o sindicato indicaria para o seu registro. Muito brincalhona, Andressa tem os olhos iluminados por uma daquelas ideias que já fazem parte do seu metabolismo e vê mais um daqueles balões de pensamento voando sobre sua cabeça com a duas letras: PP. Publicitária de Programa.

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