Papelão
Primeiro foi a máquina de escrever. E com ela o papel carbono. Desse sujismundo os dedos não sentem saudade. Mas a Olivetti Lettera era parceira de um corpo a corpo delicioso quando abria o fecho éclair da capa azul com faixa vertical preta. Ela não exigia fidelidade. Suportou até mesmo umas puladas de muro com duas gostosonas do professor de datilografia, a Underwood e a Remington. Tudo indica que ela desejava ser dedilhada com maior perícia. Como o papel, aceitava tudo. E só exigia uma fitinha barata de vez em quando.
Agora proclamam que o próximo a desaparecer será o papel impresso pela imprensa, o mesmo que antigamente saía das máquinas de escrever para as de imprimir. Dizem eles que os jornais e revistas vão sumir e levar as bancas junto. Quanto mais repetem a frase, mais o veredicto se torna uma máquina de picotar o papel que faz o papel da verdade desde meados do século 18.
Ao que tudo indica, estão cobertos de razão. As provas e principais testemunhas de acusação somos nós mesmos: já folheamos e lemos mais páginas feitas de pixels do que inodoras páginas feitas de eucalipto. E não é só o papel que faz o papel de vítima das circunstâncias. A poderosa televisão também está indo audiência abaixo. Dizem que só os livros restarão nas estantes.
A fosca palidez do papel sulfite assemelhava-se a de uma musa. Já o branco da tela tem luz, brilha, tem parentesco com o espelho e seu pavio é curtíssimo - queima mais rápido do que esta frase. O instante não apenas é menos reflexivo como muitas vezes estimula a confusão entre se expressar e expelir comentários como se fossem dejetos. A grande vantagem é o grande susto: o papel some para dar lugar à liberdade das nuvens, que costumam ir ao sabor dos ventos, que ninguém sabe quem sopra.
Fazendo mais um exercício de duvidosa futurologia, imaginemos qual seria a manchete de capa de uma última edição, redigida de acordo com o bom ou mau humor do editor-chefe:
ERA UMA VEZ UMA ERA FEITA DE PAPEL
EXTRA! EXTRA! O PAPEL DA IMPRENSA AGORA É IMPALPÁVEL
MUDANÇA DE ENDEREÇO: A PARTIR DE AMANHÃ, VISITE-NOS SÓ NO SITE
NÃO FORNECEREMOS MAIS PAPEL DE EMBRULHO
NÃO ESTAMOS MAIS NA BANCA QUE NÃO HÁ MAIS NA ESQUINA
Mas sabe-se lá. Assim como o fumo em corda, o long play, o radioamador e as baleias, entre outras coisas que teimam em não ser extintas, talvez algumas publicações resistam. Recentemente, o maior grupo de comunicação sulista investiu 70 milhões de patacas em um parque gráfico que deverá mastigar gigantescas bobinas de papel. Devem acreditar no centenário de suas publicações. Pelo menos até o dia em que examinarem direitinho o que aparece na ponta do lápis. Melhor dizendo, na ponta da seta do mouse.
Em todo caso, é recomendável guardar jornais e revistas para preencher ante-salas e, principalmente, fazer companhia no espaço doméstico onde se vai aos pés. De laptop no colo, nem pensar. Deve causar a pior das impotências. E, dizem, esquenta pra cacete.
A mecânica da coisa
Operário não pensa. Gira a chave de fenda e aperta o parafuso. E aperta o parafuso. E aperta. Operário da propaganda, idem: clica, clica, clica até ajustar o layout.
Essa tragicomédia tem papéis clássicos, interpretados por inúmeros atores ao longo de décadas. Do lado abastado do enredo: o pleonasmo briefing incompleto; a catacrese pra ontem; o imperativo eu quero assim; o pessoal e intransferível eu acho; o supraoriginal copia e cola e o positivo e operante não tem verba.
Do lado de cá, compondo o núcleo (pseudo) proletário, os personagens são: diretor de criação na figura de capataz de estância; diretor de arte como ilustre e exímio operador de mequintochi; assistente de diretor de arte como dublê de diretor de arte - só que com cachê de estagiário; redator na fina estampa de artesão de frases feitas; atendimento na pele de cordeiro de office boy top de linha; planejador como expert em Power Point. E por aí vai que nem trem.
Coitadinha da mocinha encantadora chamada criatividade. De musa e modelo, passou a molde, que é aplicado ao processo de repetidas idas e vindas e alterações. O operário só acaba quando aperta o último parafuso com sua chave de fenda. O último parafuso. O último.
Os que chegam ao mercado nem sonham, mas vão direto para a linha de montagem com seus cérebros tinindo. Nesse chão de fábrica, eles logo percebem que seus sofitiuers deveriam ser feitos de massa de modelar. Logo pensam em rotas de fuga. Sucessivas. Nem todas dão errado. Algumas viram carreira solo. Tudo para não fazer parte da massa encefálica que não pensa, manufatura, manufatura, manufatura - mas não fatura.
Os salários são números, não mentem. O operário da propaganda recebe soldos rasos e sem direitos, quiçá, getulistas. Em troca, em alguns casos, ganha pizza de vários sabores. Nas melhores casas do ramo, sushi. Sem repetição.
Entretanto, uma ironia do destino cai do céu como uma lona de circo. O diferencial que a maioria das agências não encontra lá fora, junto aos clientes cabeças-duras e seguidores de fórmulas prontas, tem do lado de dentro, no coração, cérebro e útero.
Ao encaminhar suas energias criativas para outros canais, o operário da propaganda se torna um palhaço em turno integral e faz do seu habitat um mundo difereciado, um picadeiro. Sem se dar conta do que realmente está fazendo, ele doma leões, salta de trapézios, entra no globo da morte, monta cavalos e elefantes, pratica o ilusionismo e chuta a bunda do palhaço ao lado. Assim ele não percebe o macacão puído e as mãos sujas de graxa.
O macacão puído. As mãos sujas de graxa.
Asfalto versus paralelepípedo
Bagé está em uma algaravia só. O eterno prefeito e futura maior estátua da Praça Silveira Martins, Luiz Fernando Mainardi, descolou uma grana asfáltica do Banco Mundial e vai despejar piche ruas principais da cidade. Como é tradicional na bipolar cultura gaúcha - ainda mais na fronteira, que é que nem facão, só tem dois lados - , a cidade virou um Ba-guá, o Gre-nal dos bageenses.
Quem é a favor aposta na entrada da cidade na modernidade retroativa, a do impulso mecânico e futurista do século XX. Quem é contra defende as tradicionais pedras lascadas como símbolo de uma tradição e pelos benefícios ao ambiente, aos transeuntes e ao orgulho municipal da província. Eis o manifesto dos contra:
Viva a pedra! Viva o paralelepípedo!
"O que deixa Bagé esquecida no tempo são suas ruas velhas e cheias de pedras. O Prefeito é um traíra trabalhando contra nossos antepassados.
Abaixo o Prefeito eterno!
Já jogaram a turma Bá-Gua para a segundona. Já demoliram o velho Mercado Público. Já quiseram trocar o nome do Ginásio Militão para outro que não lembrasse o ditador e a Ditadura. Como será Bagé sem as lembranças de sua eterna mesmice e esquecimento?
Viva o esquecimento eterno! Viva a mesmice! Chega de modernidades!
Bagé existe para fazermos a eterna psicanálise e voltarmos no tempo. Este prefeito é um anti-Freud. Só falta querer fazer viadutos na cidade. Túneis! Ora, bolas, só falta, agora, industrializar Bagé; levar grandes montadoras; grandes universidades.
Não! Não passarão!
Bagé deve ser a eterna Rainha da Fronteira, Monárquica como sempre foi.
Viva o muro de Pedra! Abaixo o nauseante petróleo que querem espalhar pelas ruas!"
Consta que boa parte das reclamações vem de parcela específica da cidade e nem um pouco minoritária: os cavalos.
Também há relatos sobre uma suposta ação dos contras. Eles arrancariam os paralelepípedos e ergueriam um forte de austeros muros para impedir a entrada dos arigós com suas máquinas. O nome: Santa Tecla 2, a Revanche.
Dizem ainda os defensores do paralelepípedo que o asfalto aumentará o calor e a seca, aumentará o número de atropelamentos e, por causa da impermeabilidade, inviabilizará o saneamento básico, o que seria uma merda, literalmente.
Também há insinuações mais perversas. Como o paralelepípedo destrói o esqueleto dos automóveis, sussurra-se nas esquinas da Rainha da Fronteira que os defensores da pedra lascada são os donos de autopeças e oficinas. Mas tudo isso pode ser apenas boataria daqueles que defendem o rolo compressor do progresso retroativo.
Comenta-se, à boca pequena na Baixada, que o asfaltamento é só o começo. Depois vem aquela proposta do Zoinho: um viaduto que comece no início da Osório e termine lá por São Domingos.
Fala-se, também, que um tradicional defensor das raízes pampeanas teria lascado essa, numa barbearia:
- Como os cavalos vão se planchar na bosta no desfile do 20 de setembro sem os paralelepípedos?
E por aí vai a desdita, bem a la Bagé.
Z
Os muros do país exibem a letra Z, garrafal, traço encorpado, rápido e solto, tinta preta. A população não se espanta. Pelo contrário, torce pelo Z como torce pelo seu time de futebol, pelo seu filho no vestibular. Articulistas da imprensa comentam o Z favoravelmente. Sempre que podem, os cronistas procuram usar palavras com a letra Z em seus textos para fixar a mensagem. O blog Z fornece detalhes das ações já ocorridas, com fotos e vídeos detalhados. Os comentários que seguem, aos milhares, são entusiasmados. Z manda seus gorjeios pelo Twitter, com milhares de seguidores. Adesivos e camisetas Z se esparramam pelo território nacional. A bandeira Z surge nos estádios ao lado das bandeiras dos times. Z vira tema da Mangueira e vence o carnaval. Z vira peça de Zé Celso. A exemplo da língua do P, surge a língua do Z. Z vira uma gíria contagiante. O Z riscado no ar com o indicador, linguagem de surdo-mudo, se populariza. Z não tem nada a ver com Zorro. Nem é teaser de um filme da Pixar sobre o alter ego de Don Diego De La Veja. Z é uma ideia com um objetivo: erradicar os corruptos da face da terra brasilis usando, apenas e tão somente, zarabatanas.
Para alcançar o objetivo o Z se dedica a zarabatanear as legiões de depravados de colarinho branco que sugam a nação desde sempre e que se escondem no executivo, no legislativo, no judiciário e no mundo privado. Um sopro robusto e lá vai a seta na direção do pescoço do safardana. O arremesso também pode ser direcionado à derriére. Depende da posição do cretino.
Mas o Z não é um grupo terrorista. Sua ação é sem bombardeios, sem homens-bomba, sem sangue e, também, sem mortes. A substância untada nas setas arremessadas é utilizada em dosagem suficiente, apenas, para dopar, apreender e encarcerar. O encarceramento não é em presídios, local onde os meliantes certamente se safariam. É no Zorra Total Nunca Mais, um zoo-museu em que os homo corruptos são exibidos até definharem, para a alegria geral. O currículo de cada um deles é exposto na jaula para que o visitante tenha a noção exata dos crimes cometidos pelo cara de pau. É permitido, melhor dizendo, é altamente recomendável jogar qualquer coisa nos macacos zuretas. Menos pipoca e amendoim.
Para ser membro do Z basta ter bom pulmão, ótima pontaria, disponibilidade de horário e estar disposto a viajar pelo Brasil, quiçá pelo mundo, já que muitos dos perseguidos roubam aqui mas fogem para gastar lá fora.
A zarabatana utilizada nas ações é ecologicamente correta, feita de bambu, como faziam os ameríndios para caçar animais e, também, nas refregas entre as tribos.
Z é a salvação nacional, cirúrgica, inovadora e exemplar. E dá uma boa história em quadrinhos. Talvez um filme com o patrocínio da Petrobrás.
Rasteira
Essas coisas não me saíam da cabeça, dormiam se mexendo, acordavam, estavam vivas, estão. O que aconteceu, que roupas são essas, como vim parar aqui. Nem pista. Eu acendo que nem farol todos os dias neste mesmo lugar e assisto. Ela tira remelas dos olhos, às vezes nem lava o rosto. O sol é abajur de lâmpada fraca, eu escuto. Portas e janelas abrem e fecham. Vozes vêm, palavras longe, palavras por perto. Alguém boceja como um leão, alguém assoa o nariz como guarda de trânsito. O locutor no rádio é o meu relógio e, educadamente, repete as mesmas notícias, as mesmas, notícias. E tem uma mulher que geme a manhã. Os gemidos são pássaros desengaiolando de um apartamento. Tem gente que bate janela, de incomodado. Pouco se importa, a mulher. Toda manhã, geme de prazer. É assim que ela acorda, a cidade, aqui nessa pequena rua de calçadas largas, um beco sem saída, nas minhas costas, mais pro lado.
Os motores começam a roncar no logos depois. Os portões das garagens se abrem, os pneus saem correndo atrás de asfalto. E os ônibus. Ônibus é um treme-treme só quando passa. Aquelas caras nas janelas eu nem olho mais de ver, ver mesmo, com os olhos. Algumas vezes um desses rostos me leva pelo olho, me arrasta. Sinto o ônibus passar sem olhar pra ele, sem mirar suas janelas e aqueles quadros estranhos. Não quero pegar carona. Na posição em que estou, fugir dessas imagens é um exercício, um passatempo. Agora, por exemplo, lá vêm eles de novo. Não os passageiros do ônibus. Não. Os que estão vindo agora são os poucos que fazem questão de mostrar que me enxergam. Não sei há quanto tempo estou aqui. Mas, se alguém quiser saber, pergunte a eles. Passam se arrastando, sendo puxados, gritando como se fosse eu da família do cão danado. E não eles. Eu devia ter algo comigo, alguma coisa que me ajudasse a alcançá-los a uma certa distância. Sempre lembro tarde, depois.
E assim o dia se adentra. Outra vez o carro estaciona bem na minha frente. Alcança a calçada o salto de um sapato com um pé delicado dentro, mulher. É o primeiro toc. Os sapatos lustrosos do homem chegam do lado. Eles passam lado a lado, um atrás do outro num toc, toc, toc, toc daqueles e entram no prédio. Esses aí são cães de outra espécie, fazem questão de deixar bem claro que eu não existo. E o carrão, parado: motor 1.8, 16 válvulas, bancos de couro, injeção eletrônica, freios ABS, air bag duplo. É o que vejo na revista do ano passado, aqui em mãos. O carrão dele é do ano. E daqui a pouco já é o do ano que vem. E o air bag duplo eu nunca vi, mas nem precisa. Tem os dela.
Ninguém nota minha presença, nem quando me levanto e saio a caminhar. Tudo dá a entender que sou invisível. Só a dona Matilde me percebe. Ela sempre me traz comida, quentinha. Depois volta pra pegar a marmita já fria e fala um pouco mais. Uma voz doce que se aproxima, se aproxima. Quando já está bem perto, se despede, na hora exata. E o Alemão, que me serve café com pão e margarina, já não é tão bom com a temperatura humana, mas é gente. Não se usa mais manteiga, diz ele. Colesterol. O Alemão diz que vai viver uns 120 anos. Já os fregueses, se chegarem aos 50 não vão muito além. Bebem e fumam e comem mal e discutem o tempo todo. O cachorro quente também não dá para esquecer. Um dos clientes menos vira-lata do Alemão me traz um, fumegando, completíssimo. As palavras e a saliva se misturam com salsicha, molho, queijo, milho, maionese, tudo. Nem dá pra agradecer.
Só tenho que me cuidar com outros cachorros que aparecem. Esses cães a gente não come, eles é que querem tostar a gente só pelo prazer de ver o corpo assando embaixo da ponte. Por isso, entre outras, escolhi a calçada, esta. Já lavaram o Copinho, que era epiléptico, a Joaquina e até o Louco Dão, um dos primeiros por aqui, um desbravador, um cara que fazia contas astronômicas, falava 7 línguas misturadas, menos português. Lavagem braba. Lavaram de fogo. Ainda sinto o cheiro de carne misturada com trapos velhos, jornais, tudo ardendo, em chamas.
Eu não durmo bem. Desmaio. O susto abre o olho, qualquer coisa, tipo bipe. Tudo continua bem quando acordo no outro dia e estou assim, vivo, pelo menos. Hoje estou. Olha o motor 1.8 aí, ele de novo. Ué, cadê a air bag duplo? Não veio. Enxaqueca, deve ser. Compras, shopping? Ôpa, não olha por onde anda? Nem assim me vê. Deve estar preocupado com alguma coisa. Ih, nem tinha notado. O do sapato lustroso tropeçou em mim. Meu pé parece deu sinal de vida, está formigando, acordou. Nada mau.
Tem horas do dia que eu nem sei como passam, acho que elas pulam e pronto. Esqueço tudo, um longo espaço em branco, como uma vaga para o carro estacionar, ou dez carros ou um comboio de caminhões. Talvez tivesse dormido, mas não. Só durmo à noite. Imagem na cabeça quando acordo, hoje mais. O cara do carrão tropeçando no meu pé. Me deu idéia. Fazia tempo que não caía nenhuma aqui. Idéias de bandeja. Idéias voam, parece. E de repente saltam em cima de alguém. Tem que arriscar. Vou esperar a próxima vez, a dele.
É ele. Estaciona, estaciona. A porta do carro abre, fecha, toc, toc, toc. Só ele desce. Ele está chegando, será que vou ter coragem? Está perto, mais perto, mais… toma. Ih, dói. Mas ele cai. Vamos, agora foi. Arrasta, arrasta, arrasta. Nossa, como pesa. Gente olhando. Arrasto mais, pro beco. Vem, vem, vem. Pronto. Vamos tirar paletó, gravata, camisa, calça, o resto deixa aí pra não expor as vergonhas do coitado. Agora tiro os meus trapos, isso, jogo em cima dele. Visto tudo, menos a gravata, fico pro depois – será que eu sei dar nó em gravata? E vamos lá. Tem gente no caminho, de olho. Sai fora. Qual é? Sai da freeeeeente. Chego. Entro. Air bag duplo. Sorriso largo, cabeça pendendo para o lado. Um beijo. Ela quer arrumar minha gravata. Dou partida no motor e ela afunda no banco de couro, pra trás. Olha ele lá, caído. Quando acordar ele vai ficar pensando no que aconteceu, que roupas são aquelas, como veio parar ali e todas essas perguntas que não me importam mais. Ele vai ter de lidar com o hematoma. Dói, incomoda, mas acostuma.
sinistras sinapses sucessivas
I
aquele louvado seja deus que eu não tomei feito hóstia está fazendo efeito na minha sala de cinema favorita, aguardando a sua ausência sair de cartaz, como um impossível malkovich descanso o olhar numa espécie de lânguida ausência de sentido, as palavras se despedem citando fiódor sobre a igreja de nossa senhora das dores
II
entre o fim e o começo tem uma ponte, trêmula ou firme, lá está ela, feito hífen, ligando o que vem antes ao que está onde será o agora, o que termina nem chega a virar cinza e o vento o leva para o que está começando, só cartier bresson para clicar tanta prestidigitação, o encontro do que se despede da lógica da realidade que nos cega e abraça a lógica do espanto do lado avesso, o estranhamento, a súbita aproximação do desconhecido que se conhece, você vai achar que tropeçou e está caindo, mas é só o chão firme das certezas voando sob seus pés, o hífen ligando o que termina ao que começa, o fim que só tem fim quando o começo, finalmente, inicia, e o começo que só dá a partida se o fim chegou a ele mesmo, uma ponte que nos atravessa e nos deixa com o desejo de voltar ao começo, lugar onde sempre estamos, num labirinto de encruzilhadas
III
o som da revolta foi ficando e a brasa da fúria esfriou, os olhos acomodaram-se, como que dizendo tudo bem, é assim mesmo, vamos em frente, o que estivemos falando não importa, o que importa é escrever ao mesmo tempo em que o trem nos trilhos, ah, eu sei, eu sei, você está achando tudo isso muito confuso, claro que sim, eu também, hermético, obtuso, francês, vamos tomar um café, então, acender um cigarro, folhear o jornal, torcer pra continuar morrendo nessa velocidade de relógio suíço, sem queixas
IV
quando Wilde disse que os grandes acontecimentos do mundo têm lugar no cérebro, ela ficou brava, com ciúme daquela certeza expelida com aroma britânico, era só o que faltava, um eletrodoméstico com sentimentos, maus sentimentos, por sinal, porque os bons não dão audiência e súbito ela voltou com a sua programação normal, de olho nas investidas subversivas da linguagem
V
o sistema nervoso central pode ser comparado a um supercomputador capaz de processar um número inifnito de bits de informação e determinar a resposta a ser executada pelo organismo, a sinapse é uma região de comunicação entre o axônio de um neurônio e o dendrito de outro ou da membrana de uma célula, a mensagem de um axônio para um dendrito ou uma membrana celular é transmitida por neurotransmissores ou neurormônios, 99 por cento das informações são descartadas, cada vez que um determinado impulso sensorial passa através de uma sequência de sinapses, elas tornam-se mais capazes de transmitir o mesmo impulso da próxima vez e depois de um grande número de vezes a pessoa tem a sensação de experimentar a situação original, embora se trate apenas de memória, apenas lembrança, o que nos resta, enfim
VI
não tem hora nem lugar, ela é assim, chega, instala seus procedimentos neurológicos até que os dedos obedeçam, cegos e súplicos, dando andamento aos impulsos, tentando filtrar as palavras despejadas pela corrente sanguínea virtual, o próprio cérebro em luta consigo mesmo, um lado nervoso, ativo, o outro paralisado, atônito, tentando compreender o que está acontecendo, que música não está tocando, que dor foi adormecida, que sol está por se pôr, quantas nuvens estão por passar, que horas são no big ben, que horas são na casa branca, que horas são na santa casa, que horas são no coração do mano chao, por que seu olhar está preso numa paisagem urbana e que quadro branco é esse sendo tomado lentamente por letras, letras, letras, letras, letras, letras, letras, letras, letras, sempre sinistra, sempre sinistra é a memória
A mulher faz o homem
Tropeço. Busco risos atirados sobre a minha falta de jeito quando me deparo numa sala branca infinita e uma mulher comendo palavras e bebericando seu pincel numa taça de cabernet sauvignon. Quadros pingam de sua imaginação. Tropeço de novo, agora no meu silêncio. Ela diz que meu gatilho é rápido demais, embora eu sequer tenha pólvora e dispara seu nome. As palavras duelam na sala cada vez mais distante de sifnificados. Jatos curtos, de um lado e de outro, caem sobre o branco, sumindo. Como as pinceladas de vinho. Holograma. Cidade à beira do rio. O ângulo visto de uma sacada. Em outro mundo. Aquele que foi criado por um artista auto-didata que não gostou de sua criação e condenou-a à morte pela autodestruição. Fugitivos desse mundo só encontrariam refúgio nas drogas e/ou na imaginação. As drogas apressariam o extermínio. A imaginação abrandaria a dor da pena imputada sem clemência. Em bandos ou a sós, viveriam anestesicamente iludidos, apartados daqueles que suportam a seco seus suplícios. Ela vai e vem em suas frases variantes, onduladas, pequenas jangadas em alto mar. Eu me abraço, vão. E devolvo bóias salva-vidas, não porque ela insinue salvamento, mas por que talvez deseje ver de perto suas mãos antes de ser paralisado pelo seu olho direito diante do meu, o esquerdo oculto sob um clic.
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A mulher faz o homem
Tropeço. Busco risos atirados sobre a minha falta de jeito quando me deparo numa sala branca infinita e uma mulher comendo palavras e bebericando seu pincel numa taça de cabernet sauvignon. Quadros pingam de sua imaginação. Tropeço de novo, agora no meu silêncio. Ela diz que meu gatilho é rápido demais, embora eu sequer tenha pólvora e dispara seu nome. As palavras duelam na sala cada vez mais distante de sifnificados. Jatos curtos, de um lado e de outro, caem sobre o branco, sumindo. Como as pinceladas de vinho. Holograma. Cidade à beira do rio. O ângulo visto de uma sacada. Em outro mundo. Aquele que foi criado por um artista auto-didata que não gostou de sua criação e condenou-a à morte pela autodestruição. Fugitivos desse mundo só encontrariam refúgio nas drogas e/ou na imaginação. As drogas apressariam o extermínio. A imaginação abrandaria a dor da pena imputada sem clemência. Em bandos ou a sós, viveriam anestesicamente iludidos, apartados daqueles que suportam a seco seus suplícios. Ela vai e vem em suas frases variantes, onduladas, pequenas jangadas em alto mar. Eu me abraço, vão. E devolvo bóias salva-vidas, não porque ela insinue salvamento, mas por que talvez deseje ver de perto suas mãos antes de ser paralisado pelo seu olho direito diante do meu, o esquerdo oculto sob um clic.
A plenos pulmões
Ele chega na rodoviária e logo fareja uma revistaria. Precisa anotar o que aconteceu há poucos instantes, mesmo que de forma confusa.
As anotações seriam pistas para quando ele se perdesse em devaneios. Ele encontra uns blocos pequenos de 40 páginas e uma caneta esferográfica. É o que precisa. Sai, toma café, senta-se no saguão vazio e se põe a escrever.
Sua caligrafia está péssima. Desacostumara-se a escrever à mão pelo uso do computador. A letra tinha de ser miúda, mas o seu traço estava desgovernado. Ele psicografa, uma escrita automática ditada pelo seu inconsciente que acaba de acordar.
Ele tinha se encontrado com ela depois de longos anos de esquecimento, em razão de um telefonema dela que o deixou perplexo, não com ela, mas com o que sentiu: vontade de vê-la, de saber dela, de contar dele. E foi, sem pensar.
Na ausência de maior entendimento, achou isso muito estranho, palavra que ele não gostava, pois não definia nada. Mas ele foi. Ele respirou fundo e foi.
Ficaram frente a frente e se puseram a falar quase que imediatamente, como que querendo preencher o vazio de todos aqueles anos em que não se falaram um só dia, num ímpeto que só cessaria horas e horas depois.
Quanto mais tentavam falar de si mesmos ou do outro, mais inseriam personagens que tornavam a trama uma coleção de fragmentos inexplicáveis. Não conseguiam juntar coisa alguma. A trilha sonora era o coro de suas vozes que se sobrepunham ou se alternavam bruscamente ou permaneciam mansas na perseguição de um fato ou faziam um silêncio ensurdecedor.
Atacavam com frases, numa esgrima desesperada. As palavras eram como balas perdidas. Falavam sozinhos, monólogos disfarçados de diálogos. Seus olhares eram densos, fechados, tristes, sanguíneos. Poucos sorrisos rompiam aqueles cenhos enrijecidos e marcados pelo tempo. Só algumas gargalhadas ultrapassavam aquelas muralhas e estouravam no ar com estridência cínica, debochada, meio amarga.
Suas mãos não paravam. Seus troncos e membros não se moviam com desenvoltura. Por baixo da mesa dos assuntos ou por trás dos panos daquele teatro, ansiavam e temiam pelo momento em que o encontro iria confirmar a despedida que já estava acontecendo desde o momento em que se viram de novo.
Não saberiam como agir, tudo que dissessem ou fizessem representaria o contrário. E talvez nada significasse, para os dois.
Ele se sente traído. Ela se sente traída. E não conseguem identificar quando, como ou por quem. Estão incomunicáveis, mais uma vez, como naquele tempo perdido em que se conheceram. Mas não param de falar, dizer, mostrar, evidenciar, sublinhar, frisar, asseverar, reiterar, repetir.
Ele pensa que depois irá escrever sobre aquilo tudo, num ritual exorcista. Ela esperava que ele fizesse isso mesmo, pois suas ações nunca a surpreenderam. E ele da mesma forma com as acusações repetidas jogadas ao mar das lamentações.
Ele já não estava mais no saguão. Seu ônibus havia partido e seguia pela estrada. Ele observava sem apontar os olhos, que alvejavam o verdume abandonado que escorria pela janela e o fazia se sentir nos trilhos, outra vez.
Diante dela, ele percebera que tudo que estava próximo parecia distante e vice-versa, o que tinha significado para um não servia para o outro. As recordações eram distintas.
Tentavam amenidades, falavam sobre discos e livros, sobre o que ouviam e liam, mas tudo ficava por concluir. Não aparentavam ter a mínima disposição de aceitar um fato novo, embora fizessem perguntas um ao outro querendo respostas claras, elucidativas, que aliviassem o torvelinho de sentimentos que os envolvia, um furacão de frases soltas debatendo-se naquele ambiente perplexo.
As respostas mandam pistas, mas não vêem. Os assuntos pegam bifurcações perigosas, com revelações que precisavam ser pensadas mas que saem de uma hora pra outra como uma tosse incontida.
Quando passaram pelo assunto, observavam a reação um do outro para quem sabe perceber um olhar que se traia ou um gesto que denuncie o que sentiram naquela época.
As páginas do bloco de anotações chegam ao fim. O ônibus pára, aos solavancos. A porta se abre. Ele desce. E seus pulmões se enchem de ar outra vez. Toda a paisagem está insuportavelmente nítida demais. É preciso reescrevê-la.
Açúcar e sal
Angelina debruçava seu imenso corpanzil sobre uma vasta mesa de madeira aparentemente tão maciça quanto ela. Uma caneta entre os dedos grossos servia-lhe de instrumento para desenhar palavras no papel, com tinta azul e caprichada caligrafia, a mesma que usava em seu caderno de receitas cheirando a açúcar União. Não, ela não era escritora. Ela cozinhava, limpava a casa, plantava tomates, criava galinhas. Quando sentia a distância de seus filhos, escrevia cartas tão pacientemente quanto tentava me fazer comer três vezes ao dia e rezar antes de dormir. Era assim que ela os trazia para o seu colo uma outra vez, para acariciá-los, dar-lhes conselhos e dizer-lhes as palavras bondosas e apreensivas de mãe. Não tenho como saber o que ela sentia naqueles momentos ou o que exatamente escrevia, uma tristeza resignada, uma felicidade contida, talvez ela virasse o rosto na hora em que alguma lágrima umidecesse a carne marcada do seu rosto. Não tenho como saber. Mas acho que minha vó foi sábia ao escolher a herança que iria me deixar. Hoje eu gostaria de repetir a experiência dela com alguma semelhança. A caneta não lembro qual era, mas o seu desenho nunca mais vi, rechonchudo como ela, algo descartável como todos nós. O papel carta, de acabamento simples, nada requintado, mas de uma delicadeza que se assemelha a de um ser humano diante da sua verdade. É o que pretendo fazer agora, deixando-me aqui sobre essa mesa, com minha caneta-brinde entre os dedos, desenhando palavras para trazer pra perto de mim alguém que está muito distante, talvez em outro mundo, onde há sempre um quase insuportável arco-íris atravessando a paisagem de lado a lado, prometendo potes de ouro. Quanto mais eu percorro esse caminho, mais me dou conta de que não vou encontrá-la por ali. Ela não está. Como será que minha vó agia nesses momentos? Não tenho como saber, nunca li uma carta dela. Ela também nunca as leu pra mim. Fazia parte de sua estratégia aguçar a minha curiosidade por aquilo que não vemos. Minha vó se esvai na memória e eu devo dizer que sei exatamente por que aquela pessoa a qual me refiro não se encontra mais no mundo dela. Sabia desde o início, talvez, só estava aguardando o momento de tomar consciência disso, de fato. Devo dizer que ela atreveu-se a entrar no meu mundo, inadvertidamente, com aquele sorriso que às vezes está na frente dos olhos e outras finge esconder-se atrás deles. Devo escrever não para trazê-la pra perto de mim, mas para resgatá-la ao mundo dela. Não sei se uma carta tem esse poder. Vez ou outra eu via as filhas de minha vó aparecerem lá em casa num DKW. Mas eram tão poucas vezes que eu não confiava muito no poder das palavras tão carinhosamente desenhadas por ela. Eram breves momentos, breves frases, rápidos tchaus, vazios imensos no olhar dela - vazios de congelar um instante. Se vou conseguir, não sei. Sei que devo terminar essa carta porque já coloquei todos os ingredientes da receita.
Bela bunda, né Cabral?
A agência de publicidade inglesa M&C Saatchi expandiu suas ambições para o Brasil e, antes mesmo de começar a trabalhar pra valer, já lançou algumas declarações bombásticas e nada inglesas.
Na verdade, uma das declarações é quase uma batata quente atirada sobre nós: a de que o maior anunciante de varejo do Brasil – ele não disse o nome Casas Bahia - faz umas porcarias de anúncios. A palavra que saiu da boca do publicitário inglês encarregado do projeto, Geoffrey Hamilton-Jones, foi porcaria mesmo. Em bom português. Por extensão, referia-se a todo o segmento de varejo e sua comunicação sem criatividade, ousadia e mensagens fortes e explícitas, apenas produto, produto, produto e preço, preço, preço. O que já é uma comoditty do nosso mercado. Todo varejo age assim o tempo todo para dar a idéia de que existe uma busca pelo preço mais baixo e pela valorização do cliente. O que é uma idéia chata e repetitiva, além de mentirosa.
A M&C Saatchi defende outra coisa, o conceito de brutal simplcity. Tentando traduzir, quer dizer passar o máximo denominador comum e sintetizado de uma mensagem para atingir o consumidor e se fixar em sua mente. Brutal simplicity pode ser comparado a um beijo roubado, uma cantada sutil, um drible genial ou um soco na boca do estômago. Depende do momento. Da estratégia. Dos culhões do anunciante.
O anunciante brasileiro, em geral, não tem esses órgãos muito desenvolvidos. Sabe-se lá por que motivo mercadológico, antropológico ou fisiológico. Mas é visível que a nossa propaganda, internacionalmente reconhecida como craitiva por suas tiradas bem humoradas não avança muito na direção da superação de paradigmas. Traduzindo: nossa criatividade é certinha, bem diferente da inglesa, que passa por cima de terrenos perigosos sem medo de pisar em minas morais.
Até mesmo na questão estética nos diferenciamos. Salvo raríssimas exceções, toda nossa propaganda é feita em cima apenas do belo, do corpo. Na Inglaterra, não. O feio, ou a pessoa comum é muito valorizada e utilizada na propaganda.
Pode-se argumentar, divertidamente, nesse aspecto, que a simpatia da Família Real Inglesa endossaria o costume, transformando-o em hábito, mas o certo é que não apenas nossas formas de se comunicar se diferenciam, bem como nossas culturas estão em campos completamente opostos.
Isso gera curiosidade. Para ser mais claro, a seguinte: será que essa M&C Saatchi vai emplacar por aqui? Como os empresários e anunciantes brasileiros vão encarar essa visão ousada, que aposta mais em mensagens fortes do que nos tradicionais recursos da nossa publicidade, muito chegada na celebridade, na mulher bonita, na idéia engraçadinha, mas mercadologicamente fraca. O que será mais brutal entre nós: a simplicidade ou a simplificação?
Vejam: http://www.adnews.com.br/publicidade.php?id=85837
Pós-poropopós*
Como diria Gaspar, o Silveira Martins, idéias não são metais que se fundem. O Twitter é uma das provas cabais. Tuitar é escrever qualquer coisa às pressas para qualquer um ir atrás, correndo. É hai-kai de e-mail, sintaxe MSN de três acordes. O pós-moderno não conecta raízes fundas, mas na superfície de um passado bem longínquo e wiki.
Mania pós-poropopós essa de seguir os 140 caracteres de um Paulo Brito ou de um Vitor Fasano. Fakes do fake. Ou de seguir Marcelo Tas - 21 mil devotos -, o fake original.
Tutty Vasques já tuitava muito antes da rede entubar a raça. Banaliza bem, ainda. Millôr já livre-pensava, eruditava em gotas. Duailibi lucrou com o fraseado alheio. Ruy Castro, idem. Arnaldo Jabor, na TV, ibidem. Frase curta, efeito rápido, sintaxe en passant.
O alheio é a mania do Brasil, país onde se amealha porque a maioria está alheia a tudo. Nos poderes constituídos, furto é exercício de alongamento.
A evolução tecnológica prova que a raça tem muita capacidade para inventar e pouquíssima para se respeitar. Nas mãos dessa gente, as melhores invenções se tornam vis.
O humano é singular. Os sentimentos são a camuflagem dos 17 pecados metálicos. Se tivesse peito, a maioria saía por aí a deletar. Só uma estupenda minoria tem a coragem do assassínio. São os que assinam a história.
Todo humano devia ter uns cobres. Um milhão, nem mais nem menos. Seria o socialismo capitalizado. Um marxismo adam smithiano, sem keynesianismos. Na ditadura da economia, a política é finanças.
Sem entrelinhas nas entranhas, ó, pá.
Atrás do seu milhão o dito cujo trabalharia xises anos e, pimba, levaria o seu níquel. E faria o que bem entendesse com ele. Mesmo.
A eruditalha acha trocadilho pensamento tonto, tolice de superfície. Shakespeare trocadilhava a rodo. James Joyce, idem. Entre tantos que veneravam a tontura.
O que se lê é como o que se come. O alimento deglutido será usado depois, organicamente. Cada um faz o que pode com a sua merda.
Se eu fora um idiota no BBB, atuava. A expressão só em 140 caracteres - masomenos, vá la. Televisivo, diante das câmeras invisíveis, passaria por inteligente. Ganharia os votos do povo e do Bial e, uau, levaria o meu vil quinhão.
O meu milho seria meu. Enfim.
Pós-poropopós é isso, parece no mole. Escrevi correndo, fui - alguém revisa?
* Expressão criada no jornal de bar Gim c/ Crônica, em 1987, Bagé City.
Postado por André Martins às 5:43 PM 0 comentários Links para esta postagem
O que é bageense
Corriam os anos 80 do Século XX. Uma turma de bageenses, devotos da mesa de bar e de idéias risíveis - entre elas, a justiça social - se reúne num bar do Bom Fim, em Capital Porto Alegre. Lá pelas tantas, o assunto do torrão natal transborda como a espuma da cerveja servida com imperícia e se derrama sobre a mesa. Os comentários disparam como cavalos numa cancha reta. Um dos convivas lança uma idéia inusitada: propor à Editora Brasiliense a publicação do título “O que é bageense” na sua famosa coleção Primeiros Passos. A brochura teria o objetivo de consertar a distorcida imagem dos nascidos sob a barra da saia da Rainha da Fronteira. Ou arruiná-la de vez, isso nunca ficou muito nítido devido à ausência de um mediador consensioso. O tom do opúsculo seria de simpática advertência. Algo mais ou menos assim.
Caro amigo, se um dia tu tiver coragem de ir a Bagé, pega tua bússola e bornal, o rumo do sul, te põe a caminho e te esquece. A pernada é longa, mas aqui vai uma pista: quando a paisagem começar a engolir as edificações de beira de estrada deixando apenas um imenso e esparramado território inóspito à tua frente e por todos os lados, onde um verde desolado domina e o cheiro das pastagens se mistura ao do adubo orgânico das vacas, é porque chegaste. Verás bonivos, equinos, caprinos, algumas árvores de soslaio, eucaliptos, araucárias, salsos-chorões. Lá é tudo assim. Nada sai do lugar. A vida é enraizada em si mesma, ruminante.
Entretanto, caro viajante, a exemplo de tantos outros lugares de todos os formatos que há no mundo, o que a Rainha da Fronteira tem de melhor é a sua gente. O bageense é um grosso e assim se define, uma vez que não tolera eufemismos. Mas é um grosso pecualiar, quiçá filosófico. Vai da maneira enfática de expressar uma opinião ou um dissabor até a maneira igualmente robusta de demonstrar algo aproximado da admiração e do respeito pelo outro.
E atenção: para o bageense, és uma incógnita, és o estrangeiro. Ou um fresco bodoso, na linguagem local, mas não te ofenda que isso é elogio. O bageense é curioso com o que vem de fora, embora seja ressabiado, já que, em sua história, geralmente o que vinha de fora era carga de cavalaria despejando muita bala.
Apesar disso, o bageense é hospitaleiro, ou melhor, se aprochega logo porque tem uma certa carência de gente nova, já que por lá é sempre a mesma gente velha. Portanto, quando conhecer um bageense amiúde, te prepara. Ele espera “aquele” aperto de mão, a não ser que a mão seja delicadamente feminina. Se tu és homem, ou usa de alguma força ou perderás a mão. E o abraço é o famoso quebra-costela. Portanto, te apruma que o tranco é forte.
A mulher bageense, caso te interesse. É ao contrário do bageense macho. É dada mais ao estrangeiro do que ao local. Ela percebe de chofre a chegada de um visitante e fica timidamente assanhada, porque conhece o perigo desse pecado. Não vai te fresquear logo ao primeiro desses olhares brejeiros, discretos. Bueno, estás avisado.
E, veja bem, está comprovado que as piadas sobre a viadagem que lançam sobre o bageense são coisa de pelotense. Não convém repeti-las nem mesmo naquele momento do churrasco em que todos, enfim, estão mais à vontade graças aos efeitos da pinga. Bageense e pelotense não se cruzam. Se o visitante der de cara com dois deles se bicando, aparte porque é briga. Ou atentado ao pudor. Ou as duas coisas numa só e ao mesmo tempo.
Quando andar pela cidade, fica atento aos detalhes para não te perder. O municiípio é tão grande, vasto, largo e vazio e de repente vira um deserto. E é seco. Só um rio, fininho, sem abundânica nenhuma, chamado Valente. Mal dão ali uns lambari, uns bagre, umas traíra. E só.
E não te assusta com o encontro de dois bageenses que não se viam há muito tempo. É como uma batida de carro, a pechada. Bageense é tão ligado um no outro que mantém os laços para todo o sempre. E passa a vida inteira fazendo troças íntimas sobre outro com aquele duplo sentido que Freud explica e o Analista de Bagé assina embaixo. A não ser que briguem. Aì a coisa muda de figura. Passarão o resto da vida de mal a pior.
Outra coisa peculiar sobre o bageense é que ele leva Bagé junto, seja pra onde for. Mesmo em exílio voluntário pelo Brasil, bageense nunca se separa de sua opinião sobre as coisas, seu jeito de pisar no chão e olhar o mundo com uma coisa grande, imensa, mas sempre menor do que o seu pago.
Bueno, se algum dia te atrever a ir até lá, vai pela sombra. E te cuida.
Polêmica?
No ano que passou, o jornalismo perdeu até para a propaganda em matéria de polêmica. O bafafá entre Ninzan Guanaes e Fabio Fernandes repercutiu mais do que as tentativas jornalísticas de travar batalhas com as armas dos fatos, das interpretações e das ideias.
Jornalista perder para publicitário no campo da polêmica é como engenheiro ser derrotado por arquiteto na hora de erguer um prédio. O jornalismo tem de revidar. Por isso, não seria de todo ruim fazer um exercício de imaginação inspirado no que ocorreu com os dois vaidosos publicitários. Lá vamos nós.
Em um painel da imprensa sobre temas necessariamente polêmicos, duas figuras com visões de mundo opostas se encaram. Do lado esquerdo do ringue, pesando anos e anos de jornalismo engajado, exibindo seu cético, porém generoso olhar de desdém, contando com o apoio de seus guerrilheiros do Observatório da Imprensa, Alberto Dines; do lado direito, jogado nas cordas, pesando toneladas de raiva contra tudo que venha do outro lado e exalando deboche até em silêncio, apoiado pelos manda-chuvas da revista Veja, Diogo Mainardi. O fato de Mainardi não ser jornalista só acirra a peleia. É o vale tudo da imprensa brasileira. E promete muitas escaramuças.
Dines avança com jabs - de esquerda, obviamente. Mainardi, por seu turno, parte logo para o direto - de direita. São cuidadosos porque são adversários ideológicos e se engalfinham numa refrega histórica. Usam de todas as armas: fatos interpretados, acusações, arrogância, deboche e blefes, chegando ao alto nível das ofensas precedidas de pronomes de tratamento, a pausa nobre que antecipa uma nova estocada, que se pretende final.
Quem vencerá? Nós, o público, o leitor que não se satisfaz com a imprensa que só copia e cola e que só persegue celebridades. Queremos ver algo escorrendo, o suor do trabalho intelectual hercúleo, o sangue das ideias no campo de batalha. Queremos saber quantas bofetadas verbais podem dar, como se comportam no ringue do debate, como se esquivam, como suportam os baques, como contra-atacam, como incorporam a dor, a revolta e o prenúncio da vitória. Queremos o impossível. A verdade em pé, no meio do ringue, vitoriosa. A mentira estatelada no chão, quiçá a nocaute.
Não custa nada sonhar com um encontro desses, fruto de um lance de dados do acaso. Os nomes podem ser outros. Tanto faz. Há vários personagens que podem ocupar o mesmo lugar no ringue. O que importa é que o debate surja, com a urgência distraída do momento, com a espantosa e assustadora verdade do instantâneo, pimba, tornando-se real. Coisas assim se propagam como vírus benignos da nossa moderna forma de se comunicar.
É claro que isso não vai acontecer, é tudo invenção, ficção, não é verdade. Jamais duas figuras como essas vão se prestar a papel próximo do Big Brother no Yout Tube. Mas que seria bom, seria. Um tet-a-tet entre duas figuras ímpares, devotadas ao que escrevem, falam e pensam. Pessoas que parecem realmente acreditar naquilo que dizem, pessoas convincentes. Seres que rumam para a extinção.
Tudo pelo social
(Se você não estiver a fim de se arriscar a ter uma overdose sobre Obama, sugerimos a página ao lado, do emérito professor Juremir, um craque em qualquer assunto provocativo. Este que vos fala é apenas um subversivo inofensivo e precisa falar sobre o tema citado acima. Com licença.)
Quando este texto foi cometido, a obamamania saltava aos olhos do mundo não só pelo feito político, mas também pela estratégia de vendas. A campanha de Barak o ajudou a vencer a eleição porque o transformou em astro da cultura pop. Um jovem negro, de fala mansa. firme e estudada, que olhava para todos os lados, mas se dirigia exatamente àqueles que têm o poder de influenciar a opinião dos outros X um velho branco que representava os bebuns assassinos e ressacados sobre os quais ninguém queria mais ouvir falar. Andy Warol o serigrafaria como uma Marilyn com muito mais melanina. E, se conhecesse a Madona, com um vibrador.
Mas o tempo anda e depois de uns dois meses de decisões que inauguram uma suposta nova era, sabe-se lá o que o primeiro presidente norte-americano de origem muçulmana andará fazendo com as suas poderosas ferramentas do novo império otomano, diga-se, americano.
Aconteça o que acontecer, ele se transmutará em outra coisa, mas seu marketing fica para a história. Porque a mídia adorou, porque a audiência amou e as empresas falidas, também. O que teve de gente por aí se inspirando no “Yes, we can” superou o previsível. O impacto bombástico deve ecoar durante todo o ano, aconteça o que acontecer com o mundo real, das empresas a salvar, das demissões por fazer, mortes a administrar, coisas assim. Além do homem, ficou a idéia, o slogan, essa frase de aparência tão pueril, mas que pode significar bem mais do que diz.
O que chama a atenção nessa história é que essa é uma idéia muito recorrente de publicidade. Chupar, plagiar ou, depois do Bill Gates, roubar e copiar, quer dizer, copiar e colar. Quando isso acontece dentro das fronteiras de uma agência de publicidade é mera falta de criatividade. Porém, quando ocorre entre as quatro linhas do escritório do cliente e/ou do seu departamento de marketing, vira um fato socialmente relevante. O que houve de empresas de todas as latitudes mandando suas agências ou agentes copiarem o estilo Barak não foi pouca coisa. A Pepsi ainda se entende. É gringa, está envolvida, digamos, no cenário. E houve interação, não apenas cópia, vá lá. Mas, por exemplo, o que tem a ver um shopping numa grande cidade ou uma loja no interior do Brasil fazerem o mesmo?
Tudo a ver. Essa é a idéia mais popular e genérica de publicidade que, como profetizou Nizan Guru Guanaes, não precisa de criatividade. Ou melhor: criatividade, nesse caso, seria usar o que todo mundo está vendo, gostando, repetindo, oba, vamos lá. Criatividade seria apenas e tão somente defenestrar a criatividade, direto para o zero, e apostar na massificação a mil. Em alguns casos, milhões.
É assim com novela da Rede Globo, pra citar só um dos casos mais visíveis em nossas salas de estar. É tal o impacto e o registro no público que essas peças de dramaturgia - que mais parecem aulas de cinegrafia sobre o capítulo close -, viram nomes de boteco, mercearia, sapataria e, quiçá, de algum empreendimento imobiliário.
Até o slogan do Sarney virou nome de restaurante, um deboche que bem merece o prêmio da concorrida clientela, que já deglutiu o nome e nem sabe mais o que ele significa, mas aprecia o cardápio. Bem, já que começamos a falar de significados e significantes, é melhor pedir a conta antes que a aconteça alguma indigestão semiótica. Como um nó na língua ou nas tripas.
Carregando
Tem gente que sonha em viajar na máquina do tempo. Deseja voltar a um determinado período da história, experimentar o espírito daquela época a flor da pele. Também há os lunáticos que desejam se projetar para o futuro, mas os passadistas vencem com folga. Os períodos já vividos oferecem mais opções do que o futuro, quase sempre imaginado de uma forma única, sem tantos períodos, personagens e histórias. Também há aqueles que sonham com mundos atemporais, que não estão nem antes nem depois daquele em que se encontram, mas numa dimensão imaginada. Costumam ser os melhores, porque rendem boas histórias, bons livros e filmes. Cada louco com a sua mania. E como nada é perene, mas tudo é circular nesse carrossel que a gente chama de tempo - e inventou o relógio para aprisioná-lo -, talvez daqui a uma centena de anos alguém deseje voltar à virada dos séculos 20 e 21 para sentir na epiderme como era viver na idade da pedra do mundo digital e suas infinitas possibilidades. Como em outras, nesta época o mundo mudou irreversivelmente. Muitos não perceberam, alguns nasceram durante, portanto tudo era normal pra eles, estes e aqueles, mas o planeta sofreu uma transformação radical. Viver naquele novo século que partia do zero para o infinito e se autoprometia instantaneamente era poder realizar pequenos desejos que substituíam o sonho em outras dimensões. O sonho acabara? Não. O sonho permancera como um dispositvo sem controle, por mais que as promessas de realização o ameacem de extinção desde que o mundo materializou-se da forma que o conhecemos. O sonho sobrevive a tudo, como as baratas e da esperança. Mas as tecnologias prometiam um mundo sem fronteiras, portanto, pra que sonhar, aliás, o que era mesmo sonhar, em que período histórico se fazia isso?
Havia a febre da rede mundial de computadores, a Internet. As multidões jogavam-se nela com a sede de primatas em busca do desconhecido e por lá navegavam sem sair do lugar. Não poucos a classificaram como uma droga em que os efeitos colaterais poderiam ser a miopia e a lordose. A internet era baseada em computadores, telefones e depois em vários aparelhos e com eles as pessoas passavam a maior parte do seu tempo, tanto a trabalho quanto a lazer ou tanto no trabalho como em casa, no carro, na praia, no meio do mato. Viajar na Internet para se divertir, se informar e também expor opiniões e o que bem entendessem, tornou-se banal com o avançar do relógio que agora ocultava os círculos com números. As pessoas entravam nessa nave e assim participavam de um novo mundo. Nele podiam descobrir várias coisas apenas movimentando o dedo, interagir com eles segundo suas próprias regras, se comunicar do jeito que quisessem e conseguissem. Foi nessa época que a comunicação, tida como social e de mercado, mudou drasticamente por causa da interferência de todas esses viajantes viciados no novo mundo que, na verdade, era apenas o mundo deles, banal como qualquer outro em que nunca tivessem estado, mas com os quais não sonhavam porque podiam ir até eles sem sair do conforto de onde estavam. Era a máquina do tempo deles, só que não era mais uma fantasia. Era real como as digitais dos seus dedos. A máquina do tempo sem utopia e sem a ressaca que algumas deles provocavam.
Mas aqueles que, lá na frente, estariam a desejar esse passado distante, poderiam ser a prova de que no download das promessas do mundo sem fronteira, o download...
Feito aqui
Não sei se é regra, até por que estou com pressa e sem tempo para consultas históricas, mas é comum um ex-trotskista virar direitista ferrenho – stalinista costumava-o ser desde os primórdios. Foi o caso do saudoso Paulo Francis e o é, aqui na província, o Prévidi é Prévidi.
Na ausência de diversão mais robusta, eu dei por bem de gostar desses vira-casaca, até porque, com muito menos nobreza, também devo ser um deles. Entre outros, eles se tornaram o tempero da nossa imprensa aborrida, sem sal nem tutano, apenas press releases copiados e colados por ferramentas humanas ou estratégias armadas nos departamentos de marketing e comercial.
Cá do meu anonimato, na solidão dessa inexistência, eu apoiei a campanha do Prévidi é Prévidi para enviar o ministro Tarso Genro à ONU, como honorável secretário-geral. Claro que ninguém notou o apoio, mas eu fiz posts invisíveis e inflamados em favor da exportação desse nosso grande produto político. Seria a glória, tanto para nós como para ele. E poderia nos ajudar a carregar a nossa Yeda.
Motivo um: o cargo em questão é apropriado à figura do são-borjense baixinho e enfezado, atual leitor do liberal-socialista Norberto Bobbio, mas que já foi chegado numa retórica materialista, histórica e dialética.
Motivo dois: lá de seu gueto virtual, o nobre jornalista criou um novel expediente na imprensa gaúcha, coisa de um Jockymann, quase um Carlos Nobre, creio eu: o de misturar à verdade quase sempre contestável e enfadonha dos fatos - afinal, só há interpretações - umas pitadas de mau humorado bom humor.
Ao que tudo indica, a campanha em favor da exportação do TF fracassou, mas o Prévidi é Prévidi e promete-nos outra. Devemos aguardar. Enquanto isso, seria necessário pensar nesse viés com roupagem de furo jornalístico, de quase absoluta nudez da verdade: EXPORTAR GAÚCHOS – letras garrafais, sim.
Vários são os tauras que se encaixam no perfil made in Rio Grande do Sul. A lista é interminável, portanto, não dá para citar nem meia dúzia de candidatos, uma vez que deixaríamos de fora muitas celebridades locais. Gauchada made in Rio Grande do Sul é o que não falta. O ego inflado dessa gente altaneira é, ao mesmo tempo, a manifestação de uma tradição guerreira erguida com base na talentosa pena da literatura, prima em primeiro grau da ficção, e do famoso sentimento de inferioridade da dupla gre-nal.
O Prévidi é Prévidi sabe disso. E é por isso que o leio. A gente se diverte com suas linhas, embora não se entenda todas, tal é o grau de informação misturada com agudas e secretas provocações. Talvez até devêssemos fazer uma campanha para que ele seja o primeiro a sofrer o efeito da catapulta. Seria arremessado da Cidade Baixa, onde está condenado a assistir às públicas manifestações de afeto de homossexuais e à cantoria dos passarinhos, sem falar dos carros de som nas campanhas políticas. Ficaríamos ainda mais paupérrimos jornalística e intelectualmente falando, mas quem iria notar?
Hoje é sexta-chega
A melhor sensação para quem presta serviço assalariado durante toda a semana é a chegada da sexta-feira. E ela surge no calendário de forma bombástica, quase benta, não fora tão pagã. Para mim, é a lei áurea, a carta de alforria - temporária, mas é minha, ninguém tasca. Na segunda estou de volta ao tronco, eu prometo. Meio casmurro, meio ao meio, mas positivo e funcional. Da réstia de mau humor sairá sempre um caldo ralo de bom humor. Debochado, mas profissional e inofensivo. Eu confesso: eu trabalho forçado. Não raro vislumbro o ambiente de labuta como Auschwitz. Como em presídios, vou ao pátio tomar sol.
No feudalismo, seria considerado um escravo defeituoso. No capitalismo, passo a servo criativo, dinâmico, com direito a expressar divergências para aliviar a remuneração mediana. E descartável, caso me meta a besta. Se comunismo houvesse por aqui, seria escravo estatal. E mofaria em autarquias a martelar propaganda enganosa. Mas nem Marx levava a sério os trópicos.
Eu queria ser vagabundo. Profissional. Viver de escrever, já que de rendas seria burguês demais para os meus escrúpulos pequeno-burgueses. Escrever livros que batem recordes de venda na Feira do Livro, de Porto Alegre e Frankfurt. Ter uma coluna em jornal com aquelas crônicas inesquecíveis por um dia. Quiçá um blog de verdade. Ser lido por milhares. Ser convidado para palestras. Ser entrevistado. Negar-se a ser entrevistado. Compor uma personalidade literária, um perfil obtuso. Avesso e avulso. Um dia chego lá. E nesse dia viro escravo voluntário de um editor inescrupuloso. Entrego-me a essa diabólica entidade que decide quem vai ser impresso e lido.
Mas os testes vocacionais não indicam esse caminho a quem cultiva o bom senso pequeno-burguês. País de analfabetos, de pouca grana para muitos, de pouca memória para quase todos, que aprecia a banalidade e, via de regra, o mau-caratismo e o conformismo juntos. Bom cenário para auto-ajuda.
Virei um arremedo do que nem sabia que desejava ser, objetivo que surgiu como uma sexta-feira, por seleção e exclusão das sendas anteriores. Vivo de escrever raciocínios, idéias comerciais, promocionais, empresariais. Mas não me frustro. Quando a sexta chega, eu me redimo, eu viro vagabundo. Amador. Minha melhor vagabundagem é peripatetear. Melhor seria em Paris, mas Porto Alegre foi o que se pôde, como dizia um amigo que já se foi. Pior é nada, prosseguia. E continuávamos a flanar rumo ao desconhecido, escoadouro de todas as calçadas.
Trabalhar é necessário - para um servo, que isso fique bem claro -, mas quem garante que o trabalho nos dignifica provavelmente não tem pirraça melhor para fazer. A etimologia da palavra trabalho oferece uma pista: o termo vem de tripalium (ou trepalium), um instrumento romano onde eram supliciados os escravos. Daí derivou-se o verbo tripaliare (ou trepaliare), que significava, inicialmente, torturar alguém no tripalium.
Chega. Já os torturei demais por hoje.
A nova corja
Fazer barulho não está nada fácil até para quem escolhe o caminho do terror, que tem causado menor impacto do que nos tempos da nitroglicerina pura. Saídos da guerra fria, acessamos a frieza da guerra. Isso tem ficado mais nítido na internet, que se tornou vítima de um novo tipo de poluição: a de opinião. A oferta opinativa cresceu tanto que esmagou o pescoço da demanda e inflacionou o mercado por asfixia. Quem nunca teve espaço disponível para dizer o que pensa está babando e se lambuzando a rodo. Há ataques, denúncias, manifestos, protestos, acusações e ofensas de toda ordem. E tudo aquilo que se diz por escrito vale cada vez menos.
Se já se indagava quem lia tanta notícia tomando sol nas bancas de revista, imagine agora. Até mesmo grandes órgãos da imprensa entraram nessa, a mando dos radares dos departamentos de marketing, que adentraram o recinto das redações nem tão antenadas. Há jornalões brasileiros que têm um blogueiro por leitor, tal é o número de posts colocados diariamente na prateleira virtual. E ainda tem aqueles que são pagos para expelir opiniões de lobistas e outros quejandos, usando suas credenciais profissionais. Isso sem falar dos fóruns, que são #$@*($#¨&(_)%&*¨%$. Dessa forma, a teoria do caos sai do tubo de ensaio como uma ingenuidade acadêmica ou diletantismo de laboratório.
A confusão é tão grande que o exército anti-internet está no ataque. E não só no absurdo Iraque ou na bizarra China. É no mundo inteiro, já que a rede mundial de computadores só tem a fronteira da língua. Mas ainda estamos na era das cavernas da virtualidade. Vem muito mais por aí pra bagunçar o mouse pad das nossas certezas. O pessoal do Observatório da Imprensa que o diga, embora insista no fraseado impoluto e nos parágrafos longos, típicos da era de Gutemberg, para se manter na trincheira.
Em razão disso, prestar serviço pode ser mais valioso do que sair atirando para todos os lados na ânsia de acertar em alguém. E muita gente está fazendo isso para contribuir com o "debate". Pois aqui vai uma referência local de grosso calibre: www.novacorja.org. Os responsáveis fazem jornalismo divertido. Há comentários de todos os tipos e multimídia, que não deixam escapar o que há de mais medonho na vida pública gaúcha, principalmente. O bis quase inevitável é para a nossa desgovernadora - favor digitar nova corja no You Tube, o primeirissimo vídeo é obra-prima.
Nesse mundinho cada vez mais subserviente e que só tem graça pra quem não desiste do bom humor - mesmo que nascido do mau -, é uma baita notícia. O novacorja só exagera um pouco nos bolds, italics, cifrõe$$$ e trocagráficos ortodilhos. Na tentativa de separar isso daquilo e destacar o que seria mais relevante, criam o desagradável efeito da poluição - não verbal, mas visual. Até que dá pra compreender. Ao que parece, além de informar, querem deixar bem claro que também estão se divertindo. Talvez até bem mais do que as velhas corjas.
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À uva e ao frio
Se a diferenciação é tão importante como está em voga, o Rio Grande do Sul tem em sua cultura cisplatina um diferencial fora de série em relação à república federativa da qual, curiosa e mui pitorescamente, faz parte: poder se sentir alheio ao universo tropical durante alguns meses do ano a partir de um acontecimento meteorológico. O passaporte para a viagem é a chegada do frio e a subseqüente abertura da temporada da bebida da uva. A luz impressionista de algumas manhãs, o ar gelado nas faces e o frio de gelar os ossos, o céu cinzento e as trombas d’água, a geada e o veranico de maio, entre outros fenômenos do outono e do inverno, criam um clima especial, ao qual o resto do país visita para ver uma neve bissexta cair e bater em retirada tiritando de frio. É um prazer de província, próximo a uma Provence deslocada, um clichê supostamente europeu que seduz as eternas colônias sulistas, não tanto pelos olhos ou pelo faro de turista, mas através das células epiteliais e papilas gustativas daqueles que vivem abaixo do equador. A dupla frio e vinho é um convite ao auto-exílio, porque provoca a necessidade de se abrir para dentro e sacar a rolha do espírito.
Todos os anos, salvo catástrofes advindas ou não das mudanças climáticas, o mês de abril abre as portas para o mesmo ritual. Os corredores onde os vinhos se alojam nos supermercados, com mais ou menos charme, são prova disso, com reflexos na judiada economia local. Até então semi-abandonados, a partir dessa época suas prateleiras são preenchidas por garrafas de vinho de procedências que nem sempre o tratam com a devida honra, preços para todos os bolsos brasileiros e uma freqüência que mescla enoentendidos e apreciadores leigos, mas não menos fiéis aos sabores, aromas e efeitos metafísicos da bebida de Dionísio e de Baco. Tanto o menos afortunado dos sulistas como o mais arredio forasteiro que por aqui se aventura pode se dar a esse luxo, sem arcar com despesas em euros e receita em reais. Basta estar aqui, sendo daqui ou não. Basta saber reter o paladar para o frio, sentir o recolhimento e a reservada animação que o torpor do vinho oferece e que tão bem combina com as sensações que as baixas temperaturas inspiram.
Trivial para um sommelier, a descrição de um vinho é tida como ameaçadora, criando a possibilidade de se despertar sabores que a nossa língua não compreenderia ou traduziria de forma macarrônica. Mera bobagem, mais um ledo engano, invencionice discriminatória da pouco original elite tupiniquim, um bagaço da elite européia, por sinal. Entre um gole e outro do vinho selecionado pelo poder aquisitivo de cada qual, ou quem sabe pelo impulso experimental de ir um pouco além do orçamento, vai-se deixando de lado e para trás a realidade terrena da nação, a cultura tropical, gritante, corpórea e cervejeira, em troca do suave entorpecimento do espírito pelas vinhas das mais distantes terras do mundo, tratadas, colhidas e fermentadas com paciência, ciência e mistério únicos.
E eis então que o Brasil se encolhe e se afasta, pouco merecedor dos nossos doze meses de cada ano pela sua atitude desencorpada, aromas azedos e sabores inescrupulosos. Ainda bem que aqui podemos dar-lhe às costas e homenagear os nossos valores pisoteados, um dia robustos, talvez; cobertos pela fina camada da nossa ilusão, com certeza. Bye, bye, Brasil, mais uma garrafa se abriu.
Funeral blues
Eu queria que eles calassem a boca de uma vez por todas e nunca mais tivesse de ouvi-los proferir um traço, um único fonema, quem dirá uma sentença inteira e sinceramente mentirosa. Seriam enviados para o
mundo do silêncio inexpressivo e por lá permaneceriam naquele mis em scene de quem diz exatamente o que não fez, porque faz o que não diz. Além da perda do direito de usar a cavidade bucal, eles também seriam separados dos telefones fixos e móveis por medida provisória permanente. Não poderiam se comunicar com ninguém, muito menos com a imprensa fofoqueira - ela que fosse arranjar o que fazer com tanta página em branco, tanto microfone em espera e tanta fita ou HD vazio.
Na cela especial de uma mímica incompreensível, eles teriam extirpado até mesmo o direito ao note book, ao interfone, ao rádio amador, ao telefone sem fio, ao cochicho no ouvido e a uma conversa
despretensiosa com um desconhecido na fila do banco ou no elevador. Por medida cautelar imperiosa, os aparelhos retransmissores chamados televisores seriam desligados quando eles aparecessem, automaticamente, e se tornariam eletrodomésticos tão úteis como avisam o chuá-chuá de uma lavadora de roupa ou o drrrrrrrrrrrrrrrrrr de um liquidificador. E bem menos barulhentos. Mas todo o resto continuaria normal. Suas rotinas diárias, inclusive. Família, trabalho, eventos sociais, footing e peladas ocasionais. Quando fossem convocados a uma CPI, compareceriam de terno e gravata da nacionalidade que bem entendessem, até mesmo italianos, gel no cabelo e aquela expressão notadamente patriótica de quem está prestes a disparar uma saraivada de inverdades. Só que não precisaríamos ouvir a metralhadora disparando, porque eles estariam sem áudio. Sem dó. Sem ré. Sem cerimônia. Transmutados em fantoches sem manipulador, bonecos sem ventríloquo, eles incomodariam bem menos e economizariam as nossas valiosas energias, retinas e tímpanos. A indústria, a economia, a retórica e o capitalismo intergalático não deixariam de ganhar com isso. Os televisores, as máquinas de lavar e os liquidificadores continuariam sendo vendidos a rodo nas imperdíveis promoções das Casas Bahia de todo o Brasil, por exemplo. Tudo continuaria normal, dentro do seu curso de sempre, por entre os absurdos corredores da racionalidade. Inclusive eles, os condenados ao mundo sem áudio. E então poderíamos fazer uma panegírica gritaria em homenagem ao silêncio, que soaria como música para além dos nossos ouvidos internos e retumbaria na caixa acústica e toráxica onde se esconde o ferido coração nacional.
O primeiro-damo
O governante que se preza sempre tem uma primeira-dama a tiracolo - as Mônica Lewinsky são obra do acaso, frugais baforadas de imoralidade escandalosa, mas tacitamente admissíveis. No momento exato, ela, a primeira-dama, ajuda a compor o kit da imagem de homem de família. Uma autoridade que saia por aí à mercê da solteirice, sem ter de voltar pra casa para cuidar da mulher e dos filhos, sofreria impeachment no primeiro happy hour. Não é o que vem ao caso, embora a possibilidade renda boas pautas ou fuxicos, mais provavelmente as duas coisas ao mesmo tempo. A divagação é outra: será que teremos, a exemplo do Palácio Piratini, um primeiro-damo na prefeitura de Porto Alegre?
Nem o mais renomado instituto de pesquisa pode afirmar quem irá vencer as eleições municipais, mas a probabilidade de uma mulher subir ao podium, levantar o troféu e abrir o champagne é política e estatisticamente viável. Por ser fato político inédito na província de declarada e aguda macheza, devemos começar a pensar no que faria o suposto primeiro-damo. No caso da postulante ao cargo de prefeita não possuir um nome para primeiro-damo, não será necessário fazer licitação para conseguir um. Candidatos é o que não faltam.
Antes de mais nada, o PD (primeiro-damo daqui pra frente, ao invés da mais recomendada mas menos divertida primeiro-cavalheiro) deverá se comportar como uma lady e se conformar com a coadjuvância do cargo. Uma primeira-dama torna-se notória por sua invisibilidade e anonimato, com exceção de Jacqueline Kennedy e Maria Tereza Goulart. Há ainda Hillary Clinton e Cristina Kirchner, que catapultaram-se ao primeiro plano da política depois de longo período de incubação nos bastidores. Entretanto, evitemos a tentação de novo desvio em direção à fofoca. Continuemos, em linha reta, a dar trabalho ao imaginário PD.
A dura rotina de chás beneficentes é fato consumado, não sofrerá alterações nem por decreto presidencial. O PD deve exibir excelência na arte de papar brioches, promover o discurso caridoso e a atitude filantrópica. Deve, também, tal e qual um display, expor a fina estampa da impassividade. Nenhuma ameaça de gesto tresloucado, de comentário enviesado, sequer um suspiro de enfado ou enxaqueca. O PD representa os sólidos e inabaláveis princípios de uma instituição que reúne as quatro mais importantes: a família, a igreja, o estado e o segredo. Mesmo que o mundo desabe sobre nós ou sobre sua cônjuge, dele se espera aquela pose cerimonial e peremptória. O PD deve ser sóbrio em tudo e vestir-se a caráter. Mas nada de tayeur. Maquiagem discretíssima. Batom, jamais. Jóias nem pensar. E por aí vai.
Entretanto, a igualdade entre os sexos é uma conquista e uma verdade legal que a biologia e Freud desmentem todos os dias. Com mais ou menos vigor, os machos da nossa espécie não se contentam em comer apenas brioches. Por isso, é bem provável e até admissível que o suposto ocupante do cargo venha a inovar em procedimentos administrativos. As cerimônias de inauguração e o tititi do chá das quatro continuam na agenda, mas quem sabe depois disso institua o chope das 6 ou o happy hour com a turma no Chalé da Praça XV. São alternativas plausíveis, boas desculpas para falar sobre futebol, mulher e até política.
Agora, se um PD não vier a ocupar sala na prefeitura será por que a atual primeira-dama foi reeleita e tudo vai continuar como está. E os quase PDs podem comemorar o fato de não entrarem em tamanha saia justa.
Out!
Taí uma oportunidade de a gente mostrar que o Rio Grande do Sul tem capacidade de estar à frente em diversas questões, não só em piadas sobre sexualidade masculina. Se nos quesitos economia, futebol e política (entre tantos outros), estamos atrás, no que diz respeito à poluição visual poderíamos aproveitar o momento para dar um olé nos paulistas, por exemplo. E sem bairrismo nenhum, usando apenas uma das razões do sucesso dessa cidade que é o mundo todo: a aguçada visão para um bom negócio.
Ao invés de proibir a propaganda outdoor como eles, ajudando a quebrar e desativar um bom número de empresas e deixando muita gente desempregada, nós aqui poderíamos incrementar o mercado ajustando o foco do projeto da paulicéia cada vez mais desvairada.
O ajuste seria o seguinte: não atacaríamos a mídia (por aqui ela ainda não é um exagero e com essa inovação jamais será), mas o seu conteúdo. Fiscalizaríamos a qualidade criativa, estética e estratégica das peças, arrancando-as dos painéis e seus parentes de mídia externa quando ofendessem o bom senso e a inteligência das nossas retinas fatigadas. O anunciante não perderia o seu precioso espaço, muito pelo contrário, seria convidado a preenchê-lo com peça de teor mais elevado.
Seria fácil fazer isso? Tão fácil como entrar na jaula do leão e sair de lá apenas mancando. Mas seria divertido. E, ainda por cima, criaria mais uma atividade profissional, uma espécie de ombudsman de mídia externa, um fiscal do Sarney da propaganda outdoor, um zelador da nossa paisagem, um porteiro com poderes de definir quem entra ou não na festa da comunicação visual.
Maravilha. Outdoors com trezentas palavras em diversas tipologias espalhadas num layout medonho seriam banidos das nossas vistas. Logotipos de design esdrúxulo exibidos em escalas gigantescas teriam de se recolher às suas insignificâncias estéticas. Aquelas mensagens que não divertem nem emocionam desapareciam do cenário. Fotos de qualidade e resolução duvidosas estrebuchando seus pixels. Propagandas de políticos, nunca mais.
Com o tempo e com algumas briguinhas, nossa criação para mídia externa retornaria aos bons tempos (ou será que avançaria em direção a novos?) e nos brindaria com mais peças bem humoradas e, quiçá, inesquecíveis. Sim, porque boa parte do que a gente vê hoje por aí é melhor acionar o anti-vírus.
E o argumento é bastante lógico, basta fazer uma analogia com outras questões da nossa visualidade ambiental. O Guaíba, veja o Guaíba. Já que ele está feio e poluído, devemos dar fim ao estuário ou limpá-lo e deixá-lo todo perfumado e bonitinho de novo?
Nosso meio ambiente (digamos) analógico ficaria uma beleza. O lixo estaria restrito ao amplo universo virtual, com os chatíssimos spams, os inacreditáveis e-mails que mais parecem caminhões do DMLU invadindo nossas caixas de entrada, aqueles pop-ups que insistem em entrar na frente do que queremos ler, as propagandas infiltradas em links dentro de notícias, as mensagens em pps, as correntes ameaçadoras e/ou proféticas. E muito mais. Mas o mundo virtual está apenas na idade da pedra e ainda tem muito a evoluir.
É claro que alguém poderá objetar dizendo que a atitude feriria a liberdade de expressão comercial e tal. Mas veja por outro lado. Por esse outro lado, estaríamos ajudando a elevar o nível cultural e estético da população. Sim, porque a população, além do feijão com arroz precisa também do Beethoven, do Shaekspeare, do Van Gogh, do Bresson (entre tantos e tantos) do dia a dia.
Tá na cara o que devemos fazer. E, já que os paulistas não perceberam, que não chamaram o Rogério Ceni pra bater a falta, vamos contra-atacar e mostrar ao Brasil que a verdadeira Bahia é o Rio Grande do Sul. São Paulo é o mundo todo menos Manhattan.
O TSE que me desculpe
A campanha do TSE foi criada e produzida por um dos melhores times da propaganda brasileira, mas esse negócio de ficar mandando letrinha para o eleitor já está clichê demais. As idéias são muito boas, mas o efeito é pífio. Por acaso o ilustre cidadão que dirige a atenção a este texto acha que a iniciativa do TSE vai conscientizar alguém de alguma coisa, nesta altura do campeonato? Acha? Então lá vai: meu caro colega, a maioria dos eleitores deste país sequer lembra em quem votou, está nas pesquisas. Você sabe, talvez até seja um deles. Em sua maioria, o brasileiro usa o título eleitoral porque a lei obriga e, vejam só, o TSE fiscaliza. Mesmo. E nem precisa fazer blitze ou usar pardal. Então, para evitar aborrecimentos futuros e como não dá pra subornar o mesário, o cidadão vai lá e dá ou vende o seu voto para qualquer um. E esquece. Este é o grande civismo nacional. É como pagar o IPTU, o IPVA. Não dá pra fugir. E é de graça, não custa nada.
Mas a campanha custa alguns milhões e quem paga somos nós. E qual é o resultado? Parece que muito bom para o ego cívico de quem a brifou, criou e produziu. O pessoal do TSE que se reuniu com a agência que, por sua vez, conceituou e criou belos vts e as produtoras de vídeo e áudio que produziram de forma brilhante uma idéia bem bolada. Devem estar orgulhosos da campanha que realizaram. Tudo bem. A idéia é boa mesmo. Bem posicionada, criativa, ótima direção, bons atores, equipe de primeira. Deve até ganhar prêmio. Mas é um prêmio semelhante ao gol que o jogador faz no time em que jogava até ontem e do qual ainda é ídolo. Não dá pra comemorar. Sofremos do mal da malandragem política há bem mais do que o período de um governo municipal. Há 508 anos andamos em círculos, sapateamos na hora do nervosismo e ouvimos o constante zumbido de uma abelha enjoada no ouvido interno.
É claro que existe uma parcela da população - a esmagada minoria - que gosta dessas iniciativas. Têm fé política e estão intimamente ligados à internet. Acessam o You Tube para ver todas as peças. Mandam para os amigos. Recheiam blogs com posts e comentários contra o que enxergam de mentiroso e escabroso nos discursos dos nossos queridos candidatos e candidatas – não podemos esquecer que escrevemos na feminina Porto Alegre, onde as mulheres querem dar uma surra no homem e expulsá-lo de casa. Para estimulá-los ainda mais e para não ficar nessa de só criticar o trabalho dos outros, vou dar uma idéia, sem cobrar um tostão do TSE. E é muito simples: tirar o foco do eleitor e falar diretamente com os candidatos, fazendo uma proposta da estatura deles. No vídeo, uma sucessão de imagens de arquivo das tantas caras deste imenso país, bem mais baratas do que pagar horas em estúdios e locações. No áudio, uma trilha pesquisada de impacto e locutor bem à vontade:
- Caro candidato, o TSE já torrou alguns milhões em campanhas de conscientização eleitoral. E elas não deram o menor retorno. O eleitor parece que está de saco cheio e, sejamos sinceros, nós também. Portanto, o negócio é o seguinte, meu caro: milhares de eleitores de escroto lotado querem saber o que o caríssimo tem a propor. Vamos lá, apresente suas idéias, mostre como vai governar, faça suas promessas de uma vez, minta, se preferir. Tudo bem, faz parte da tradição e do marketing. Mas, aí vem o mais importante, registre o seguinte compromisso em cartório: caso não consiga cumprir as promessas do seu primeiro ano de governo, deverá renunciar imediatamente ao cargo sem CPI. Para mais informações, acesse nosso site. O povo das cidades deste país agradece. E os cofres públicos, também. Abraço. Tribunal Superior Eleitoral.
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