18.8.09

Sem vergonha de ser sem vergonha

Está mais do que na hora deste país assumir a sua identidade e edificar o monumento que enaltece, sintetiza e consolida o espírito nacional. Os crimes mais imorais da nossa história não podem ficar restritos ao frio profissionalismo do noticiário, à fútil boataria das repartições e aos fuxicos quase inaudíveis dos bastidores camerais sussurrentos. Os nossos mais retumbantes desleixos morais devem alcançar o palco das ruas e desfilar, adjetivamente, sob sol escaldante e cúmplice, para a Nação embasbacada, antecedidos de vibrantes chamadas em rede nacional de televisão.

Plim, plim.

Em suma, está na hora de assumirmos a construção do nosso Vergonhódromo. Devemos investir polpudas verbas, dos alicerces aos píncaros gloriosos dessa iniciativa. Por sua arquitetura, que só poderia ser niemeyeriana, os nossos mais queridos promotores de tão dignas baixarias se jogariam sobre o asfalto com suas rebolâncias e todo o talento que Deus não lhes deu, mas eles foram até a sacristia e roubaram. A priori, as categorias principais desse certame patriótico, com visível parentesco com o carnaval, seriam: Melhor Samba-escândalo, Melhor Comissão de Frente de Ética?, Melhor Puxador de Verba a Fundo Perdido, Melhor Passista e Passador de Suborno, Melhor Porta-estandarte e Cara de Pau, Melhor Fantasia de Desculpa Esfarrapada, Melhor Carro Alegórico Superfaturado, Melhor Pizzaiolo.

Se no sambódromo são necessários inúmeros atributos para desfilar, entre eles a infalível e mundialmente famosa bunda brasileira, no Vergonhódromo a performance seria outra. O protagonista de um bom escândalo, seus comparsas e adversários não precisariam necessariamente de opulentas derrières. Bastaria muito peito e a boa e velha cara de pau para expor as partes pudendas da nossa falta de decoro. Ao final e ao cabo, concorreriam a prêmios bem a caráter, ou seja, superfaturados. O Rei Momo seria óbvio, ululante, popularíssimo e muito bem nutrido – e bebido. O Vergonhódromo seria o primeiro museu moral em tempo real do mundo, um rito antropofágico onde a Nação devoraria sua falta de vergonha na cara e assim se perpetuaria através da retroalimentação. De dimensões evidentemente colossais, o Vergonhódromo se tornaria ponto turístico, cartão postal e referência internacional da nossa cultura destrambelhada.

Bestial.

Chamem logo o Oscar Niemeyer e encomendem o projeto antes que ele morra. Seu desenho teria um traçado serpentino, inspirado em nossa moral malemolente, sinuosa. E se localizaria em Brasília/DF, o templo especialmente construído para abrigar os talentosos homens e mulheres que promovem esse espetáculo, suntuosamente erguido sobre candangos. No Vergonhódromo, enterraríamos para sempre a falsa moral e vestiríamos, diante das retinas esbugalhadas do mundo, a nossa total falta de caráter, essa sem vergonhice que não vai acabar nunca.

Nunca.

Sob as mais diversas aparências, das nativas às importadas, sempre seremos esse belo país mau caráter.

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