23.8.09

Você é a favor ou contra a legalização da corrupção?

O assunto é trágico, mas a indignação é sempre abafada pela piada instantânea. Se fôssemos todos alfabetizados em inglês como a filha da Xuxa, exportaríamos humoristas assim como jogadores de futebol, prostitutas e travestis. Borat seria fichinha.

O certo é que Eles precisam de Nós. Do contrário, nunca existiriam. E Nós ou somos generosos idealistas ou damos o nosso apoio em troca de gratidão. Ou de um emprego. Depois disso, as linhas gerais do discurso até podem se manter, mas o papo é outro.

Eles são do Clube dos Eleitos por Nós, o que os torna ainda mais fortes do que já o são em unidade. Dividem-se em grupos de amigos e inimigos. Tudo para as câmeras, o nosso suposto olho. Quando atuam, o fazem porque precisam de bilheteria.

Quando há denúncias, uns se viram contra os outros, mesmo que tenham estado do mesmo lado. É tudo parte da encenação. Ignoramos as regras. Só Eles as conhecem. Porque são Eles que as fazem.

Mas não somos cegos. Somos apenas aquela espécie classificada como analfabeto político, bem longe da extinção. Até mesmo aqueles que entre Nós parecem que sabem mais embarcam nessa canoa. E estamos todos nessa furada, doutos, ignaros e medianos.

E entre Nós e Eles não há uma fronteira nítida. Muitos do que estão do lado de cá alimentam o desejo mundano de pular a cerca. E isso é outra coisa que Eles sabem muito bem.

Se Nós aprendêssemos, se soubéssemos alcançar a clareza do que fazer, Eles agiriam de outra forma. Não em respeito a Nós, mas por medo de serem expulsos do paraíso do palco. A renúncia seria ato corriqueiro. Pouparíamos milhões em CPIs, pizzas e enfadonhos desmentidos. A pauta da nossa imprensa não seria mais a pronta entrega.

Ao que tudo indica, Eles terão vida longa. Se neste universo até mesmo morto em cena ressuscita, porque entre Eles tudo se ajeita, há a morte mesma, a inescapável. Mas assim como um vai para o cemitério, logo vem outro do berçário. E pelo mesmo caminho do anterior: o nosso generoso empurrãozinho, o nosso voto amigo, o nosso aval sem critério.

Mas nós gostamos de leis. E as fabricamos aos borbotões. Nosso furor legal é recordista. O que nos dá o lastro de saber que não bastaria criar uma lei anticorrupção para acabar com eles. O vício do roubo é mais incrustado e intragável do que o do fumo. Talvez um plebiscito salve a pátria dos sem vergonha.

Sim ou não?

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