14.9.09

Profissão sem fé

A não ser vagabundo e rico, o resto tem que trabalhar pra viver. Eu bem que gostaria de ser uma das opções anteriores, mas ambas dão muito trabalho. Acho que é por isso que sou publicitário. Falta de talento para ser vagabundo. Incompetência para ser rico.

Não escolhi isso. Em vinha vindo, como diz o gaúcho, vinha de lá e ia para não sei onde. Acho que alguém ficou comovido e resolveu dizer alguma coisa pra ver se me empurrava em alguma direção menos tangente da vida: vai lá naquele lugar que estão precisando de alguém que escreva.

E eu fui. E quando tinha um monte de gente na volta. E eles não pareciam funcionários de uma empresa. De empresa alguma. Nem daquela onde eles estavam naquele momento. Eles nem pareciam trabalhar. Tudo indicava que eles gostavam muito daquilo. E eu pensei “puxa, quem não gostaria?”

E eles não diziam que trabalhavam. Eles diziam que criavam. Entrei no ritmo e gostei. Eu não trabalhava. Eu criava. Foi muito bom durante as preliminares. Tudo excitava como pernas roliças de uma moçoila encabulada numa tarde escaldante de verão. Mas a vida não são só flores nem para o dono da floricultura. E nem o dono do bordel vive só de prazeres.

Os ossos do ofício logo se apresentaram, robustos e pontudos. Quando o papo é direito trabalhista e demais benefícios, agência é moderninha. Quando é produtividade, é retrógrada. Belo posicionamento de mercado. Que a gente sente que nem operário que acha que não é.

Bom, como diria aquela sumidade, faz parte. Vamos em frente. E fui. Hoje a publicidade já não é mais minha profissão. Eu é que sou mais ela do que ela a mim. Mesmo depois do trabalho, que não é trabalho, do expediente, que não é bem isso, a gente continua a olhar para as coisas procurando outras. As nossas ferramentas não se separam nunca, não desligam. Uma vitrine, uma pessoa, um pedaço de papel, um lugar, tudo, enfim, que existe, é visto e revisto pela lente do vício de achar uma outra forma de mostrar aquilo e, de repente, neste caminho, tropeçar na coisa mais inusitadas de todas: o óbvio que ninguém vê.

Ninguém, não. Muitos veem. Mas a publicidade passa tão depressa, que não fixa. Pouco dela resta. Então o que criamos é o que recriamos em cima do que outros já criaram em cima de outros que estavam aqui antes e ninguém percebeu nada. Nem mesmo nós, os que criamos. Não somos copiadores de propósito. Não somos originais por gosto. Tudo acontece ao acaso. Subitamente, depois de muito trabalho que não é trabalho, surge um momento em que se justifica tanto esforço desconcentrado ou aparentemente preso a vários limites do chamado mercado, da empresa, do cliente, do consumidor. De uma hora pra outra, nasce algo. E aí valeu a pena não ser nem vagabundo nem riquinho. Esse é o metiê.

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