No país dos (des)governantes e (des)governados fora da lei, a lei não é antifumo, é antifumantes.
Se o vício é, como diz a medicina, uma doença, o fumante é, por sua vez, tratado como meliante.
O fumante não vai internado. Mas o fumante também não vai preso. Onde há fumaça há roubo, ora bolas. O fumante é multado. Só o dinheiro compra a cura, a inocência.
A tal da felicidade.
E aí eis que alguém pergunta: e o automóvel-fumante? E a chaminé? Eles são pré-multados. As multas são repassadas.
Quem paga? Os fumantes passivos dos canos de descargas dos automóveis-fumantes e das chaminés.
Malandro é malandro. Mané é Mané.
A próxima lei será antipensamento. Primeiro vão criar pensódromos, mas eles vão dar o que falar.
Concentrados em locais em que todos pensam, cria-se uma energia perigosa, dirão. Nuvens de pensamentos nublam o asséptico cenário da proibição. Pensamentos-nuvem chovem, causam tempestades cerebrais.
Eis então que eles, os homens da lei, reunem-se outra vez para ampliar o poder da lei e proibir que se pense, definitvamente.
Cerceados os pensantes de pensar, não se fala mais nisso.
Sussurra-se. Renasce, a la fênix, a subversão, o pensamento proibido, a conspiração, a inconfidência.
Cérebros clandestinos adquirem a capacidade de aguçar ainda mais seus pensamentos pelo simples fatos de estarem condenados a pensar, pensar e pensar.
(Não) pense nisso.
(Não) fume.
(Não).
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