O ser humano é tão repetitivo que parece gago terminal. Os chavões pulam da boca em balões de conversação de chiclete. Os sentimentos gotejam sobre gastas bacias de alumínio amassado. As atitudes se igualam a tiques nervosos e autômatos. O ser humano é um dependente do que ele se acostuma a fazer e repetir. É um viciado nele mesmo.
O feriado que duplica o domingo ou antecipa a sexta-feira é perfeito para exercitar as renitentes características da raça. Feriadão é hora de bater asas da cidade rumo a outra cidade – à beira-mar ou sobre a serra - igualmente apinhada de gente. Comer, beber, dormir, ressaquear, enfrentar a tranqueira da volta e por aí vai a dor de cabeça.
Depois de voltar à rotina número 1 e reencontrar-se com todos, a tradicional pergunta como foi de feriadão? será respondida de forma igualmente original. Já as histórias que se sucederem ficarão pelo caminho por falta de graça e/ou narrador à altura. Se o narrador for de médio a bom, podem se tornar subliteratura.
Lá atrás em Finados - data de nascimento deste texto, por sinal -, para também ser fiel a mim e me repetir, eu não fui atrás da multidão. Eles lá de arrasto pela estrada e eu ali com meus botões ensimesmados. Há muito que, por motivos que não vêm ao caso, prefiro o silêncio nestas circunstâncias. Mas só a diminuição do ruído não basta. É preciso encontrar algo para fazer além de ler livro, ver filme, comer algo gostoso ou alguém em bom estado.
Não sei de onde veio, mas ao olhar para um canto do pátio daquele terreno da casa a ideia emergiu do ralo do nada. A área insinuava algo até então inconfessável. Mas para isso as gramíneas deveriam ser arrancadas – elas esterilizam a terra por onde se enfiam como sanguinários conglomerados multinacionais. Depois de alguns dedos esfolados, lá estava aquele pedaço úmido e nu de chão negro cercado de tijolos carcomidos para proteger o que seria uma futura plantação de temperos. Sim, era um lúdico canteiro, minha contribuição a esse mundo esfolado. Além de idealizar e realizar a obra, ela me permitiria ser o meu DMLU. Todo o lixo orgânico da casa, a partir de agora, poderia virar adubo, retroalimentando saladas, molhos e a culinária caseira. A sensação daquele micro dever cumprido era inevitável. Foi quando surgiu uma menina do meu lado. Não mais do que uma década na cara de espanto. Ela disse:
- Isso aqui não é praia, pai? Tá pensando que barro é areia?
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