14.1.10

Dedo em riste

A indignação pode ser útil em muitos aspectos, mas não ajuda a escrever e muito menos a construir sociedades que não cultivem a praga da hipocrisia. Em alguns casos, ela pode ser o dínamo de engrenagens sociais que confirmam nossa configuração de perversos sádicos delinquentes. Quase todo assassino é um indignado feérico. A Inquisição era indignada com a lenha de carne que jogava na fogueira.

Pra mim, Deus é uma das maiores invenções do homem. Como a boa literatura vira realidade e passa a constar de nossas prateleiras mentais, esse Deus é de verdade e do caralho - ficcionalmente falando. Já o outro, o dos cegos da fé religiosa, esse aí é sinistro. Se oniexistisse mesmo, deveria ser julgado e condenado. Até nas catástrofes mais terríveis, que geralmente despencam sobre os pobres, parece haver o seu dedo maligno.

Entre uma multidão de imagens, lá está ela, a foto que resume o ano. É sempre assim, lá por dezembro. Este 2010 será uma exceção. A imagem do ano veio ao mundo nos primeiros dias de janeiro. Culpa de quem? Da geologia das placas tectônicas? Da ganância?

No Haiti, desgraça pouca é bobagem. De jóia da coroa francesa, virou um território de párias que sofreram perseguições, massacres e bloqueios econômicos. Tudo indica porque os haitianos deram uma sova espetacular nos soldadinhos de Bonaparte. No século passado, os EUA passaram por lá para cobrar dívidas e roubar açúcar. Já o terremoto que veio agora parece que não tem o dedo da gente. Mas o Dele.

A sucessão de imagens dessa tragédia se repete na mídia de forma estarrecedora. Essas imagens nos silenciam. Não conseguimos nos indignar. Poucos de nós conseguem sequer chorar. E de que adiantaria uma coisa ou outra? O que realmente tem importância depois de um acontecimento desses é ajudar, apenas. É tarde para buscar motivos e culpados. A mistura de ganância de uns com a omissão de outros parece que já fez todo o trabalho. Resta-nos clicar em cima, virar a página, continuar o dia, a vida.

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