Aquele rosto no espelho do banheiro parecia o de outra pessoa, mas com certo ar de deboche desconfortavelmente familiar. Como não poderia quebrar-lhe a cara, simplesmente, resolvi indagá-lo, uma vez que encostado na parece ele já estava.
- Quem és tu? Ou melhor: quem tu pensas que és?
- Eu sou você. E eu não penso. Quem pensa é você. Eu apenas reflito, por assim dizer. Os pensamentos são todos seus. Por sinal, acho que deve faltar assunto na hora de fazer um texto como este aqui, porque a grande maioria dos seus pensamentos é impublicável.
- Tu não te pareces comigo.
- O que você vê em mim pode ter a aparência de um estranho, mas não é um outro. É você, mesmo que não se reconheça. Eu, apesar da umidade deste banheiro mal iluminado, continuo irretocável.
- Ah, estou meio gasto, é isso que quer dizer? Então por que o leitor está com os olhos grudados, querendo saber onde isso vai dar? Quem escreve aqui sou eu, e não tu.
- Tem certeza que tem algum leitor lá fora? Você foi até o ponto de venda vulgarmente conhecido como banca para conferir? E se tem um leitor do outro lado, será que não é alguém que lê o título, olha a ilustração e vira a página, sem dar importância para o texto? O seu iPhone de camelô pode ter conteúdo bem mais instigante. A propósito: por que você detesta tanto a palavra instigante?
- Tu és bem provocante. Tu sabes quem eu sou?
- Se nem você sabe, como eu poderia? Identifico pistas, mas você mesmo não consegue montar o quebra-cabeças. Eu sou apenas o reflexo disso. Você mais parece um fragmentário monte de cacos de vidro.
- Tu deverias ser útil de alguma forma. Dê-me conselhos.
- Pensando morreu um burro é uma frase com a qual eu absolutamente não concordo. Burro não pensa, logo, morre de qualquer outra coisa, menos de pensar. Que conselho eu poderia dar que você já não tenha pensado, uma vez que faz isso compulsivamente, até no banheiro, quem sabe até na hora de dormir? Você tem muitos pesadelos, não é mesmo? Felizmente guardo boa distância do seu quarto.
- Mas se tu me conheces tão aproximadamente, digamos, pode ter pelo menos uma dica, já que o conselho está descartado.
- Não acredito. Autoajuda? Se há um suposto leitor lá fora, entediado ou não, ele lerá isso. Você está sugerindo a papinha pseudoliterária que abarrota as livrarias e que vai soterrar a famosa Feira do Livro de Porto Alegre?
- Talvez tu não saibas, mas conversar com o espelho do banheiro é um hábito consagrado na história da vida privada.
- Tá bom. Lá vai: procure um especialista.
- Eu não preciso de psicanalista.
- Você está mal das vistas, também. Eu disse es-pe-ci-a-lis-ta. Seu texto, quer dizer, sua forma de juntar as palavras, desponta para o anonimato. Se eu fosse você, sinceramente, mudaria de ramo.
- Desponta para o anonimato? Quem você pensa que é? Paulo Francis? Não levo jeito para Caio Blinder.
- Já disse. Eu sou você, que pensa e pesa. Eu reflito, levemente.
- Tu estás querendo dizer que o que eu escrevo é pesado e sem graça?
Pausa dramática.
- Talvez você deva repensar sua profissão, em primeiro lugar. O redator publicitário já foi declarado tão obsoleto quanto a máquina de escrever, papel carbono, mimeógrafo.
- Devo virar diretor de arte?
- Tente plantar temperos. Cor, sabor, aroma. Palavras são insossas.
- Temperos?
- Sim. Manjericão, manjerona, tomilho, salsa, cebolinha e por aí vai. É melhor do que ficar tuitando nos intervalos de um trabalho e outro para apressar a sexta-feira, seu grande dia.
- Eu não acho meu trabalho chato, frequentemente.
- Tá bom. Desde quando você pensa que me engana?
Ainda não tinha lido o blog quando comentei no FB. Sobre eternos felizes e "teautoajudo".
ResponderExcluirDeposito estas idéias não tão felizes na conta de ser mal-humorada. Claro, gostaria de ser considerada centrada e realista, mas sei que para tanto tenho que ser aceita no padrão da normalidade.
E sobre isso, quando o espelho não me responde, escrevo a mensagem na umidade dos azulejos ( o que também já não existe mais, agora são chamados de cerâmica fria); então minha situação ultrapassa o considerado caótica, por que além de falar com objetos, eles já deixaram de existir.