Salvo raras exceções que infelizmente
confirmam a diabólica regra e permitem que esse clichê sobreviva intacto,
parece que as empresas poderiam muito bem sobreviver sem agência de
publicidade.
Indiferentemente do porte, da ambição e do
desempenho, com a família aboletada atrás da mesa decisória ou um afiadíssimo
departamento de marketing, grande parte das empresas mandam e desmandam nas
suas agências, sejam elas dáblius maiúsculos ou mínimos ipsilones.
O papel das agência está cada vez mais
reduzido ao de uma linha de montagem onde a criatividade entra na forma de
palavra e sai como papel picado. Por mais critiva, planejada e organizada que
seja uma agência, sempre chega o momento em que o cliente bota o seu documento
na mesa e passa a tomar decisões por quem ele está pagando mal para fazer isso.
O resultado todos nós sabemos. A cada ano
que passa, o espectro das agências, que engloba dezenas e centenas de perfis
distintos, pode ser resumido na imagem única de um estafeta correndo pra lá e
pra cá para entregar aquilo que o cliente ordenou que fosse feito e que, mesmo
assim, precisou de dezenas e centenas de idas e vindas para ser aprovado por
ele mesmo, exatamente da forma que ele quer.
Mas um dia o criador supremo irá me brindar
com um baú de dinheiro caído do céu, quiçá através da Caixa Federal, e eu
poderei realizar o sonho de fazer uma proposta irrecusável a alguns clientes:
retirá-los de suas empresas e colocá-los em uma agência para que ocupem os
cargos daqueles que eles tantam gostam de mandar fazer isso, fazer aquilo,
fazer isso de novo e aquilo também. Para que a proposta seja irresável, a
promessa deverá envolver salários astronômicos e liberdade criativa total. Gananciosos, eles nem lerão nas letras
miúdas do contrato que todos os trabalhos terão de ser aprovados por mim e que
a possibilidade de demissão foi, criativamente, abolida.
Vou montar uma equipe formada a dedo,
caprichando na criação. Aqueles sabichões que não aprovam nada, fazem todo tipo
de comentário e pedem alterações e opções sem cessar serão os diretores de
criação, redatores e diretores de arte. A esses dedicarei atenção especial.
Serão, inclusive, recebidos com honra na minha sala.
- Não gostei.
- Não gostou do quê?
- ….
- Da ideia?
- ….
- Do layout?
- ….
- Da chamada? É só trocar.
- Não gostei.
- Mas baseado em quê? Quais as diretrizes?
- As mesmas de antes.
- Mas o planejamento estava incompleto e o
briefing também.
- Ótimo.
- Que caminho devemos seguir?
- O importante no caminho é a caminhada.
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