6.7.12

Inversão de papelões


Salvo raras exceções que infelizmente confirmam a diabólica regra e permitem que esse clichê sobreviva intacto, parece que as empresas poderiam muito bem sobreviver sem agência de publicidade.
Indiferentemente do porte, da ambição e do desempenho, com a família aboletada atrás da mesa decisória ou um afiadíssimo departamento de marketing, grande parte das empresas mandam e desmandam nas suas agências, sejam elas dáblius maiúsculos ou mínimos ipsilones.
O papel das agência está cada vez mais reduzido ao de uma linha de montagem onde a criatividade entra na forma de palavra e sai como papel picado. Por mais critiva, planejada e organizada que seja uma agência, sempre chega o momento em que o cliente bota o seu documento na mesa e passa a tomar decisões por quem ele está pagando mal para fazer isso.
O resultado todos nós sabemos. A cada ano que passa, o espectro das agências, que engloba dezenas e centenas de perfis distintos, pode ser resumido na imagem única de um estafeta correndo pra lá e pra cá para entregar aquilo que o cliente ordenou que fosse feito e que, mesmo assim, precisou de dezenas e centenas de idas e vindas para ser aprovado por ele mesmo, exatamente da forma que ele quer.
Mas um dia o criador supremo irá me brindar com um baú de dinheiro caído do céu, quiçá através da Caixa Federal, e eu poderei realizar o sonho de fazer uma proposta irrecusável a alguns clientes: retirá-los de suas empresas e colocá-los em uma agência para que ocupem os cargos daqueles que eles tantam gostam de mandar fazer isso, fazer aquilo, fazer isso de novo e aquilo também. Para que a proposta seja irresável, a promessa deverá envolver salários astronômicos e liberdade criativa total.  Gananciosos, eles nem lerão nas letras miúdas do contrato que todos os trabalhos terão de ser aprovados por mim e que a possibilidade de demissão foi, criativamente, abolida.
Vou montar uma equipe formada a dedo, caprichando na criação. Aqueles sabichões que não aprovam nada, fazem todo tipo de comentário e pedem alterações e opções sem cessar serão os diretores de criação, redatores e diretores de arte. A esses dedicarei atenção especial. Serão, inclusive, recebidos com honra na minha sala.

- Não gostei.
- Não gostou do quê?
- ….
- Da ideia?
- ….
- Do layout?
- ….
- Da chamada? É só trocar.
- Não gostei.
- Mas baseado em quê? Quais as diretrizes?
- As mesmas de antes.
- Mas o planejamento estava incompleto e o briefing também.
- Ótimo.
- Que caminho devemos seguir?
- O importante no caminho é a caminhada.

Não há provas para confirmar tamanha generalização, mas uma caricatura não precisa desse expediente legal. Deus, que como somos testemunhas teve sua ideia decepada pelo cliente, bem que poderia se vingar agora delegando-me esses poderes. A propósito: para qual cliente Deus criou o mundo e o homem? A vaga de arte-finalista ainda está livre.

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