9.10.12

Enquanto imprimo meus cartões


Eu já andava um pouco aturdido com a vida de empregado desde o tempo em que assinavam a carteira, pagavam todos os benefícios, davam férias e prometiam ganhos por produtividade num futuro próximo - a la Delfim Neto, mas tudo bem. Imagina agora que o documento que regista a evolução da carreira de um profissional ficou amareladamente vintage, se esconde em gavetas empoeiradas ou está perdido em baús.

Não digo que ninguém a use mais. Usam, afinal, o Ministério do Trabalho costuma aparecer do nada. Só que, para burlar impostos, pagam apenas uma parte na carteirinha e o resto é tipo o que o pessoal lá em Brasília e outras câmaras gosta muito de fazer: por fora, cá entre nós, ninguém precisa ficar sabendo disso.  

A produtividade também ficou reduzida a uma categoria bem conhecida da política, o futuro-só-no-ano-que-vem.

E a situação mudou ainda mais nos últimos tempos. Além de nos promoverem a prestadores de serviços sem consultar nosso sindicato hahahahahahahahaha...

Desculpa, retomando. Além de nos promoverem a prestadores de serviços sem consulta e mandarem mal nos salários - que vivem na era do gelo e sei lá em qual edição -, mandam muito mal também nas ordens do dia, quase sempre repetitivas como em um quartel ou um berçário, fazendo aquela cena do operário Chaplin, que gira chaves de boca sem parar, outra das imagens vintage dos tempos pós-modernos.

Como se tudo isso não bastasse, os despachos internos têm péssima redação e causam um retrabalho que assume o posto diário de trabalho oficial.Essa sucessão de acontecimentos desagradáveis cria uma sensação esquisita que se arrasta para aquela pastinha que fica ali no canto, a lixeira: a sensação de estar jogando a vida dentro desse utensílio.  

É por isso que eu abri a minha agência, livre de entraves, fluente como um isight. Mas abrir uma agência não é como constituir um armazém de secos & molhados. Ao invés de botar tudo lá dentro, empurrar a porta e esperar os clientes entrarem, primeiro é preciso abrir a porta e sair atrás de clientes, para só depois ter o que colocar lá dentro.

É o que estou fazendo agora: prospecção. Isso não tem hora. Pode ser num evento social entre um canapé e outro, num encontro casual na fila do cinema, numa caminhada pelo parque, num texto de uma revista no qual você é o responsável pelo conteúdo.

O que tenho a oferecer? Blá, blá, blá, nem pensar. Apenas o produto mais raro do mercado: ideia. Essa palavrinha perdeu o acento porque os linguistas estão muito ocupados em fazer coisas sem a menor importância, mas ela não perdeu a majestade. Aliás, acho que está cada vez mais nobre, porque com a classe C no cenário todo mundo acha que tem de ser plebeu na comunicação.

Grande ou pequena, imensa ou micro, a ideia é o produto de uma agência, é o que uma agência faz, embora passe mais a fazer e refazer como uma fábrica de artefatos idênticos, em série. Esse tipo de trabalho, pra usar uma expressão em voga, está insustentável, acabou de acabar.

Embora os manuais de marketing falem obsessivamente em diferenciação, o que temos hoje em dia é “igualação”. Se você quiser assim, dá pra fazer, é até mais fácil, embora chegue a doer de tão ruim. Mas pensar um pouco e encontrar um caminho surpreendente vai destacar a sua empresa. Assim como esse texto me destacou pra você.

Pense nisso. Enquanto eu imprimo meus cartões.

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