Eu já andava um pouco aturdido com a vida de empregado desde o tempo em
que assinavam a carteira, pagavam todos os benefícios, davam férias e prometiam
ganhos por produtividade num futuro próximo - a la Delfim Neto, mas tudo bem.
Imagina agora que o documento que regista a evolução da carreira de um
profissional ficou amareladamente vintage, se esconde em gavetas empoeiradas ou
está perdido em baús.
Não digo que ninguém a use mais. Usam, afinal, o Ministério do Trabalho
costuma aparecer do nada. Só que, para burlar impostos, pagam apenas uma parte
na carteirinha e o resto é tipo o que o pessoal lá em Brasília e outras câmaras
gosta muito de fazer: por fora, cá entre nós, ninguém precisa ficar sabendo
disso.
A produtividade também ficou reduzida a uma categoria bem conhecida da
política, o futuro-só-no-ano-que-vem.
E a situação mudou ainda mais nos últimos tempos. Além de nos promoverem
a prestadores de serviços sem consultar nosso sindicato hahahahahahahahaha...
Desculpa, retomando. Além de nos promoverem a prestadores de serviços
sem consulta e mandarem mal nos salários - que vivem na era do gelo e sei lá em
qual edição -, mandam muito mal também nas ordens do dia, quase sempre
repetitivas como em um quartel ou um berçário, fazendo aquela cena do operário
Chaplin, que gira chaves de boca sem parar, outra das imagens vintage dos
tempos pós-modernos.
Como se tudo isso não bastasse, os despachos internos têm péssima
redação e causam um retrabalho que assume o posto diário de trabalho
oficial.Essa sucessão de acontecimentos desagradáveis cria uma sensação
esquisita que se arrasta para aquela pastinha que fica ali no canto, a lixeira:
a sensação de estar jogando a vida dentro desse utensílio.
É por isso que eu abri a minha agência, livre de entraves, fluente como
um isight. Mas abrir uma agência não é como constituir um armazém de secos
& molhados. Ao invés de botar tudo lá dentro, empurrar a porta e esperar os
clientes entrarem, primeiro é preciso abrir a porta e sair atrás de clientes,
para só depois ter o que colocar lá dentro.
É o que estou fazendo agora: prospecção. Isso não tem hora. Pode ser num
evento social entre um canapé e outro, num encontro casual na fila do cinema,
numa caminhada pelo parque, num texto de uma revista no qual você é o responsável
pelo conteúdo.
O que tenho a oferecer? Blá, blá, blá, nem pensar. Apenas o produto mais
raro do mercado: ideia. Essa palavrinha perdeu o acento porque os linguistas
estão muito ocupados em fazer coisas sem a menor importância, mas ela não perdeu
a majestade. Aliás, acho que está cada vez mais nobre, porque com a classe C no
cenário todo mundo acha que tem de ser plebeu na comunicação.
Grande ou pequena, imensa ou micro, a ideia é o produto de uma agência,
é o que uma agência faz, embora passe mais a fazer e refazer como uma fábrica
de artefatos idênticos, em série. Esse tipo de trabalho, pra usar uma expressão
em voga, está insustentável, acabou de acabar.
Embora os manuais de marketing falem obsessivamente em diferenciação, o
que temos hoje em dia é “igualação”. Se você quiser assim, dá pra fazer, é até
mais fácil, embora chegue a doer de tão ruim. Mas pensar um pouco e encontrar
um caminho surpreendente vai destacar a sua empresa. Assim como esse texto me
destacou pra você.
Pense nisso. Enquanto eu imprimo meus cartões.
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