Já que nós, gaúchos, somos melhores e diferentes em tudo, que cada uma
de nossas empresas alardeia o marketing da bombacha aos quatro ventos, com o
Minuano lá no Top of Mind; já que nossas marcas são tisnadas a ferro em brasa
na mente dos conterrâneos e até nos estrangeiros que vêm pra cá, que se apaixonam pelas
nossas mulheres e não querem mais sair; já que nossas instituições exibem, orgulhosamente,
o brasão e estampam nossas cores em todas as suas campanhas publicitárias; já
que o nosso banco é melhor porque é nosso; já que nossos times de futebol só
não conquistaram mais títulos porque os paulistas e os cariocas são uns
invejosos e sempre dão um jeito de nos roubar; já que cada um de nós, no fundo,
no fundo, no fundo, faz piada com os catarina, zeladores do nosso verdadeiro
litoral; então, meu velho, já que o trilho do trem é esse, que é por aí o trote
do cavalo, o nosso mercado publicitário está na contramão da nossa história, que
é a única que interessa. Está na hora de botar o relho na mesa – em respeito às
prendas que estão lendo este manifesto – e perguntar: que negócio é esse de
imitar a festinha cannina dos franceses azedos ou o glamour jeca hollywoodiano?
É hora de dar um basta nisso, tchê. Temos que assumir o nosso gauchismo, abolir
a ARP de vez - não sem antes distribuir uns títulos de sesmaria aos que lá
passaram por serviços prestados - e criar o Centro de Tradições Publicitárias
Gaúchas. A primeira inciativa bombástica do CTPG seria fechar a porteira do
Salão da Propaganda, que ficou muito afrescalhado, e criar o Galpão da Propaganda.
E nada de palestrinha. Gaúcho que é gaúcho sabe das coisas e não precisa ficar
de papo furado nem de trololó. Entra na roda de chimarrão pra contar vantagem e
mentira, que é tudo a mesma coisa. E tem mais: pra que trazer gente do
estrangeiro pra cá se eles não têm nada a nos ensinar? O Galpão da Propaganda
seria um arrasta pé dos mais cuiudos, com a OSFA (Orquestra Sinfônica dos
Fagundes) fazendo uma abertura épica e triunfal com o nosso hino. O encerramento
teria o Canto Alegretense, entoado à moda MPG, a música popular mais bonita de
todas. Na ocasião, seria lançado o livro Ideias Macanudas, com as ideias mais
criativas de todos os tempos. Como gaúcho que é gaúcho gosta de festa mas
também fica todo faceiro com um lustro no ego, o Galpão da Propaganda teria uma
programação de prêmios, nas seguintes categorias: Melhor Campanha do Planeta,
Arremesso de Briefing, Melhor Layout de Prenda, Jogo do Título de Osso, Melhor
Causo de Marketing, Maior Logo, Melhor Design de Bolicho, Melhor Capataz de
Agência, Melhor Peão Arte-finalista, Melhor Estância Virtual, Cancha Reta de
Prazos Urgentes, Publicitário Gaudério do Ano e o Grade Prêmio Pelego de Ouro. A estatueta
entregue aos gaúchos mais destacados no Galpão da Propaganda seria o Laçador de Ideias
e cada um dos participantes receberia uma versão do mesmo em rapadura. Pra não
ficarem dizendo por aí que a gente é bairrista, o CTPG organizaria uma singela
cavalgada pelo mundo para compartilhar a nossa experiência e enriquecer outras
culturas, que ainda meio pobrinhas. Afinal, em matéria de network e redes
sociais, fomos os primeiros pioneiros, pra deixar bem claro. Ou tu achas que o
gaúcho andava pra lá e pra cá por estes pagos só por vagabundagem e pra correr
china? Era para espraiar a nossa cultura, tchê. E é por isso que a nossa
publicidade precisa fazer esse upgrade que, na linguagem gaudéria, nada mais é
do que entrar nos eixos ou tomar uns cascudos.
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