Um secador de cabelos de salão de beleza, mas não o de mão.
Aquele que mal se equilibra sobre quatro pés finos. Ele está no centro de uma
folha inteira, fundo branco. Uma haste sobe da base como o pescoço de uma
girafa, se encaixa e dá suporte para o “capacete” onde as damas encaixam a cabeça
para o retoque final no penteado. Mais nada na volta além do nome do evento e
da entidade promotora, bem pequenos, indicando que o cliente é do ramo. Vi esse
cartaz do Salão da Propaganda há mais de 15 anos e todo final de ano me lembro
dele. Ele tem aquela simplicidade criativa que se comunica de uma forma surpreendente,
que dá vontade de olhar, de analisar os detalhes, registrando para sempre essa
impressão. Não sei de quem foi a ideia, mas é quase - eu disse quase - uma obra
de arte. Talvez devesse até ser peça de museu.
Parece que essa é uma das formas que a publicidade mais
gosta de ser retratada. Sempre glamourosa, bela, pronta para arrasar. O vírus
de Cannes não foi inoculado porque ninguém deseja se curar da enfermidade. O
tapete vermelho, os flashes, a expectativa de subir ou de simplesmente fazer
parte daquele grupo especial e poder aplaudir os melhores da hora como quem
aplaude a si mesmo, são ainda a grande sensação de sucesso e, claro, de
estrelato.
Enquanto outras profissões vão para seminários, simpósios,
debates e workshops para se aperfeiçoar e buscar a melhoria de suas
perspectivas e condições de trabalho, a
propaganda o que faz? Vai para o salão de beleza e para a festa de final de ano.
O resto fica para o Dia de São Nunca, porque preferimos nos igualar aos
artistas. Ah, somos geniais e geniosos, verdadeiros galos da propaganda.
Dominamos o conhecimento mágico sobre as marcas pela crista, podemos
transformar a realidade de um produto num estalar de ideias, somos os
menestréis da arte de disparar vendas relâmpagos e, claro, o conjunto da nossa
obra é prima. Portanto, merecemos vestir as máscaras sagradas do drama e da
comédia, subir ao palco, ser soterrados por aplausos, flashes e incensados pelo
brilho lancinante dos holofotes da nossa maninha querida, a mídia.
No entanto, no dia a dia, quando o bicho pega, quando o
salão de beleza está lotado e só dá pra ir na barbearia, sempre surge a
comparação com outros profissionais como argumento. A fábula do médico é
famosa. Se ninguém diz ao doutor quais
são o diagnóstico e a prescrição, como um leigo qualquer pode sugerir ao
publicitário o que ele tem de fazer? Jamais. A verdade é que, no embate diário
da nossa profissão não há laquê nem maquiagem que aguente. Seja micro, pequeno,
médio ou gigantesco, nossas agências têm defeitos congênitos, imperfeições
adquiridas e transmitidas, falhas e erros que travam nossos projetos,
interferem em nossa imagem e questionam nosso modo de pensar e de agir no
mercado. Até parece que não temos problemas. Aliás, o mundo publicitário sempre
evitou essa palavra na primeira pessoa. O problema é sempre dele, cliente. Nós
somos os artífices das soluções miraculosas.
Mas insistimos no salão como sinônimo de beleza, alegria e
festa. A pergunta que fica é: por que não fazemos isso e depois procuramos discutir
mais o que está acontecendo no mundo propaganda, o que pode ser feito para
melhorar as condições de trabalho, a imagem do mercado e das agências, enfim, alguns
dos tantos problemas que existem. Nosso cartaz no mercado seria muito melhor se
fizéssemos isso.
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