30.5.13

Esmo e ermo




No tempo da minha Olivetti Lettera 32, eu costumava botar um papel na máquina e despejar-lhe palavras e frases impulsivamente. Influência do meu xará André Breton, que acreditava na escrita automática como forma de evitar os pensamentos conscientes do autor através do fluxo do inconsciente. Esses surrealistas eram todos meio malucos, mas eu gostava do exercício, às vezes até me sentia um deles, tanto pela estranheza e loucura como pelo prazer de jogar palavras fora. Agora que escrever não faz mais barulho e exige só um mínimo de esforço dos dedos, melhor ainda. Funcionava assim.

Desconcordar de si mesmo com frequência. É assim que se tem  50% de chances de estar redondamente enganado, logo, a caminho de alguma certeza, pelo menos. Estar a caminho de alguma coisa ou lugar é o máximo que se consegue chegar em termos de localização. O GPS da vida  é exatamente esse. Um pensamento pode ser traduzido em números, mas os números não mentem, logo, eles não têm imaginação, eles servem apenas para a ciência. Ter queixas do mundo ou de si mesmo é uma grande bobagem, à qual a gente se dedica com fervor por muitos anos. Os reclames mundanos e pessoais devem persistir mas, com o tempo, só pela extensão de um suspiro ou de uma frase. Uma revolta só tem valor quando significa algo para muitas pessoas e para cada uma delas. Todas as outras revoltas são infantis e estéreis. Discordemos o tempo todo daquilo com o qual concordamos. Nós não temos como saber se estamos certos ou errados. Nós temos apenas que seguir por esta lotérica encruzilhada. A vida se resume a isso. Sente como é amplo e irrestrito.

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