No tempo da minha Olivetti Lettera 32, eu
costumava botar um papel na máquina e despejar-lhe palavras e frases
impulsivamente. Influência do meu xará André Breton, que acreditava na escrita
automática como forma de evitar os pensamentos conscientes do autor através do
fluxo do inconsciente. Esses surrealistas eram todos meio malucos, mas eu
gostava do exercício, às vezes até me sentia um deles, tanto pela estranheza e loucura
como pelo prazer de jogar palavras fora. Agora que escrever não faz mais
barulho e exige só um mínimo de esforço dos dedos, melhor ainda. Funcionava
assim.
Desconcordar de si mesmo com frequência. É
assim que se tem 50% de chances de estar
redondamente enganado, logo, a caminho de alguma certeza, pelo menos. Estar a
caminho de alguma coisa ou lugar é o máximo que se consegue chegar em termos de
localização. O GPS da vida é exatamente
esse. Um pensamento pode ser traduzido em números, mas os números não mentem,
logo, eles não têm imaginação, eles servem apenas para a ciência. Ter queixas
do mundo ou de si mesmo é uma grande bobagem, à qual a gente se dedica com
fervor por muitos anos. Os reclames mundanos e pessoais devem persistir mas,
com o tempo, só pela extensão de um suspiro ou de uma frase. Uma revolta só tem
valor quando significa algo para muitas pessoas e para cada uma delas. Todas as
outras revoltas são infantis e estéreis. Discordemos o tempo todo daquilo com o
qual concordamos. Nós não temos como saber se estamos certos ou errados. Nós
temos apenas que seguir por esta lotérica encruzilhada. A vida se resume a
isso. Sente como é amplo e irrestrito.

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